segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

SAMBA TORNA-SE "LINHA DE MONTAGEM" PARA SAMBREGAS AMBICIOSOS

PÉRICLES (EX-EXALTASAMBA) E LEANDRO LEHART: O PRETENSIOSISMO EM RITMO DE SAMBA.

Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, o brega-popularesco, em suas expressões musicais, segue o princípio um tanto duvidoso de primeiro fazer sucesso gravando um repertório mais tosco e depois trabalhar uma falsa sofisticação artística para parecer "artista sério".

O samba é um dos principais ritmos que sofrem esses surtos de pedantismo, até porque, em outros tempos, os diluidores do samba, em algum momento de suas carreiras, imitavam tão somente o Zeca Pagodinho e o Fundo de Quintal, mas hoje tentam "caprichar" no seu pretensiosismo artístico.

Dois queridinhos se projetam nesta falsa sofisticação que faz com que a "MPB de mentirinha" de Alexandre Pires e Belo soem pretensões bastante modestas, embora igualmente oportunistas em relação aos emergentes em questão: o ex-Exaltasamba Péricles e o ex-Art Popular Leandro Lehart.

Péricles tornou-se aquele símbolo do "sambão da grande mídia", aquele samba "corretinho", com cenário imitando com maior realismo possível os ambientes dos subúrbios cariocas, e os arranjos - feitos por especialistas a serviço das gravadoras - , tecnicamente corretos, tentam se aproximar da autenticidade do samba autêntico.

O ex-Exaltasamba tenta parecer mais "sofisticado" que o ex-colega Thiaguinho e ter mais visibilidade que o outro ex-colega, Chrigor, apostando numa cosmética musical e visual que aposte em muito luxo e pompa, se aproveitando dos valores aristocráticos difundidos pela ala comercial e elitista da MPB através das imposições das grandes gravadoras.

Indo mais além no pretensiosismo, mesmo assim Péricles continua se concentrando nos covers, como os ídolos de "pagode romântico" e "sertanejo", na esperança de serem vinculados à MPB autêntica mais acessível. "MPB de mentirinha" do mesmo jeito, mas com "categoria".

Leandro Lehart, por sua vez, virou queridinho das esquerdas médias e soros-positivas. Se Péricles do Exalta é bastante badalado pela grande mídia, tendo o Domingão do Faustão como sua vitrine maior, Lehart tenta ser uma suposta antítese ao outro, buscando visibilidade nas "viradas culturais" enquanto passa imagem de "coitadinho" nos círculos intelectuais.

Lehart tenta agora trabalhar um suposto sambalanço "de qualidade", "tipo exportação", duas décadas depois de fazer parte da geração de supostos "pagodeiros" que gravaram discos cafonas e faziam performances constrangedoras nos pleibeques de programas de TV.

PRETENSÃO TARDIA

Apesar das diferenças de contexto, o problema dos dois é o mesmo. Eles tentam soar como "artistas de qualidade" de forma tardia, depois de participarem com gosto das breguices que gravaram quando começaram suas carreiras.

E aí o problema envolve não só a diluição do samba, mas a de outros movimentos da música popular. Primeiro, seus ídolos investem em discos cafonas, de péssima mixagem, repertório piegas, atitudes constrangedoras, elementos que contribuem para seu sucesso estrondoso.

Depois, eles tentam uma sofisticação que nada tem de espontânea ou natural, facilitada mais pela proteção da grande mídia ou de intelectuais badalados e que dão margem ao que se entende como a "linha de montagem" dos bregas mais ambiciosos.

A MPB autêntica torna-se, como "linha de montagem", uma mera técnica de "boa música", incluindo todo o aparato visual e tecnológico associado, a ser imitada pelo brega veterano em busca de algo para fazer. Tudo parece autêntico e genial, mas é tendencioso e tardio. Mais parece uma música para agradar as elites do que para mostrar algum valor, se é que existe algum.

Num país em que o samba é exemplo de inúmeras tendências criativas, é constrangedor ver sambregas só se lembrando em fazer "música séria" na última hora. Tivemos nomes como Jorge Veiga, Dênis Brean, Noite Ilustrada, Roberto Silva e Ed Lincoln que, mantendo ou rompendo a tradição do samba, o transformaram brilhantemente.

É lamentável ver que ídolos do "pagode romântico" só queiram fazer música séria na última hora, se julgando "injustiçados", "mal-orientados" ou "explorados". Eles deveriam ter pensado muito antes de fazerem sambregas. Se queriam parecer geniais, por que não fizeram no começo? Mudar no meio do caminho é fácil, quando boa parte da antiga estrada foi percorrida com gosto e prazer.

Daí que a geração neo-brega dos anos 90, entre "pagodeiros", "sertanejos" e outros, tenta ingressar no primeiro time da MPB com seu pretensiosismo tardio, com sua falsa sofisticação. Só que o que eles esquecem é que a boa música não é feita com técnicas bem imitadas, mas com a alma, com o coração.

Péricles e Leandro Lehart não tiveram, no começo das carreiras, a firmeza necessária que tentam adotar no presente. Daí suas guinadas, embora pareçam "corretas", soem na verdade tendenciosas e oportunistas. Eles querem ser levados a sério, mas já é tarde demais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...