sábado, 21 de dezembro de 2013

ORGANIZAÇÕES GLOBO E A BREGALIZAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A Globo sempre deu o maior apoio à bregalização. Mesmo para os ídolos tidos como "injustiçados". É certo que, num momento ou em outro, ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas desapareçam da mídia por algum tempo, mas isso não significa que a mídia os discriminou.

Pelo contrário, seu "desaparecimento" se deve muito mais à reação de um público cansado da mesmice desses ídolos do que realmente de qualquer desagrado que estes ídolos poderiam causar aos barões da grande mídia.

Portanto, é a sociedade moderna, aberta, progressista que reage ao império da breguice, não os barões da grande mídia nem a supostos fósseis de movimentos moralistas e policialescos que só existiram nos tempos da República Velha, há cerca de cem anos atrás.

Mesmo o "funk", que posa de "discriminado" e "marginalizado" pela mídia, sempre teve as portas das Organizações Globo abertas para o ritmo. Abertas, escancaradas, até além da conta e acima do que se pode admitir.

Na semana passada, o programa Encontro Com Fátima Bernardes, considerado reduto de reciclagem de ídolos bregas, fez um programa especial com os chamados "bregas de raiz". O ator Luigi Baricelli, que estava entre outros presentes no programa, disse que o brega é "transformador".

Agora é a vez do Multishow lançar o especial Novelas Anos 80 do seu programa Um Barzinho, Um Violão, um "baiaio de gatos" que mistura a MPB mais acessível com os neo-bregas. O especial tem, da ala neo-brega, nomes como Ivete Sangalo, Chitãozinho & Xororó, Thiaguinho e Alexandre Pires, e, entre os pós-bregas, já inclui nomes como Michel Teló.

Tais campanhas são apenas dois exemplos do contra-ataque que as Organizações Globo fazem diante do desgaste do brega, aproveitando também a crise provocada pela MPB autêntica com o caso Procure Saber, embora seja mais uma crise de reputação do que crise de popularidade, já que a MPB continua em alta rotação no país, só está um tanto desmoralizada.

As grandes gravadoras, que são empresas transnacionais - no sentido neoliberal de corporações estrangeiras instaladas no Brasil - , são em boa parte culpadas, direta e indiretamente, pela crise da MPB nos últimos anos e pelo crescimento da música brega e seus ritmos derivados.

De um lado, pelas imposições feitas aos artistas de MPB autêntica, obrigados a transformar a vibrante música brasileira dos anos 60 e 70 em fórmulas comerciais inócuas que se tornaram típicas na década de 80, o que fez a juventude trocar a MPB pelo Rock Brasil e provocou um êxodo da própria MPB que migrou para selos nacionais como Trama e Biscoito Fino.

De outro, a pirataria causada pelos discos caríssimos do mercado oficial fez com que a MPB perdesse demanda nas classes C, D e E, enquanto mesmo a classe média e parte da classe abastada, pela suposta curiosidade de alguns títulos pirateados, passasse a comprar discos popularescos, que custavam mais barato.

A pirataria pode não ter rendido o lucro esperado para os ídolos brega-popularescos, mas lhes deu visibilidade e projeção descomunais, a ponto de hoje quase não termos MPB no nosso país. A produção de MPB autêntica existe, mas ela é pequena, e, mesmo assim, dotada em maioria por artistas burocráticos tomados de um vago ecletismo e uma erudição superficial.

A grande mídia contribuiu também para "embelezar" os ídolos bregas, completando o trabalho das grandes gravadoras, que achou ótimo ver a MPB debandar de seus quadros de contratados, enquanto os neo-bregas passaram a preencher virtualmente a lacuna deixada pela MPB, de acordo com a ótica dos executivos das grandes gravadoras.

Assim, os ídolos neo-bregas se tornam mais adaptáveis às imposições do mercado, podendo fazer, de bom grado e até com certo entusiasmo, o que artistas de MPB autêntica fizeram por simples obrigação, muitas vezes a contragosto e até com certa indignação.

E aí as Organizações Globo cumprem um papel decisivo na inserção mercadológica dos neo-bregas - ou mesmo de nomes "provocativos" como os funqueiros e forrozeiros-bregas - em classes mais abastadas, dando um verniz "sofisticado" ou "vanguardista" conforme a natureza de cada ídolo desses portes.

O discurso "ativista" que hoje faz o "funk" tentar buscar o que seus propagandistas chamam de "reconhecimento sócio-cultural" foi inventado pela Globo, com uma ajudinha da Folha de São Paulo. A Globo deu a visibilidade necessária para os funqueiros, embora poucos admitam essa realidade.

Já os neo-bregas propriamente ditos - incluindo nomes do "pagode romântico" e do "sertanejo" tidos como "sofisticados", como Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó - devem às Organizações Globo pelas mudanças "cosméticas" que receberam, passando a investir numa pseudo-MPB que está  de acordo aos clichês ideológicos atribuídos à MPB mainstream.

Daí o apoio que a Globo continua dando a essa "MPB de mentirinha", que lota plateias, vende discos, obedece às normas de etiqueta e aos artifícios mais comezinhos do que se supõe ser "boa música" ou "boas performances". É uma música bem comportada, cheia de luz, luxo e pompa, mas que não produz arte verdadeira que acrescente algo de relevante à música brasileira.

Tanto que seus ídolos se alimentam de covers, de aparição na grande mídia, e até de ajudinhas da revista Caras, por exemplo. Isso porque sua "MPB de mentirinha" é inócua, inofensiva, e consegue projetar na grande mídia porque ela parece "certinha", "arrumadinha", mas nada tem de espontânea ou realmente vibrante.

Daí que esses "artistas" ganham um novo impulso das Organizações Globo para fazerem mais uma vez o "dever de casa". Vão gravar covers com arranjos luxuosos, vestindo ótimas roupas, com cenários luxuosos, boa iluminação e a ajudinha de outros músicos e arranjadores. Tudo dando no mesmo, nada fazendo diferença à carência de boas novidades para a MPB.

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