domingo, 22 de dezembro de 2013

O "ROLÊ" DO PAÍS DO BREGA-OSTENTAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Em artigo publicado dias atrás no blogue Farofafá, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, espécie de colaborador free-lancer da ditadura midiática, tentou creditar os "rolês" dos shopping centers como se fossem uma "rebelião popular" ocorrida nos redutos do consumismo brasileiro.

Evidentemente vendo a revolta dos encontros combinados na Internet como um "mal necessário", como se tudo que viesse sob o rótulo de "popular" fosse necessariamente "revolucionário", Sanches foi vincular a geração que marcou encontro pela Internet e depois aprontou confusão ao "funk ostentação" que é uma de suas prioridades.

Com seu pseudo-anti-capitalismo cujo ícone internacional é o magnata George Soros - que, sabemos, dá consideráveis gorjetas ao Coletivo Fora do Eixo do qual Sanches é militante - , o jornalista paranaense-paulista tenta convencer que, dos funqueiros-ostentação, virão novos equivalentes a João Gilberto, Cartola, Caetano Veloso ou mesmo Chico Buarque e Lobão.

Sanches, no seu esquerdismo um tanto caricato e confuso, insiste sobretudo em promover os ídolos do "funk ostentação", "lamentando" não haver uma porta-voz feminina (há, sim, a tal da MC Sexy, mas ela parece Anitta demais para a retórica do jornalista) e exaltando o ídolo máximo do dirigismo cultural, MC Guimé.

CONSUMISMO E OLIGARQUIAS POLÍTICO-MIDIÁTICAS

Evidentemente, Sanches parece superestimar as mudanças em torno do consumismo nos shopping centers, porque o fato de pessoas que eram associadas aos estereótipos de frentistas de gasolinas, porteiros de prédios, lixeiros etc - e eu diria também feirantes, pedreiros, camelôs ou coisa parecida - estarem frequentando shopping centers não é, por si, algo revolucionário.

Afinal, isso é apenas uma parte da coisa. Há o consumismo, mas falta a cidadania. Não se faz socialismo melhorando apenas o consumo, e hoje as modernas correntes do neoliberalismo admitem algum estímulo ao consumo das classes baixas, daí a aceitação dada a projetos de bem-estar social, que nos EUA são conhecidos como Welfare State (Estado de Bem-Estar Social).

O que Sanches ignora é que a suposta "rebelião" que ele tanto vê na bregalização do país é fruto do empenho dos barões da grande mídia. Pois a sua querida ascensão da axé-music, do "pagode romântico" (do qual ele ironiza o termo "mauricinho"), do "funk", do "sertanejo" e outras modas popularescas, são movimentos MI-DI-Á-TI-COS e não "CUL-TU-RAIS e AR-TÍS-TI-COS".

Será que Sanches, com uns três anos de idade a mais que eu, desconhece que durante o governo José Sarney, ele e seu ministro Antônio Carlos Magalhães, ambos conhecidos oligarcas políticos, deram de presente a empresários e políticos que os apoiavam emissoras de rádio e TV que "desenharam" a suposta "cultura popular" dos anos 90?

Se não fossem eles, a cultura popular não sofreria o caráter caricato que marcou os anos 90, em que a queda de qualidade não é apenas uma questão de um suposto horror estético elitista, mas pela incapacidade dos ídolos "populares" de hoje produzir valores, conhecimento, arte, no sentido social do termo.

É constrangedor vermos a diferença que havia outrora  num Pixinguinha, num Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, ou, mais adiante, numa Elza Soares, que não deixam passar vinte anos de carreira para produzir obras de grande relevância. Ou Milton Nascimento, que logo no começo da carreira surpreendeu o mundo com um primeiro LP de altíssima sofisticação melódica.

Compare essa diferença com a de hoje, em que um mal-humorado Leandro Lehart espera vinte anos para imaginar se poderia ter sido um artista revolucionário. Primeiro seus ídolos despejam as porcarias que rendem dinheiro, para duas décadas depois posarem de "artistas sérios" fazendo repertórios tecnicamente corretos.

Hoje os ídolos "populares" são caricatos, despreparados artisticamente, e mesmo os ditos "conceituados" Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires precisam de outros arranjadores e repertório alheio para se segurarem nas carreiras. Só muito tardiamente eles tentam fazer uma "música de qualidade" sem vida, apenas cosmética, feita para o agrado da mídia e do mercado.

Não fossem os "coronéis" Sarney e ACM, não teríamos esse espetáculo constrangedor de ídolos que só percebem que poderiam ser melhores do que eram muito tardiamente, gente que esculhambou a MPB no começo de suas carreiras de sucesso, mas recorrem a ela quando estão à beira do ostracismo.

Chega de condenar as tais divagações contra supostos horrores estético-moralistas. Chega de usar a sociedade de 1910 para explicar a reprovação à breguice de hoje. A  breguice é perecível, seus ídolos surgiram para serem descartáveis, mesmo. Era seu propósito desde o começo.

O problema é que existe um poderoso lobby intelectual, do qual Sanches faz parte, que quer que essa pseudo-cultura seja levada a sério demais. Acha que o hit-parade radiofônico mais popularesco tem os segredos do futuro folclore, da revolução social e da emancipação popular do país. Grande, grande engano.

Tudo isso é feito apenas para o consumo. Tudo isso se alimentou pelo jabaculê, pela politicagem, pelo poderio midiático. Não tem como escapar. O logotipo da Globo sobre funqueiros, José Augusto, Gaby Amarantos, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Luan Santana, Thiaguinho, Michel Teló etc é forte demais para eles serem tidos como "à margem da mídia".

PURISMO

Como um "Reinaldo Azevedo do B", Pedro Alexandre Sanches dá sua concepção do mais gritante purismo sócio-cultural. Como nos demais intelectuais pró-brega, que mesmo condenando o purismo dos outros, apelam para o mais explícito PU-RIS-MO de manter os pobres sempre na sua forma caricatural, entre o grosseiro e o abobalhado, entre o violento e o piegas.

Nada mais purista. O pobre pode entrar num shopping center, mas não pode deixar a favela. Ele pode falar, mas não pode estudar. Pode rebolar, mas não pode produzir grandes melodias. Época difícil para um Cartola e um Pixinguinha viverem, se fossem jovens hoje, porque sua grande arte seria pejorativamente tida como "elitista".

O pobre - ou o simbólico "ídolo dos pobres", esse carinha semi-rico que é parceiro do jabaculê radiofônico, podendo ser patrocinado até pelo latifúndio mais sanguinário - não pode produzir arte de qualidade, ele que se contente em fazer seus arremedos e rascunhos, seja carinhosamente protegido pela intelectualidade e leve 20, 25 anos para tentar parecer "artista sério".

A intelectualidade cultural dominante, mais "bacaninha" e um tanto populista quer apenas que o povo pobre fique na mesma com mais dinheiro. Nada de educação, nada de cultura melhor, isso só é admitido quando rende alguma vantagem pessoal para a intelectualidade paternalista e complacente (e contente) com essa bregalização toda.

Que o povo pobre permaneça mal-educado, grosseiro, que provoque confusão nos shoppings, que "invada a praia dos outros" com sua cafonice, sua breguice, seu grotesco, seu piegas. E que tenha mais consumismo e menos cidadania.

Daí ao apoio a tudo do brega-ostentação para fazer o jabaculê de hoje ditar as normas do folclore do futuro, sob as bênçãos das elites "pensantes", que, fantasiadas de esquerdistas, joaquim-barbosificam a cultura brasileira entregando-a à bregalização em busca de novas reservas de mercado.

Para a intelectualidade dominante, BraSileiros o caramba: melhor que fossem Bra$ileiros. Provocativamente condizente para o mercado que a intelligentzia diz que morreu ontem mas que será ressuscitado por ela amanhã.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...