segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O GLOBO ACHA QUE GANG DO ELETRO É "VANGUARDA"


Por Alexandre Figueiredo

Desde que veio o tal brega-cult, a partir do tributo "roqueiro" a Odair José, tudo pode acontecer. Pior: se foi produzido até mesmo um tributo "alternativo" ao Raça Negra, então qualquer coisa pode acontecer.

Desta vez, a crítica do Segundo Caderno de O Globo, na edição de ontem (29.12.2013) na eleição dos dez melhores discos de 2013, escolheu um do grupo de tecnobrega Gang do Eletro, definido como "vanguarda" pela pequena resenha. Tão ridículo quanto desejar o Nobel da Paz a Justin Bieber pela sua fama de "pegador". Mas um prato cheio para o esquema jabazeiro que atinge a crítica brasileira.

A Gang do Eletro é o Bonde do Rolê de vez, não pelo fato de tentar um sucesso no exterior - o grupo pop-rock-funqueiro "classe média" do Paraná apenas virou um exotismo aos olhos dos gringos, que o viram apenas como uma "divertida piada" - , mas pelo fato de ser queridinho da crítica "especializada".

Desde o começo dos anos 90 não víamos algum sinal de uma cultura alternativa que se projetasse bem na imprensa musical. E o rótulo "alternativo" se serviu a tanta porcaria, que de anos em anos chegou-se ao ponto mais constrangedor de dizer que até Harmonia do Samba é "alternativo".

Então aqui "alternativo" tem mais a ver com Lady Gaga - que é o mainstream do mainstream do mainstream, mas metido a "arte performática pós-modernista" - do que com as riot grrrls do rock independente estrangeiro, ou de nomes como a recém-casada Vanessa Carlton, que procuram colocar as melodias acima da atitude. E isso é ruim.

Infelizmente, ser "alternativo", para a crítica especializada no Brasil, não é mais uma questão de alguém fazer uma música diferente, mas de qualquer um fazer uma atitude qualquer que os jornalistas musicais achem "provocativa" e "legal".

Muitos intérpretes sem pé nem cabeça viram "vanguarda" para a "panelinha" jornalística apenas porque têm aquele jeitão "esperto", com aquela pose de quem "saca tudo", mesmo que musicalmente seja oco, confuso, impreciso, retrógrado ou medíocre. Basta ter alguma "atitude" e uma pose de "bacana", prometer uma "mistura" de sons (mesmo que ruim) e pronto, virou "vanguarda alternativa".

Ah, mas aí, com a blindagem intelectual que sofremos, tão ruim quanto a dos "urubólogos" da grande imprensa, fazer críticas assim são vistas como "preconceituosas". Ridículo. E a intelectualidade cultural dominante, tida como "progressista" por ser amiga de fulano, sicrano ou querer algum "dimdim" do MinC, nasceu no mesmo ninho dos "urubólogos", só cresce em cativeiros diferentes.

Cultura alternativa não é uma questão de adotar uma piada tão esperta que, em vez de ser considerada engraçada, ela é levada a sério demais. Neste sentido, a Gang do Eletro se insere no contexto dos bobos-alegres da EmoPB de nomes como Kitsch Pop Cult, Vivendo do Ócio e tantos outros pseudo-vanguardistas.

A única coisa que eles têm é apenas muita informação. São apenas grupos de bons internautas, que consultam a Internet aqui e ali em busca de algum fragmento de expressão cultural. Mas isso não os faz geniais nem vanguardistas.

Grande erro da crítica apostar na Gang do Eletro como "vanguarda musical". Não é. Que saudades dos tempos em que a imprensa "corporativista" da Bizz exaltava nomes como Fellini, Akira S e as Garotas que Erraram, Violeta de Outono e Voluntários da Pátria. Esses, sim, eram alternativos. Assim como Vzyadoq Moe, e olha que havia quem achasse este "engraçadinho".

Mas hoje é a Gang do Eletro, o Bonde do Rolê, o Kitsch Pop Cult que são levados muito, muito a sério. Assim como o tal tributo "alternativo" ao Raça Negra. De repente, veio essa obsessão pelo brega que parece uma unanimidade. Uma unanimidade tão burra quanto aquela questionada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Brega nunca foi vanguarda. Sempre foi e continua sendo retaguarda, com seus cenários de subúrbios sujos e gente feliz porque vive no subemprego e só se distrai na bebedeira. Nada menos vanguardista que isso.

Mas no país em que Merval Pereira é imortal da ABL, Joaquim Barbosa é presidente do STF e Pedro Alexandre Sanches é intelectual de esquerda, faz sentido chamar Gang do Eletro de vanguarda e achar Raça Negra alternativo. Assim não dá para sonhar com o Brasil no primeiro mundo. Um sal de frutas, por favor!!

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