sábado, 28 de dezembro de 2013

O ANTI-ESQUERDISMO DE "FAROFAFÁ"


Por Alexandre Figueiredo

A julgar pelo posicionamento em textos recentes, começa a preocupar a postura dos jornalistas Eduardo Nunomura e Pedro Alexandre Sanches, a dupla responsável pelo blogue Farofafá, hospedado pelo portal da revista Carta Capital.

Despejando suas "urubologias" aos que chamam de "parte das esquerdas" ou "esquerda-uspiana", os dois blogueiros, embora "sem situados" numa intelectualidade aparentemente de esquerda, seguem o mesmo caminho que havíamos conhecido de antigos figurões das esquerdas que hoje se tornaram neocons (neo-conservadores).

Há muito mostramos que o Farofafá segue uma perspectiva de "livre mercado" e adapta a visão de "fim da História" de Francis Fukuyama para os parâmetros da cultura brasileira, não somente a musical, como também a comportamental.

Protegidos pelo rótulo "popular", os blogueiros do Farofafá se passando por "progressistas", mas o que eles querem é tão somente a permanência do status quo mercadológico e midiático que alimenta os chamados "sucessos populares" brasileiros, respaldados por emissoras de rádio e TV controladas por grupos oligárquicos e até mesmo políticos (de linha conservadora, vale lembrar).

O grande problema que se vê é que Farofafá adota posturas muito estranhas, para um blogue que se autoproclama "culturalmente à esquerda". Que seus blogueiros pensem o que quiserem, tudo bem, mas saibam pelo menos para que lado estão indo, já que, junto ao direito de pensar, existe também a responsabilidade pela natureza de seu pensamento.

O Farofafá pensa de forma neoliberal. O blogue fala neolibelês com dialetos tropicalistas. A visão de cultura brasileira é a do "livre mercado", cuja analogia é notada no eufemismo "diversidade cultural" em torno da aceitação do tudo do tudo do tudo. Seja lixo ou luxo e o que estar entre um e outro.

Enquanto Sanches e Nunomura festejam a "morte do mercado" e a "agonia da grande mídia", eles na verdade ressuscitam o mercado e a grande mídia nesse teatrinho discursivo. No fundo querem apenas que o poderio midiático não se preocupe em criar ou manter escritórios em Los Angeles, Nova York ou São Paulo, mas que exerça o seu poder de exploração do pretexto do "popular".

O que eles querem é que o mercado musical e comportamental continuem movimentando como se movimentavam durante as eras Collor e FHC, ou mesmo durante os períodos dos generais Médici e Geisel, em que floresceu a bregalização do país. Eles apenas querem que a bregalização se torne mais radical, derrubando os últimos redutos (ou trincheiras) restantes da MPB autêntica.

O perigo maior disso é que o suposto esquerdismo deles está seguindo o mesmo caminho "imparcial" que nomes como Marcelo Madureira, Arnaldo Jabor, Sônia Francine, Roger Rocha Moreira e Lobão, que eram esquerdistas bem mais autênticos e sinceros que os neoliberais enrustidos do Farofafá, que são pseudo-esquerdistas, haviam seguido antes.

ILUSÕES PERDIDAS

A fazer a comparação com Arnaldo Jabor e Lobão, o direitismo deles se apoia num saudosismo ferido que os dois, cineasta e músico, tiveram em relação a um passado que não vivem mais, com seus amigos mortos e o processo sócio-político aquém das expectativas dos antigos esquerdistas.

Arnaldo viveu o calor do Cinema Novo, dos CPCs da UNE, conviveu com gente hoje saudosa  como Leon Hirzman, Glauber Rocha, Norma Bengell e Oduvaldo Vianna Filho, percorreu os cenários sócio-culturais de um Distrito Federal que se transformava na Guanabara muito antes da confusa fusão que a juntou ao antigo Estado do Rio de Janeiro.

Lobão viveu o calor do Rock Brasil e dos movimentos culturais de 1977, conviveu com os saudosos Cazuza, Júlio Barroso e sua irmã Denise (a Lonita Renaux da Gang 90) e o cineasta Lael Rodrigues. Viveu a vida louca vida dos cenários oitentistas da juventude tardiamente hippie e alegremente sonhadora do Brasil cuja ditadura se agonizava.

A intelectualidade na qual se insere não só Pedro Alexandre Sanches como também Paulo César Araújo e Hermano Vianna também vive seu saudosismo. Eles eram crianças que viam televisão nos tempos do "milagre brasileiro" e até hoje guardam uma visão um tanto pueril e ilusória de que a "cultura de massa" vive numa bolha de plástico intocada pelo baronato midiático.

Traídos pela superação de seu saudosismo, Arnaldo e Lobão se amarguraram com os rumos de um Brasil que escapava de seus interesses, que prometia ser progressista mas foi abaixo da conta. E, desiludidos, os dois passaram para o pensamento conservador, como uma defesa contra o fim de suas utopias desfeitas, de suas ilusões perdidas.

Arnaldo, então, escreveu muito que a ilusão de sua geração foi glamourizar a pobreza, não da forma como se faz hoje com a apologia ao brega ou ao "funk", mas da forma intelectualizada dos CPCs, das canções panfletárias de arranjos sofisticados demais. Queria-se tocar a Internacional Socialista em ritmo de Bossa Nova para plateias do sertão nordestino.

Mas se naquela época era "lindo ser pobre", hoje tornou-se não apenas isso, mas agora também "é lindo ser brega". E a bregalização só tem o verniz "progressista" por conta das mesadas do Ministério da Cultura petista e na garantia de que as empregadas domésticas não mexerão nos discos sofisticados de MPB autêntica que só a intelectualidade "bacaninha" possui.

Enquanto empregadas domésticas não furtam discos de Quinteto Violado, Itamar Assumpção e Rui Maurity que seus patrões possuem em suas coleções, em cópias raras adquiridas com muito suor (algumas em vinil), estes podem soar "progressistas" avisando que a MPB é insuportável e que o bom mesmo é trazer o brega, o "funk" e similares para os banquetes das elites.

Enquanto tudo conspira a favor de sua vã fantasia em ver as rádios de MPB se reduzirem ao que as rádios popularescas haviam tocado nos últimos 40 anos, a intelectualidade cultural dominante pode fazer sua pregação nas plateias esquerdistas. O problema é quando a sociedade achar que não vale mais a pena defender o brega.

DEFESA DO "FUNK" E SINAL DE ALERTA

Aí, aquele sonho dourado de ouvir os programadores de rádio inserindo um brega entre Chico Buarque e Banda Black Rio, que fazia a infância de muitos intelectuais festejados de hoje, irá ruir, e eles provavelmente irão aderir ao mesmo reacionarismo que dizem criticar levemente hoje.

Uma notícia recente deu o sinal de alerta. Até com uma certa irritação, Eduardo Nunomura havia condenado o desejo que "parte da esquerda" tem em ver o "funk" decair, preparando os leitores para as guinadas neocon que ele, Sanches, Paulo César Araújo, Eugênio Raggi e outros irão assumir daqui a alguns anos.

O "funk", com sua estrutura ligada à imbecilização sócio-cultural, através da apologia à miséria, à ignorância e à imoralidade, é aquele tipo de coisa que "incomoda" sem incomodar, que trabalha um arremedo de rebeldia que impede que as classes populares assumam verdadeiras bandeiras de melhoria de vida.

Daí que questionar o "funk", não à luz de medievalismos ideológicos tipo os de um Reinaldo Azevedo, mas de uma visão esquerdista que questiona a manipulação que o ritmo faz nas populações pobres, escravizadas por um mercado controlado por DJs-empresários sob o apoio dos barões da mídia, assusta demais a intelectualidade dominante.

Por enquanto, eles têm reservas argumentistas que parecem dar seus últimos matizes de um verniz "progressista" que se dissolve aos poucos. Os propagandistas do "funk" já não conseguem mais usar a desculpa do "preconceito", de tão cansativa e inconvincente, mas agora apelam para evocar a sociedade de 1910 que supostamente estaria por trás da rejeição ao ritmo.

Se a desculpa não colar - sobretudo usando o samba como elemento comparativo, neste discurso tendencioso - , a intelectualidade cultural dominante, que prega a bregalização do país, poderá cada vez mais exercer seu reacionarismo, como já fazem muitos internautas que, nas redes sociais, defendem a bregalização do país com o apetite de "urubólogos" em prol do "livre mercado".

Quando as empregadas domésticas se cansarem de bregas, funqueiros, axézeiros, "sertanejos", forrozeiros-bregas e tudo o mais de cafonice, e ficarem de olho nos discos e livros de alta cultura de seus patrões, eles correrão para o reduto neocon mais próximo de seus meios sociais e largarão a máscara "progressista" que os protege hoje.

Não se sabe quando, mas ocorrerá um dia. Cabe tomarmos cuidado.

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