quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

NECROFILIAS QUE DETURPAM A MEMÓRIA DOS FINADOS


Por Alexandre Figueiredo

Não se pode morrer em paz no Brasil. A necrofilia dos saudosos artistas e intelectuais brasileiros torna-se um fenômeno de diversos matizes, em que os que estão aqui manipulam o legado dos mortos ao bel prazer, distorcendo sua memória e jogando-os em pretextos que na verdade seriam impróprios e incoerentes.

Recentemente, houve o caso dos hologramas, montagens digitais que aproveitam performances antigas para, numa edição tecnológica, "ressuscitar" digitalmente a personalidade falecida para uma apresentação supostamente "ao vivo" do de cujus.

Recentemente, o cantor Cazuza teve imagens antigas reconstituídas em hologramas, num evento da GVT. Meses atrás, foi a vez de Renato Russo, amigo de Cazuza e antigo vocalista da Legião Urbana, também "revivido" por um holograma.

O grande problema é que isso não é a mesma coisa. Não é a pessoa em vida. Talvez se houvesse interesse para pesquisas em prol do TCI (Trans-Comunicação Instrumental), tecnologia que busca contatos com pessoas falecidas, haverá mais chance de pessoas falecidas reaparecerem de verdade para comunicações com o pessoal "de cá".

Mas o que é grave é que essa necrofilia é feita sem o menor critério. O holograma aparece sem que haja qualquer controle de situações ou de quem vier se apresentar ao lado do falecido. Por exemplo, Cazuza "apareceu" para cantar um pout-pourri que, por si só não tem pé nem cabeça, porque é uma recordação apressada e superficial dos antigos sucessos de sua carreira.

Renato Russo teve sina pior. "Fez" dueto com Ivete Sangalo, o que foi muito para a vaidade dela, ela que leva às últimas consequências a mania de apropriação de diversas tendências musicais de Caetano Veloso, mas sem o conhecimento de causa que este procura ter.

Mas isso não é uma questão de hologramas. Existe em outros casos. Muitos falecidos tornam-se marionetes de muita gente viva - e "viva", no sentido da esperteza - , que nunca daria bola para tais finados se eles continuassem vivos.

Raul Seixas, Itamar Assumpção, Oswald de Andrade, Juscelino Kubitschek, Glauber Rocha, Vinícius de Moraes, Leila Diniz, Antônio Conselheiro, Tiradentes e até Gregório de Mattos são alguns dos que sofrem nas mãos dos vivos, "chamados" para participar ou apoiar qualquer roubada.

O roqueiro Raul Seixas, que em vida foi boicotado pelas gravadoras e era visto como um "lunático doidão" por boa parte da sociedade, passou a ser bajulado pela mesma assim que faleceu, em 1989. Para piorar, ele passou a ser usurpado até mesmo por gente que certamente faria o roqueiro baiano torcer o nariz e reprovar da forma mais enérgica possível.

Foi necessário uma ação judicial da viúva e antiga parceira Kika Seixas para impedir que um tributo de axé-music ao cantor baiano fosse realizado. Além disso, houve a atitude oportunista dos breganejos Chitãozinho & Xororó usarem a música "Tente Outra Vez" como inspiração para a carreira da dupla. Raulzito lhes daria uns belos puxões de orelha.

Juscelino Kubitschek foi usado numa comparação "positiva" de Fernando Collor por internautas do Orkut, em plena campanha para colocar o suposto "caçador de marajás" no Senado Federal. Collor foi comparado a JK mas os modelos políticos de ambos eram bastante diferentes, opostos em muitos aspectos, sendo o de Collor o mais desastroso.

Mas, no século XIX, o ativista mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, antes esquecido pelos historiadores e intelectuais, passou a ser lembrado, usurpado e apropriado pelos artífices da República brasileira que abriram as portas para o esquema clientelista que hoje conhecemos como República Velha.

E o que dizer de Gregório de Mattos, o poeta de linguagem agressiva mas de forte teor satírico, usado levianamente por alguns intelectuais "bacaninhas" para autenticar todas as baixarias sem graça que acontecem hoje em dia sob o rótulo de "popular" e que constrangem até mesmo muita gente boa das periferias?

E Oswald de Andrade, jogado para "assinar embaixo", postumamente, em torno de "americanizações" e "galicismos" irresponsáveis feitos por ídolos cafonas que nada fazem senão macaquear, em tradução "transbrasileira", modismos que já saíram de cena no mercado de "sucessos das paradas"?

Houve o caso dos cineastas-publicitários que fazem filmes comerciais sob a chancela Globo Filmes - e uns que fazem documentários sobre o brega, inclusive o "funk", que dissimulam o apoio da Globo Filmes - , evocando a memória de Glauber Rocha como se ele apoiasse essa turma toda submissa às regras do establishment cinematográfico.

E Antônio Conselheiro, usado indevidamente para a retórica jornalístico-intelectual para defender o "funk carioca" como um suposto ativismo sócio-cultural? Um mero entretenimento dançante sem muito valor, no entanto, promove todo um discurso retórico engenhoso que cabe até mesmo nivelar os "bailes funk" à antiga relevância da revolta de Canudos.

Mas os funqueiros têm muita sede de apropriação, de necrofilia. Vide Vinícius de Moraes, que só por ter sido uma figura moderna e arrojada, não significa que iria apoiar as baixarias e o grotesco do "funk carioca". Se o "funk carioca" rompeu com todo o funk de verdade feito antes de 1989, mais distante ainda está das lições de lirismo e jovialidade do "poetinha"...

E Itamar Assumpção sendo usado por alguns intelectuais "bacaninhas" para apoiar a segunda divisão da música brega (aquela que ainda não foi bater ponto no Domingão do Faustão), confundindo os ídolos fracassados da retaguarda cafona com os "malditos" da vanguarda pós-moderna da MPB autêntica.

Ou então Leila Diniz, que lá em cima está se preparando para ser usurpada a qualquer momento por certas intelectuais - sobretudo cineastas pró-brega - que, a pretexto de um suposto feminismo, poderão usar a saudosa atriz para assinar em baixo em tudo que é Miss Bumbum, dançarina do Tchan, mulheres-frutas, paniquetes e outras popozudas.

Tudo isso é muito, muito perigoso. Não porque representa um convite para que os falecidos assombrem quem vier a usurpar sua imagem. Eles não irão ameaçar, eram legais em vida, serão no mundo espiritual. Mas eles provavelmente ficam tristes e preocupados por não poderem mais zelar por sua imagem.

Lamentavelmente, os mortos acabam sendo manipulados, feito bonecos de marionetes, ao bel prazer de oportunistas de plantão. Até que alguém venha para proteger a verdadeira memória dos que nos deixaram, respeitando seu legado original.

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