quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

NÃO SOMOS CACHORROS, NÃO?


Por Alexandre Figueiredo

A obsessão da sociedade dita "ilustrada" - inclusive alguns autoproclamados progressistas - pela bregalização cultural, na ilusão de que isso os faria "mais humanos" e "mais simples", nem de longe representa a ruptura de preconceitos ou discriminações sociais.

Muito pelo contrário, ela representa o mascaramento dos preconceitos de muitos indivíduos, situados nas elites que gozem entre a relativa prosperidade econômica e um relativo aprimoramento intelectual, mas que parecem mais evitar conflitos com as classes populares do que defender sua verdadeira emancipação.

As mesmas elites que choram em favor do "funk", que reclamam da "intolerância" que a "sociedade" tem a este ritmo são as mesmas que se irritam quando uma passeata de agricultores sem terra toma conta do trânsito de uma Av. Paulista, por exemplo.

As mesmas elites que acham que o brega é lindo, que é maravilhoso ser cafona, que é admirável ver prostitutas e camelôs "se virando como podem" são rigorosamente as mesmas que se incomodam quando favelados põem pneus em chamas nas rodovias para pedir melhorias fundamentais para suas comunidades.

CORRENDO ATRÁS DO PRÓPRIO RABO

A bregalização cultural, defendida praticamente em uníssono pelas elites "ilustradas", pela intelectualidade "bacana", choramingando a rejeição das"elites" contra os sucessos radiofônicos, acredita que o caminho do folclore brasileiro está no jabaculê e no cardápio popularesco das rádios, das TVs e dos bares, boates e casas noturnas.

Na ironia de um dos grandes sucessos do brega-popularesco ser "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Waldick Soriano, defender a bregalização mais parece coisa de cachorro correndo atrás do próprio rabo. A própria raiva que certos "bacaninhas" têm em relação à MPB autêntica tem muito a ver com esse ciclo vicioso.

Mesmo quando os "bacaninhas" que defendem o brega recorrem, a respaldar também os "malditos" ou os tradicionais da MPB - de Inezita Barroso a Arrigo Barnabé, passando por Zezé Motta, Quinteto Violado, Azymuth, Marcos Valle e os falecidos Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção - , isso é mais um artifício tendencioso de usar a MPB para "justificar" o brega.

E sabemos que isso não resolve as coisas. O "povão" não vai passar a ouvir Itamar Assumpção porque ele é elogiado pelo mesmo jornalista que despejou louvores a Odair José. Da mesma forma, o "povão" também não irá comprar os livros de Oswald de Andrade porque a cineasta que glorificou o "funk" o comparou à Semana de Arte Moderna de 1922.

A obsessão destes setores da sociedade pelo brega, como se "todos nós" fôssemos cafonas, que o destino do Brasil é ser brega e não dá para fugir isso, mostra o quanto essas pessoas estão confusas. Confundem a obsessão pela cafonice - que evoca sentimentos de baixa auto-estima - como o único meio de fortalecermos a auto-estima. Isso é um absurdo.

Não é preconceito algum dizer que o brega envolve símbolos, signos e ícones que se relacionam à inferiorização social, ao conformismo com a pobreza, com as desilusões da vida etc, que se reflete em músicas malfeitas, mal cantadas, numa postura submissa com as imposições da vida etc. A própria "poesia" do brega segue necessariamente esse caminho.

Portanto, que "Brasil de cabeça erguida" pode ser evocado com o brega, como quer acreditar certo jornalista "bacana" que se acha dono do pensamento cultural de esquerda? O brega é o Brasil cabisbaixo, coitadinho, e hoje sua hegemonia é muito maior do que a que a intelligentzia atribui ao legado da Bossa Nova e do Clube da Esquina na MPB autêntica.

ELITES INTELECTUAIS CANSADAS DA MPB

As elites intelectuais, aliás, estão furiosas sem razão por estarem, só elas, cansadas de Bossa Nova e Clube da Esquina jogando poesia e melodias na música brasileira. Só elas acham que o Brasil está farto delas. Tão "bacanas", tão "legais" e tão "admiráveis" esses intelectuais, eles no entanto não enxergam além de seus condomínios de luxo nos bairros nobres de São Paulo e Rio.

Mal sabem eles que há regiões do interior que não conhecem sequer o básico da MPB autêntica. O pessoal do Norte do país, a mesma região do "admirável" e "injustiçado" tecnobrega - tido como "discriminado" pela mídia mas APOIADO pela oligarquia midiática de lá, a paraense Mayorana, da TV Liberal - , até agora não conhece seus nativos Billy Blanco e João Donato.

O Brasil não vai evoluir culturalmente aceitando o brega no Olimpo da MPB. Há dez anos essa choradeira intelectual prevalece na mídia, gastando muito papel em monografias, muita celulose, muita tecnologia digital em documentários, muito dinheiro em propaganda, em reportagem etc, e o que vemos é apenas a reafirmação e a apologia à mesmice que domina há tempos rádios e TVs.

O maniqueísmo que trata a MPB autêntica como "vilã", permitindo até mesmo comentários caluniosos contra João Gilberto, Chico Buarque, Toninho Horta etc, trata o brega, podendo ser até mesmo uma funqueira de glúteos aberrantemente siliconados, como "herói-vítima", nesse apelo discursivo sutil. Mas isso em nada ajudou no progresso cultural do país.

Além disso, esse discurso delirante, que cita indevidamente alusões de caráter artístico-ativista, num verdadeiro dramalhão discursivo que trata os campeões de vendas e execuções em rádio como vítimas de uma suposta intolerância social, tão somente tem por objetivo garantir a estabilidade do sucesso comercial de alguns ídolos protegidos pela mídia e pelas gravadoras.

BREGA É TÃO SOMENTE COMERCIAL

O brega é tão somente uma música comercial. A choradeira intelectual que cita, indevidamente, de Oswald de Andrade a Chico Mendes, passando por Carlos Marighela e até Raul Seixas, para "justificar" a bregalização do país, apenas quer substituir a MPB autêntica pelo hit-parade brega-popularesco.

E quem é que terá coragem de romper com esse discurso intelectual pró-brega, dominante até mesmo nos círculos acadêmicos, para denunciar as armadilhas desse discurso e desconstrui-lo em vez de respaldá-lo com uma verborragia pseudo-modernista, prosas pseudo-concretistas e pseudo-tropicalistas travestidas de monografias "científicas" e reportagens "imparciais"?

Se "não somos cachorros" mas "corremos atrás do rabo", resgatando a breguice de anteontem sob um sentimentalismo piegas que contagia até mesmo jornalistas, blogueiros e cientistas sociais "sérios", então temos que admitir que a cultura brasileira não irá para a frente.

O que teremos pela frente são apenas meros totens popularescos, que regravarão covers de MPB só para agradar as elites, enquanto fazem qualquer coisa para permanecer em evidência na mídia. E aí não faz sentido dizer que o "mau gosto", a "baixa estética" e outras coisas do tipo são "causas libertárias" até porque esse tipo de discurso já teria cansado até mesmo seus defensores.

Defender a bregalização do país é deixar que o Brasil permaneça sempre suburbano, sub-desenvolvido, prostituído, sub-empregado. Isso não é defender um país de peito erguido ou cabeça erguida. É defender um país coitadinho, defender a glamourização da pobreza, da miséria, da ignorância, do mau gosto, numa demonstração clara e cruelmente paternalista.

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