domingo, 29 de dezembro de 2013

MÍDIA E EUGENIA AMOROSA ÀS POPULAÇÕES POBRES

SEGUNDO A MÍDIA, BASTA JOGAR FUTEBOL COM OS AMIGOS NAS PRAIAS DE CIDADES COMO SALVADOR PARA JOVENS POBRES SEREM VISTOS COMO "REPULSIVOS" PARA AS MOÇAS POBRES.

Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia manipula as relações amorosas de forma tendenciosa. Ela procura desestimular as afinidades pessoais, promovendo uma forma atualizada dos casamentos por conveniência, criando uma ideologia politicamente correta que tenta seduzir a opinião pública, fazendo pegadinha até mesmo entre pessoas razoavelmente progressistas.

Sob a alegação de "ruptura do preconceito" e "superação das diferenças", a grande mídia cria um repertório ideológico em que a afinidade pessoal não é o fator importante. Nas classes abastadas, isso torna-se crucial, principalmente como meio de "domar" a emancipação feminina através do estímulo ao casamento com algum chefe de alguma coisa, empresário ou profissional liberal.

Nas classes pobres, porém, a coisa torna-se ainda mais delicada e cruel, e a grande mídia, apoiada pelo mercado e pela fabricação de um "senso comum" que aceita os ditames da mídia como se fosse o "inconsciente do povo", trabalha uma manipulação das emoções e desejos das populações pobres para evitar que se unam famílias por afinidade.

Se nas classes abastadas as relações amorosas são corrompidas pelas imposições do status quo pelo simples fato de que frequentar os mesmos restaurantes valer muito mais do que ter ideias, sentimentos e projetos de vida comuns, nas classes populares as imposições ainda se tornam muito mais cruéis.

Em Salvador, por exemplo, as rádios - controladas por antigos adeptos e afilhados de Antônio Carlos Magalhães, alguns apenas formalmente rompidos com o falecido senador, mas ainda ideologicamente seus herdeiros - , as TVs e a intelectualidade associada contribuíram para manipular os desejos das jovens pobres e negras da maneira mais confusa possível.

Distorcendo os conceitos de democracia étnica e social, a ideologia difundida pela mídia, cheia de conceitos politicamente corretos, fazem de tudo para evitar que as moças das periferias se unam com homens de seus próprios meios sociais.

 "PELADEIROS" SE TORNAM "MENOS ATRAENTES"

A distorção ideológica é tanta que mesmo um saudável hábito de homens pobres jogarem futebol nas praias, durante as manhãs de domingo, é o suficiente para afastar as moças de qualquer conquista amorosa. Graças à pregação midiática, basta ser um "peladeiro" para ser visto, pelas moças do seu meio, de forma preconceituosa, como se isso significasse infidelidade ou descaso.

Em nome da "ruptura de preconceitos" e da "superação das diferenças", demoniza-se qualquer afinidade sócio-cultural, fazendo com que essas moças sonhem com um Márcio Victor (vocalista do Psirico) ou Xanddy (do Harmonia do Samba), enquanto se recusam a namorar os homens que a eles se assemelham nas suas próprias comunidades.

Em contrapartida, a mídia estimula que as moças pobres de Salvador desejem e até assediem homens "de fora", usando a "diversidade" como falso pretexto para tamanhas aventuras. É através desse quadro "lindo e saudável" que muitas moças pobres são entregues a traficantes de mulheres que estão a serviço de redes internacionais de prostituição.

SOLTEIRICE POR CONVENIÊNCIA

Em outras partes do Brasil, também ocorre isso de uma forma ou de outra. Com mais prejuízos do que benefícios. E mostra o quanto se distorcem conceitos e ideias progressistas, para que sejam defendidos processos sociais nada progressistas.

Superestima-se as "diferenças sociais"sob o pretexto de uma liberdade que se torna, na prática, uma imposição, em nome de uma vontade falsa, que não corresponde às necessidades pessoais verdadeiras. Por que uma moça pobre quer um rapaz de classe média? Ela mesma não sabe. Mas a mídia está o tempo todo dizendo que ela deve desejá-lo, "para o bem da diversidade social".

Além disso, a própria mídia, se não consegue empurrar as moças pobres para o amor por conveniência ao lado da "segunda divisão" da classe média - de nerds a punks, passando por rapazes comuns de vida pacata - , força a solteirice através do "exemplo" das famosas.

Em outros tempos, a apresentadora Xuxa, símbolo oficial de "emancipação feminina" e "bons valores" que a grande mídia trazia para as periferias, era obrigada a fazer esse papel de celibatária condicional. Passado o tempo, Xuxa, na medida em que alcançava os 45 anos - hoje ela tem 50 - , era liberada para o amor e hoje namora firme um ator de televisão.

Hoje o que existem são sub-celebridades ou musas "popularescas" que precisam escolher três opções: quando casadas, esconder tal condição; quando apenas namorando, serem obrigadas a fingir ou forçar um rompimento na relação e, quando realmente solteiras, serem proibidas de levar adiante qualquer flerte ou o chamado "rolé" (o popular "ficar", ou namorico de poucas horas).

No caso das casadas que passam uma falsa imagem de "solteiríssimas" - que envolvem desde dançarinas de "pagodão" até intérpretes funqueiras - , a medida visa um duplo benefício a elas, que é de passar uma imagem de "solteiras, desejáveis e independentes" e manter seus maridos na privacidade, à margem dos factoides a que suas esposas estão associadas.

No geral, porém, a imagem de pretensas solteiras é um recurso da chamada "indústria cultural" para estimular, nas moças pobres das periferias, público-alvo das supostas "solteiríssimas", a solteirice por conveniência reforçada também pela péssima imagem dos homens pobres difundida pela imprensa policialesca e pela mídia de fofocas.

"FAXINA ÉTNICA"

O que está em jogo nisso tudo é uma campanha de "faxina étnica" da grande mídia, gradual, improvisada e confusa, para evitar que as classes populares se reproduzam, mesmo diante de um contexto de aparente liberdade sexual defendida por ritmos como o "funk" e o "pagodão" baiano.

Isso porque a grande mídia aposta num cenário caótico, supostamente (e falsamente) libertário, que, associado ao descaso do poder político para garantir a segurança, a escolaridade, o saneamento básico, a cidadania e outros princípios benéficos para as comunidades populares, a natalidade descontrolada acaba resultando numa mortalidade igualmente descontrolada.

O sexo obsessivo do "funk", do "pagodão" e similares, junto à violência do crime organizado ou dos impulsos individuais diversos, além das tragédias ambientais e dos acidentes de toda ordem, criam nascimentos e óbitos sem controle, sem planejamento, que abalam até mesmo a auto-estima das classes populares e trazem muitas dores.

A reboque disso tudo, está a campanha midiática, respaldada e reforçada pela intelectualidade associada - mas que se traveste de progressista - que acha "melhor" que as moças pobres sejam mães solteiras ou sejam homossexuais. Todo o discurso de verniz "progressista" é feito para empurrar essas moças para tais condições, sob o pretexto de criarem "famílias modernas".

O problema não é o direito de escolher tais condições. No contexto das periferias idealizadas pela grande mídia e pela intelectualidade, isso não se torna um direito, mas uma obrigação, enquanto o outro lado, da escolha de uma vida com marido num casamento estável, chega a ser cruelmente desestimulada pela mídia, com a intelectualidade respondendo em silêncio consentido.

Pois uma mulher pobre que é solteira e com filhos só é algo lindo e maravilhoso para os olhos paternalistas da intelectualidade dominante.  Com vários empregos ou sobrecarga de trabalho para ganhar mais dinheiro, ela não tem tempo para desenvolver sequer sua afeição para os filhos.

Neste sentido, há uma grande desigualdade entre mulheres abastadas, com condições para serem mães solteiras mas forçadas a ter maridos "importantes" para agradar a sociedade e atingir o status quo, e as moças pobres que precisam ter maridos para com eles criar seus filhos, mas são forçadas pelas condições sociais e pela pregação midiática a ficarem sozinhas.

A grande mídia, então, faz uma jogada tripla. Primeiro, desestimulando nas classes pobres as uniões por afinidades pessoais, tenta enfraquecer as classes populares ao desvalorizar a organização familiar tradicional, e faz muitos filhos virarem órfãos simbólicos da figura do pai.

Em segundo lugar, a grande mídia estimula o sexo "livre", isto é, libertino, sem controle nem planejamento social, o que faz com que até mesmo o ato de gerar filhos se torne algo mais impulsivo e feito sem prudência ou cautela. E que muitas vezes resultam em bebês jogados junto ao lixo ou deixados em qualquer canto da rua como um objeto indesejável.

Em terceiro lugar, cria-se um higienismo social às avessas, deixando as famílias desestruturadas se perecerem, mesmo sob os aplausos demagógicos da intelectualidade paternalista, que acha legal moça pobre ter dez filhos e ser solteira, sem tempo sequer para dar um cafuné para cada um deles, de tão cansada chega à noite depois de uma jornada sobrecarregada de trabalho.

A eugenia amorosa é uma ferramenta sutil do poderio midiático, respaldado pelo poder político e pela intelectualidade associados, para evitar o desenvolvimento da solidariedade a partir da formação de casais heterossexuais estáveis nas classes pobres e no fortalecimento da auto-estima das crianças criadas por pais e mães. Cortando isso, corta-se a emancipação popular pela raiz.

Assim, o objetivo dos barões da mídia e da "generosa" intelectualidade cultural dominante é baixar a auto-estima das classes populares, deixá-las desorientadas e confusas e fazê-las morrerem aos poucos com uma geração mal-nascida a morrer cedo.

Com isso, o poder midiático, em vez de se empenhar pela melhoria das classes populares, prefere obscurecer o seu futuro, para a longo prazo deixar as periferias "limpas" para o recreio, a princípio paternalista, das elites bregalizadas, que mais tarde tomarão para si as ruínas das periferias socialmente mutiladas pelo poderio midiático.

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