quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

JUSCELINO KUBITSCHEK TERIA SIDO ASSASSINADO


Por Alexandre Figueiredo

Um documento divulgado pela Comissão da Verdade, que resgata a memória e tenta desvendar os mistérios ocultos pela ditadura militar, revela que Juscelino Kubitschek, que presidiu o Brasil entre 1956 e 1961, teria morrido não por acidente, mas vítima de um atentado que provocou o desastre automobilístico na Via Dutra, na altura de Resende (RJ), em 22 de agosto de 1976.

Juscelino, que não chegou a completar 74 anos, e já era visto com muita desconfiança pelos militares de linha dura que haviam influenciado o período do AI-5, que tornou rígida a censura e a repressão militares.

Desde sua vitória eleitoral, Juscelino não era bem visto pelos políticos e militares mais conservadores. Em 1955, um plano de golpe era articulado por Carlos Lacerda e o presidente interino do Brasil, o presidente da Câmara Federal Carlos Luz para impedir a posse de Juscelino, que havia vencido por maioria simples, o que revoltou seus oposicionistas.

Foi preciso o contragolpe do general Henrique Teixeira Lott, que havia sido ministro da Guerra do governo Café Filho (que assumiu a República depois do suicídio de Vargas, mas depois adoeceu e foi substituído por Luz), realizado em 11 de novembro de 1955, para destituir Luz e criar as condições políticas para a posse de Juscelino em janeiro de 1956.

Com isso, o senador catarinense Nereu Ramos, presidente do Congresso Nacional, tornou-se presidente interino da República, até a posse de Juscelino (juntamente com o vice, João Goulart, eleito em separado com mais votos que o titular).

Juscelino, que irritou seus opositores não apenas por ter Jango como vice - Jango era herdeiro político do hostilizado Getúlio Vargas e era acusado de aliar-se aos comunistas - como por adotar elementos nacionalistas no seu programa de governo, ao lado de medidas pontualmente capitalistas, como o estímulo ao capital estrangeiro.

O presidente enfrentou duas revoltas militares: a de Jacareacanga, no Pará, em 1956, e a de Aragarças, em Goiás, em 1959. Ambas eram contra seu governo e pediam sua saída do poder. No entanto, depois que seus revoltosos foram presos, Juscelino, nas duas ocasiões, anistiou os detidos, numa demonstração de senso democrático aliado à habilidade política.

Em 1964, outro obstáculo atingiu Juscelino, só que desta vez ele não pôde agir a seu favor. Foi um ato aparentemente surpreendente, já que Juscelino, então senador por Goiás (mudando seu domicílio político, já que era mineiro), havia defendido o golpe militar para destituição de Jango, acreditando que o governo militar seria provisório e garantiria a ele disputar a sucessão presidencial.

Esse ato foi o primeiro Ato Institucional do governo militar, que incluiu Juscelino entre os cassados políticos. Mesmo sendo integrante do conservador partido PSD (extinto pela ditadura e "ressuscitado" recentemente no cenário político), Juscelino não era visto como um político confiável pela direita militar e pelos udenistas.

Juscelino teve que se exilar e, em Portugal, se encontrou com seu mais agressivo desafeto político, Carlos Lacerda, que também havia sido surpreendido, não pela cassação política, mas pelo pouco caso que os militares fizeram com ele, pelo radicalismo político que não agradava os generais.

Em 1966, tendo se conciliado de forma impressionante, já que eram inimigos políticos, Kubitschek e Lacerda decidiram fundar um movimento pela redemocratização do país, chamado Frente Única, que estava começando a se tornar popular, embora aparentemente não tenha causado empolgação no meio estudantil, que fazia suas próprias mobilizações pela volta da democracia.

Mas a ditadura militar cassou a Frente Única, meses antes de criar o quinto Ato Institucional (AI-5), e Juscelino teve que ficar entre o exílio e seus trabalhos como fazendeiro. Nos anos 70, o ex-presidente aparecia quase sempre com o semblante abatido, triste, o que contrastava com seu largo sorriso quando era presidente do Brasil.

Em 1968, conforme denúncia revelada por um militar da Aeronáutica conhecido como Sérgio Macaco, Juscelino estava entre os nomes que seriam sequestrados num plano terrorista que seria feito pelo Parasar, grupo de pára-quedistas da Aeronáutica, que explodiria o Gasômetro, no Rio de Janeiro e sequestraria várias personalidades "subversivas" que seriam jogadas em alto mar.

O plano, se fosse realizado, seria atribuído aos comunistas e o episódio teria provocado uma das maiores tragédias ocorridas no Brasil. Sérgio Macaco foi punido, por ter se recusado a levar à frente o plano, entendida pelos seus comandantes como insubordinação militar.

No entanto, o influente brigadeiro Eduardo Gomes, que havia defendido o golpe militar, acatou a denúncia, já que a explosão do Gasômetro iria atingir praticamente toda a cidade do Rio de Janeiro, matando dezenas de pessoas que usavam gás de rua. O próprio sequestro também pegaria mal para as Forças Armadas, que deixaria vazar exemplos de imoralidade que comprometeriam a ditadura.

O último obstáculo de Juscelino foi não ter entrado na Academia Brasileira de Letras. A pressão que a ditadura fazia contra sua candidatura era imensa, em 1974, e Juscelino não pôde se tornar "imortal" entre os acadêmicos da casa, embora tivesse mais méritos do que os atuais membros Merval Pereira e Fernando Henrique Cardoso, este também ex-presidente da República.

Juscelino era constantemente vigiado pelos militares e afirmou que temia ser morto por algum complô ligado à ditadura militar. Documentos revelados depois mostram que Juscelino estava entre os políticos que seriam mortos em atentados planejados pela Operação Condor, movimento que envolveu as ditaduras da Argentina, Brasil e Chile para eliminar políticos opositores.

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