quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

JORNAL DA BAND ESPINAFRA VOLTA DA TV EXCELSIOR


Por Alexandre Figueiredo

Isso pode até fazer sentido, pela questão de concorrência. Mas mostra também um caráter tendencioso da grande mídia, que atinge mesmo a TV Bandeirantes, que aparentemente era consagrada pelo setor de jornalismo mais profissional e, em tese, mais transparente.

Pois uma reportagem dedicada ao empresário Paulo Abreu, proprietário de várias emissoras de rádio - entre elas a emissora roqueira Kiss FM, que promete uma afiliada no Rio de Janeiro que até agora não se instalou - e que, também dono de um hotel, prometeu oferecer emprego ao ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, mediante generosa remuneração.

A  reportagem, transmitida anteontem à noite, deu destaque ao fato de que Paulo Abreu havia instalado em São Paulo antenas de emissoras de rádio do interior do Estado e descreveu o ato como uma ilegalidade. Só que o Jornal da Band viu o argueiro nos olhos de Paulo Abreu, e não viu a trave nos seus próprios olhos.

Essa manobra, o das chamadas "rádios que andam", que "nascem" no interior mas jogam instalações ou antenas na capital, o próprio Grupo Bandeirantes de Comunicação havia feito, portanto não há sentido em apontar os erros que o próprio grupo empresarial havia cometido.

Prestemos atenção na Rádio Bandeirantes 90,9, uma das rádios paulistas no espectro FM, embora de uma programação "Aemão" bem naquele estilo do locutor-subprefeito, ao mesmo tempo dublê de jornalista e de político, que leva o pretexto da "prestação de serviço" para o pragmatismo mais pretensioso.

A rádio - na verdade clone da Rádio Bandeirantes AM (que irá desaparecer) - surgiu de uma emissora FM de Santos, no litoral paulista, portanto bem longe da capital. Numa dessas manobras burocráticas e técnicas, a emissora entrou em São Paulo instalando também antenas na capital, exatamente como havia feito o Paulo Abreu condenado pelo Jornal da Band.

O Jornal da Band ainda por cima espinafrou a iniciativa de Paulo Abreu estar por trás de projetos de reativação de emissoras extintas, seja a Rádio Marconi, antiga AM paulista que também migrará para o FM, e a TV Excelsior, genial emissora de televisão que havia marcado a história do meio na década de 1960.

A TV Excelsior antecipou muitas das novidades técnicas da televisão, como a organização da grade de programação em atrações fixas distribuídas em horários específicos na semana, e tinha uma programação sofisticada e uma administração progressista vinda por conta do empresário cafeeiro Mário Wallace Simonsen, também dono da extinta companhia aérea Panair.

Apesar de riquíssimo, Mário Wallace Simonsen tinha uma mentalidade progressista, era amigo de João Goulart - outra figura rica, mas inclinada à justiça social - , e administrava bem a TV Excelsior, remunerando bem os funcionários. A emissora faliu tão somente por conta da oposição agressiva da ditadura militar instaurada em 1964.

Neste caso, junta-se a fome com a vontade de comer. A reportagem da Band ironiza a obsessão de Paulo Abreu em "ressuscitar" emissoras antigas, tratando a ideia como se fosse "inútil", mas também tem um certo ranço de concorrência. Isso é elementar.

A famiglia Saad, dona da Band, teme perder vantagens com a volta da Excelsior. É certo que a Excelsior não virá com a mesma sofisticação de antes, não teremos um Brasil Ano Tal com Bibi Ferreira, e um novo Times Square tende a ser um Zorra Total um pouco mais chique, mas se a emissora voltar, há a promessa de uma nova visão de programação televisiva.

Portanto, é o mercado da TV aberta que se inquieta com a volta da Excelsior. Talvez a Globo também esteja preocupada, ela que tentou absorver as novidades da Excelsior só extraindo o que havia de "ideológico" (progressista) nas mesmas.

Afinal, a TV aberta anda acomodada num rol de mediocrização e imbecilização. Mas ela se mantém porque garante a paz econômica de anunciantes e executivos de televisão, eles mesmos bitolados em relação à sociedade em que vivemos. A Excelsior iria sacudir o mercado, e isso incomoda aqueles que vivem a maresia do mercado que não transforma mas garante lucros estáveis.

Daí que uma nova emissora, com uma programação relativamente renovadora, poderá causar incômodo e trará insegurança para aqueles que vivem a estabilidade dos lucros fáceis e das fórmulas imediatistas. Por isso o Jornal da Band baixou a lenha no projeto de volta da TV Excelsior.

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