segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

INTELECTUALIDADE E O MEDO DE EVOLUÇÃO CULTURAL DO POVO

INTELECTUAIS ESTARIAM DEFENDENDO BREGA, "FUNK" E SIMILARES PARA EVITAR QUE O POVO POBRE CONHEÇA NOMES COMO O GRUPO QUINTETO VIOLADO.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante acha que o povo pobre só ouve "funk", e, quando muito, alguns ritmos bregas bem safadinhos. Se questionamos essa supremacia do mau gosto, que enriquece latifundiários, empresários patrocinadores e barões da grande mídia sob o rótulo de "cultura popular", somos acusados de pertencermos a correntes moralistas de 1910 já superadas.

Sempre esse mesmo discurso. "O pobre tem o direito de ouvir o seu funk", "o brega precisa ser reconhecido como arte maior da nossa MPB", "as mulheres-frutas se sensualizam para sustentar suas mães pobres e abandonadas". Sempre esse discurso supostamente solidário da intelectualidade "mais bacana", "mais solidária", porém, na prática, muito, muito mais elitista.

O que a intelectualidade cultural dominante pensa, a respeito da situação do povo pobre, das classes populares em geral ou das periferias, seja a perspectiva que for, pode estar sendo feita de forma que tal intelectualidade seja vista como "desprovida de qualquer tipo de preconceito".

No entanto, ela na verdade esconde seus piores preconceitos, quando imagina que o povo pobre, só por ter mais consumismo e permanecer brega, cafona e grotesco, sobretudo diante de trilhas sonoras que variam de Waldick Soriano a MC Guimé, atingirá o máximo de cidadania, quando se vê, na prática, o contrário.

Daí o círculo vicioso da intelectualidade dominante não aceitar, por exemplo, que funqueiros sejam criticados. "Voltamos a 1910, quando as rodas de samba eram reprimidas a cacetetes pela polícia montada a cavalo", acusam, até com certa hipocrisia demagógica, os intelectuais "mais bacanas".

Não vamos aqui dizer que o "funk" nada tem a ver com o samba, porque já descrevemos isso outras vezes, e talvez venhamos a esclarecer melhor em outras, quando isso for necessário. Mas é gritante a quase unanimidade desse discurso pseudo-progressista que mais parece atender aos temores dos barões da grande mídia com o desgaste de seu projeto de "cultura popular".

INTELECTUAIS COM MEDO DE SEREM "ROUBADOS" PELOS POBRES

O maior medo dessa intelectualidade é ver o povo pobre atingir o estágio em que esses intelectuais se encontram. Seria como um "roubo" dos saberes privilegiados que antropólogos, sociólogos, historiadores, jornalistas culturais, cineastas documentaristas e outros possuem sobre o que julgam entender por "cultura popular".

Eles têm seu "patrimônio", que são os referenciais culturais mais expressivos, geralmente de artistas universitários que se apropriaram de elementos culturais folclóricos, que antes faziam parte do cotidiano das classes populares.

Por exemplo, existe um antropólogo que possui os segredos das raízes da cultura africana e a aplicação das mesmas na cultura brasileira, através da injusta porém socialmente profícua introdução dos escravos no povo brasileiro, que deixou fortes traços de africanidade em nossa cultura, mesmo na europeizada região Sul.

Aí o antropólogo se guarda de discos de música étnica, ou de discos contemporâneos que já traduziam os antigos ritmos tribais africanos, ou mesmo os antigos ritmos negros brasileiros, como o samba e o maracatu, em fusões rítmicas mais sofisticadas.

Como forma de evitar serem "roubados" por diaristas e domésticas que fazem limpeza em suas casas, ou cozinham as refeições desse antropólogo, ele terá que criar um discurso para que tais empregados (as) não sejam estimulados a cobiçar os raríssimos discos e livros sobre cultura popular que possuem em suas coleções.

Imagine o antropólogo ver que sua empregada está de olho naqueles álbuns de vinil gravados por Naná Vasconcellos, só para citar um desses nomes que retraduzem o folclore negro em experimentalismos musicais contemporâneos. Ele terá que trabalhar seu discurso para parecer generoso e proteger seus discos sem parecer "elitista" nem "preconceituoso".

Daí os muitíssimos textos que falam que o melhor é ser brega, é ser funqueiro, é ser porralouca. "Minha criada, você já tem a televisão e as breguices que rolam no rádio como sua cultura. Se contente com ela", é o que tais textos dizem, de uma forma oculta e sutil.

Imagine a intelectualidade cultural dominante ver desaparecerem de suas coleções discos de Itamar Assumpção, Banda Black Rio, Azymuth, Rui Maurity, Wilson Simonal, ou aqueles discos autografados do Hyldon, ou aquele disco histórico de Tim Maia obtido num momento marcante da vida.

HABILIDADE DISCURSIVA

Por isso existe aquele papo que, na prática, obriga o povo pobre a se contentar com seu "mau gosto". Vem o jornalista cultural dominante, com suas reportagens habilidosas, a dizer que o "funk" é maravilhoso, que ser brega é o máximo, que rebolar até o chão é o que o povo pobre pode fazer em relação ao ativismo sócio-cultural.

A habilidade discursiva precisa trabalhar, por exemplo, que um Leandro Lehart da vida seja visto como o "novo Simonal", que Odair José é um "cantor de protesto", que o Raça Negra é "alternativo", que MC Dedé é o "novo Rui Maurity" e as sucessoras de Elis Regina estão nas grotescas MCs do "funk".

Essa manobra discursiva, que empolga a muitos, no entanto é um jeitinho elitista de parecer generoso, mas na verdade é cruelmente preconceituoso, cruelmente higienista, expulsando o povo de sua verdadeira evolução sócio-cultural.

Afinal, faz-se uma falsa analogia do brega-popularesco (seja o "brega de raiz", seja o "funk", seja outro similar) à MPB autêntica mais vanguardista, para desestimular o povo a apreciar a cultura de qualidade.

É o seguinte raciocínio: para que curtir Quinteto Violado, se o intelectual "de nome" disse que Zezé di Camargo & Luciano "soa parecido"? Para que curtir Itamar Assumpção, se aquele jornalista "bacaníssimo" disse que o "funk ostentação" é "igual" ao "Nego dito Beleléu"? Para que chegar perto dos discos antigos dos Originais do Samba, se o Raça Negra e o Grupo Molejo "soam parecido"?

É assim que os intelectuais "tão generosos" com as classes populares fazem. Eles querem ser os senhores da alta cultura, parecem tão carinhosos com a baixa cultura, com a supremacia do "mau gosto popular" que são tidos como "solidários" com as classes populares.

No entanto, é só observar melhor e perceber que isso é tão somente uma forma mais sutil de elitismo, porque a intelectualidade fica com a cultura de qualidade, se apropriando até mesmo do que aquilo que as classes pobres faziam em outros tempos.

Hoje o povo não pode mais curtir seus próprios sambas, baiões, modinhas. Só fica com o "funk", o brega, o "forró eletrônico", o "pagode romântico" e outros engodos radiofônicos. Se a intelectualidade apoia, é porque não quer que as empregadas se interessem por suas coleções de discos. A "ralé" não pode curtir cultura de qualidade.

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