quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

INTELECTUAIS "BACANAS" E O PURISMO DA POBREZA GLAMOURIZADA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante, que aposta na bregalização do país como se fosse o supra-sumo da revolução sócio-cultural para o povo brasileiro, superestima certos episódios, apenas porque eles são um contraponto ao que eles entendem como pensamento elitista dominante, independente do que isso represente ao verdadeiro interesse elitista.

Um foi o episódio de Geisy Arruda, a sub-celebridade que há quatro anos atrás foi vaiada numa universidade porque usou roupas sexualmente apelativas. A intelectualidade fez Contracultura em copo d'água e pensou que Geisy havia feito uma atitude feminista de chocar a "sociedade estabelecida" que se horrorizou com a atitude "provocativa" da moça.

Deu em nada. O que a intelligentzia esperava que fosse uma demonstração de "feminismo popular" que combatia os "valores sagrados do machismo da alta sociedade" acabou sendo apenas um factoide que fez uma moça dar uma rasteira nos competidores do Big Brother Brasil e virar "famosa" sem muito esforço.

Hoje o que se vê é a interpretação exagerada dos "rolezinhos", os encontros realizados pela Internet por grupos enormes de pessoas e marcados em shopping centers e que geraram muita controvérsia nos noticiários em geral.

A "invasão de pobres" em larga escala nos redutos de alto consumo foi comemorada pelas esquerdas médias como se fosse um levante guevarista, bolivariano e zapatista contra os comportados palácios do consumismo da alta sociedade.

As eventuais ocorrências policiais, sobretudo em alguns casos - não todos e nem em todo encontro - de arrastões, correrias e brigas só fez a intelectualidade "bacaninha", que vê socialismo até em rebolado de "mulher-fruta", comemorar diante da rinha simbólica entre a alta sociedade moralista-policialesca e a intelectualidade dotada de populismo paternalista.

É evidente que o povo pobre tem direito a ir a qualquer centro de compras. O problema é que, para a intelectualidade, o povo pobre tem direito a tudo, menos a ir a escola, desenvolver cultura melhor, falar bem e ter um comportamento menos grosseiro.

Aí a intelectualidade cultural dominante, que se julga tanto "sem preconceitos", e fica criticando o "purismo" dos outros, mostra todos os seus preconceitos e purismos que os colocam num horizonte muito mais elitista do que o elitismo daqueles que não aceitam a bregalização do país.

MANIQUEÍSMO FÁCIL

A intelectualidade dominante glamouriza a pobreza, a ignorância e a imoralidade que o poderio dominante, seja da mídia, do mercado, da política e do latifúndio, historicamente reservaram às classes populares.

Essa glamourização adota como método o apoio a tudo que corresponde ao rótulo "popular", à sua aparência e ao seu discurso oficial, vendo a ignorância, a pobreza e a ausência de valores morais edificantes como consequências negativas, mas "necessárias", para uma imagem "purificada" das classes populares.

É uma assepsia às avessas. Para o intelectual "bacaninha", que chorosamente se revolta com o "preconceito contra o povo", o povo pobre deve existir com "suas caraterísticas". Não se mexe um dedo sequer naquilo que aparentemente o povo acredita, sonha e defende, mesmo que tais crenças, sonhos e ideias defendidas tenham sido ditadas pelo "coronel" da região.

Cria-se um maniqueísmo fácil. De um lado, os aspectos grosseiros, a ignorância, a pobreza de hábitos, costumes, expressões, crenças etc, associados virtualmente às classes populares ou mesmo à nova classe média.

De outro, estão os "valores clássicos" associados a um surreal conjunto de madames estarrecidas, antigos comunas desiludidos, policiais truculentos, jornalistas prepotentes e publicitários higienistas, tipos até reais mas que têm sua imagem exagerada para compor a sociedade "padrão República Velha" que anima a retórica intelectual mais sedutora.

É a retórica fácil que, como todo discurso fantasioso, atrai muitos desavisados. Dessa forma, os aspectos grotescos, piegas e outros associados virtualmente à "cultura popular" são colocados como o "bem" que combate o "mal" representado por valores virtualmente "aristocráticos" de uma sociedade que supostamente não recebe bem os "novos tempos".

"INCLUSÃO SOCIAL" SEM MELHORIAS

O que está em jogo nesse discurso é que a intelectualidade cultural dominante quer que o povo pobre seja incluído nos cenários e processos associados às elites "esclarecidas", sem que representem mudanças substanciais para as classes populares.

Se a intelectualidade dominante não transmite uma ideia precisa do que são elites "esclarecidas", se elas são mais aristocráticas ou mais intelectualizadas, colocando-as como uma coisa só, isso consiste numa atitude por demais preconceituosa para aqueles que se dizem "sem preconceitos".

Só para defender a bregalização cultural do Brasil como se fosse algo libertário, a intelectualidade dominante coloca no mesmo balaio de "reprovados" intelectuais como José Ramos Tinhorão e Chico Buarque ao lado de aristocráticos ou policialescos como, respectivamente, Danuza Leão e José Luiz Datena.

Enquanto isso, os intelectuais dominantes se inquietam quando alguém reivindica que o povo pobre deva ir à escola e desenvolver uma cultura melhor. A inquietação chega ao ponto da "urubologia" digna de um Merval Pereira, mas o rótulo "popular" garante a penetração desse reacionarismo sutil nos círculos midiáticos de esquerda.

Ninguém pode mexer na "pureza" da ignorância popular, muitas vezes condicionada por elites dominantes que controlam subúrbios, roças e favelas, sob pena de ser visto como "higienista". O respaldo popular, seja consciente ou não, e mesmo sob persuasão dos barões da grande mídia, deve, segundo a intelectualidade dominante, ser preservada e aceita como é.

Daí a visão do purismo mais escancarado. O povo pobre pode ir ao shopping center, mas não pode ir à escola. Pode rebolar, mas não pode ler um livro. Pode dizer baixarias com um microfone na mão, mas não pode compor boas melodias no violão. Povo pobre pode até ganhar mais dinheiro, mas quase não pode desenvolver a verdadeira cidadania.

E a intelectualidade "bacana" acha legal os pobres em bando irem agressivos a um centro comercial, como lutadores de UFC. Isso fica dentro dos estereótipos "positivos" que a intelectualidade faz do povo pobre. Para a intelectualidade, é melhor do que fazer passeata e pedir a urbanização dos subúrbios, com fornecimento água e energia elétrica.

A intelectualidade cultural dominante quer que o povo pobre permaneça na sua mesmice. A suposta solidariedade intelectual demonstra-se um paternalismo cruel, que não quer que o povo se evolua, na medida em que a pobreza, a ignorância e a imoralidade são alvo de apologias sutis que tentam disfarçar os piores preconceitos dessa intelectualidade festejada.

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