sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

"FUNK" E A MERCANTILIZAÇÃO DO CORPO FEMININO


Por Alexandre Figueiredo

O "funk" é defendido desesperadamente pela intelectualidade dominante, que se apavora, alarmista, com as críticas que o ritmo recebe, não só das elites, quanto das próprias periferias. As críticas são tantas que, para seus propagandistas, pouco importa se a maioria da sociedade critica o "funk". Podem ser os 99%, que estão "todos errados".

Os propagandistas do "funk" ainda apelam para a sociedade de 1910 para "explicar" a rejeição sofrida pelo gênero. Um grande absurdo, mas virou discurso corrente, diante do desgaste da palavra "preconceito" que ainda é bastante usada, mas cujo uso é também bastante combativo.

Mas o "funk" é que está errado. O ritmo é musicalmente muito rígido, preso na sua mediocridade. Há relação hierarquizada entre o DJ, o único "instrumentista" do gênero, e o MC, o vocalista, agora também com outro MC que fica balbuciando de forma rítmica.

Ideologicamente, o "funk" vê a imoralidade como se fossem "outros valores". O que é imoral e aberrante num comercial de automóvel, de sabão em pó e até de lingerie, é "divertido" e "corajoso" no "funk", demonstrando a disparidade que o discurso intelectual, mesmo o "feminista", dá para os comerciais de TV para a classe média e o "funk".

Como num elitismo às avessas, o que é "feio" num comercial de TV é "bonito" no "funk". Mesmo muitas ativistas e acadêmicas que fazem propaganda do ritmo não conseguem explicar, pelo menos sem cair em contradições, sobre de que forma as funqueiras (supostamente) rompem com a dominação machista.

Elas chegam a dizer que o "funk" é "mais feminista" do que todos os movimentos feministas juntos. Grande mentira demagógica! Afinal, falar mal de homens não é, por si só, uma postura feminista, antes fosse um "contra-machismo", ou mesmo um "machismo de saias", tão grotesco e brutamontes quanto a opressão masculina que as funqueiras dizem combaterem.

É só notar como fazem as "musas" funqueiras. Seu "direito à sensualidade" - notável analogia pornô à "liberdade de expressão" da imprensa reacionária - inclui o uso desnecessário de silicones e poses constrangedoras e nada sensuais, como posar "de quatro", como se estivesse defecando no chão, ou posar de costas junto à parede, como recebesse uma blitz policial.

Elas "vendem o corpo", a ponto de algumas funqueiras, jovens senhoras muito bem casadas, terem que se passar por "solteiríssimas" - a ponto de falar e fazer mil bobagens para dar a impressão que são "encalhadas" - para não afetar a imagem supostamente sensual, e por outro lado até para manter a privacidade de seus maridos ciumentos. Objeto sexual "não" tem marido.

O comércio do corpo alimenta o mercado de revistas, de desfiles de escolas de samba ou de propagandas de times de futebol. As funqueiras são patrocinadas até pelo jogo-do-bicho. E o papel que desempenham nada tem de feminista, até porque elas se beneficiam pela imagem de "objetos sexuais", mercadorias sexuais que alimentam os impulsos sexuais dos machistas.

Portanto, não procede esse negócio de que as funqueiras são feministas. Se elas foram frentistas, babás, lavadeiras, cozinheiras e trocaram tudo isso para exibir glúteos e peitos siliconados, pior para elas, que se ofereceram para o recreio machista mais grosseiro.

Não é assim que uma mulher poderá atingir a sua verdadeira emancipação sócio-cultural. Até porque isso não é uma ruptura com os valores machistas, até porque usar o machismo como trampolim é, de alguma forma, legitimar o machismo como caminho para obter vantagens materiais.

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