domingo, 1 de dezembro de 2013

CULTURA É QUESTÃO PENDENTE NOS MEIOS PROGRESSISTAS


Por Alexandre Figueiredo

Os meios intelectuais de esquerda ainda não conseguem adotar uma linha de perspectiva para a cultura popular. A cultura, nesse enfoque, torna-se uma questão pendente e nunca debatida, até agora, dentro de uma abordagem realmente progressista e democrática.

O que ainda se vê é um cabo de guerra entre pensadores que expressam sua própria erudição cultural, num lado, e em oportunistas e aventureiros ideológicos (alguns oriundos da mídia direitista) que defendem a bregalização do país.

Não existe uma abordagem que possa reivindicar às classes populares uma melhoria nos valores sócio-culturais que pudesse fazer o povo superar não somente sua pobreza, mas seus estereótipos caricatos impostos pelo poder midiático. O problema fica estagnado, como se fosse um cadáver humano exposto nas ruas suburbanas esperando a chegada de algum policial.

Até agora, o que se convencionou em definir como "verdadeira cultura popular" nada tem de verdadeiro. O rótulo "popular" é tão somente um pretexto para defender interesses empresariais ligados ao entretenimento popularesco. E que, no fundo, nada tem de popular.

Pois essa "verdadeira cultura popular", rótulo que protege a degradação sócio-cultural através da pretensão em defini-la como "cultura séria e relevante", serve tão somente para enriquecer empresários e ídolos associados às custas da manutenção da miséria e da ignorância, ou mesmo da imoralidade, glamourizados pelo discurso intelectual mais festejado.

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA PRESOS EM 1910

Até agora, a intelectualidade cultural dominante se limitou a pregar que qualquer questionamento a respeito dessa "cultura popular" veiculada pela grande mídia (sobretudo rádios e TVs) é fruto de "patrulhas moralistas e preconceituosas" formadas "nos mesmos moldes das velhas famílias aristocráticas da República Velha e do Segundo Império".

Declaração puramente surreal, difundida sobretudo por intelectuais "de nome" que se infiltram nas hostes progressistas para puxar o saco deste ou daquele ativista, deste ou daquele acadêmico, para impor seus conceitos midiáticos nos movimentos progressistas e arrancar do Governo Federal umas generosas verbas do Ministério da Cultura.

Afinal, embora os intelectuais "mais bacanas" tentem dizer que rejeitar a bregalização do Brasil é defender valores aristocráticos antigos, é somente nessas mentes privilegiadas, e não nas nossas, que ainda existe o Brasil de 1910. As velhas classes elitistas talvez prefiram o "funk" do que o samba, até porque no "funk" o empresariado associado manipula o povo pobre a seu bel prazer.

Tudo vira um discurso viciado, como se para certa parcela influente da intelectualidade o destino do folclore brasileiro está nas rádios, jornais e TVs controladas por grupos oligárquicos. Acuada, a intelligentzia quer agora glamourizar também o jabaculê, na sua tentativa desesperada de promover o mau gosto supostamente popular como se fosse causa nobre.

Embora infiltrada nos ambientes progressistas, o que essa intelectualidade cultural pró-bregalização faz é justamente o que, no âmbito político, fazem os "urubólogos" e "hidrófobos" despejam contra as classes trabalhadoras e os movimentos ativistas populares.

Depois essa intelectualidade pró-brega faz beicinho e vai fazendo ataques forçados ao Instituto Millenium, às Organizações Globo, à Folha de São Paulo, a Reinaldo Azevedo, a Marcelo Tas, Eliane Cantanhede etc, tentando impressionar a opinião pública com esse mal-disfarçado "fogo amigo" retórico.

DEIXEMOS DE LADO OS PRÓ-BREGAS

Pensar a cultura popular sob a ótica esquerdista é questionar o "popular" difundido pela mídia e que transforma as classes populares em caricaturas de si mesmas, apegadas a valores ligados ao piegas, ao pitoresco, ao grotesco, ao aberrante e, principalmente, ao ridículo.

Apoiar esse suposto "popular" a pretexto de "combater o preconceito" é a senha para defender não a democratização da cultura e dos meios de comunicação, mas em reafirmar valores popularescos que já estão na agenda de interesses dos barões da grande mídia, dos latifundiários, das empresas multinacionais etc.

Devemos pensar a cultura popular analisando o que foi feito antes de 1964 - quando a chamada cultura de massa passou a ter um poder avassalador, patrocinado pelo latifúndio e pelo baronato midiático - e verificar suas possibilidades de atualização.

O brega sempre foi patrocinado pelos barões da grande mídia, pelo coronelismo político e econômico, pelos grandes donos do capital. Simboliza uma concepção de "cultura popular" que, embora deslumbre certas elites aparentemente pensantes como algo supostamente "progressista", encaixa perfeitamente no que os donos do poder querem em relação às classes populares.

Portanto, chega de brega. Rejeitar o brega não é elitismo. É, sim, ver o povo pobre com outros olhos, deixar de vê-lo como bonequinhos de manobra de rádios, TVs e imprensa ligadas a grupos oligárquicos. Não se deve aceitar o "popular" como forma de glamourizar a miséria e a pobreza.

Deve-se superar este estágio, procurando defender uma nova cultura popular, aquela que não é feita por coitadinhos campeões de venda e imitadores tardios e fajutos de conceitos pop importados, mas por valores artísticos, culturais, morais e éticos sólidos, que representem não o mero contentamento popular, mas uma busca ao progresso real sob todos os aspectos.

Ainda continuamos esperando uma abordagem realmente de esquerda da cultura popular.

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