domingo, 8 de dezembro de 2013

COMO O "LIVRE MERCADO" QUE NÃO É LIVRE, A "DIVERSIDADE CULTURAL" NÃO É DIVERSA

ISRAEL NOVAES, CANTOR BREGANEJO, MAIS UM A SE SOMAR À MESMICE NADA DIVERSIFICADA DO BREGA-POPULARESCO.

Por Alexandre Figueiredo

Há dez anos a música brega-popularesca - termo que, mesmo se multiplicando na Internet, continua à margem da imprensa - sofre uma blindagem intelectual, que a credita como "verdadeira cultura popular" sob o pretexto de defender a "diversidade cultural".

Seus ideólogos, dotados de um discurso confuso mas envolvente, para a defesa da "mistura" de todas as tendências brasileiras, chegam a dizer que "tem lugar para todo mundo", "que tudo é MPB", chegando mesmo a usar rótulos um tanto hipócritas como "verdadeira MPB" ou "MPB com P maiúsculo", ou a tratar o dito "mau gosto popular" como se fosse causa libertária.

Sabemos que até mesmo monografias e documentários são feitos nesse sentido. Ou mesmo reportagens aqui e ali, que vão desde programas da Rede TV! até colunas da revista Fórum, incluindo aquele apoio "vip" da revista Caras. E muitas vezes é um discurso choroso, que reclama do "preconceito" de uma sociedade supostamente atrelada a valores de 1910.

Só que o discurso "admirável" desses ideólogos, sobretudo da intelectualidade cultural mais festejada, trata a "diversidade cultural" sob a mesma perspectiva que os ideólogos do capitalismo mais reacionário e predador tratam a ideia de "livre-mercado", e os jornalistas ultradireitistas tratam a ideia de "democracia" e "liberdade de expressão".

Pois o discurso de "liberdade" é apenas desculpa para que se faça o pior, mas que é o mais rentável para seus interessados. Na economia, defende-se o "livre-mercado" para garantir o expansionismo de empresas que possam derrubar as concorrentes mais fracas, muitas vezes derrubando a verdadeira liberdade de mercado através da formação de oligopólios e até de monopólios.

No âmbito político, a "democracia" serviu de pretexto para que o poderio dos EUA patrocinasse golpes militares e, posteriormante, "democracias" ultraconservadoras que acabaram por gerar prejuízos no âmbito da qualidade de vida das populações de outros países, em danos que variam desde a repressão militar a planos econômicos que promovessem o aumento da miséria e do desemprego.

A "liberdade de expressão", que no contexto do "popular", é usada sutilmente para a defesa de baixarias que são feitas aqui e ali, desde os apresentadores de TV policialescos até musas siliconadas, é explicitamente usada no colunismo reacionário para que seus articulistas condenem a sociedade e preguem valores que mais favorecem aos detentores do mercado e sua política associada.

Já a "diversidade cultural", tão descrita numa retórica pseudo-libertária por intelectuais de formação neoliberal que pregam seus valores logo na frente das plateias progressistas, não tem muito a ver, na prática, com o suposto discurso de diversidade que tanto se prega, mas para incluir tão somente os ídolos bregas, comercialmente mais bem sucedidos, no status de "cultura séria".

Isso porque, para quem defende essa suposta "diversidade cultural" que se move não pelo valor artístico-cultural, mas pelo jabaculê que promove tão somente ídolos vendáveis - que só tardiamente são induzidos ao mercado a fazer arremedos de MPB só para justificar os "tantos anos de carreira" - , mesmo que seja para derrubar tudo que a MPB autêntica havia feito até pouco tempo atrás.

Em primeiro lugar, porque a intelectualidade que prega a bregalização do país pouco quer saber se daqui a alguns anos haverá a MPB autêntica para dar algum sinal nas rádios e TVs, ou se haverá algum novo artista a defender a verdadeira música brasileira, nem sempre de potencial comercial certo, mas sempre de muita qualidade.

Os intelectuais se apropriam de uma parcela da MPB autêntica - de Inezita Barroso a Arrigo Barnabé, passando por Zezé Motta, Azymuth, Marcos Valle e Sérgio Ricardo -, que adota posturas menos críticas ao mercado, para provisoriamente juntá-la ao brega no seu discurso de "diversidade cultural" e depois jogá-la no mesmo limbo da outra parcela da MPB, mais odiada, simbolizada por Chico Buarque.

Em segundo lugar, o próprio brega-popularesco não aposta na diversidade artística, tendo seus membros dotados apenas de pequenas diferenças que não acrescentam muito à sua expressão musical. Tendências como o "pagode romântico", o "sertanejo", a axé-music, o "forró eletrônico" e o "funk" são essencialmente parecidas, possuem praticamente o mesmo apelo e apostam na mediocrização artística.

Essas tendências são apenas mercadológicas, inócuas ideologicamente, artisticamente fracas e dotadas apenas de meras intenções de lucro financeiro e sucesso midiático. Todas as alegações de "verdadeira cultura", mesmo da parte de veteranos como Chitãozinho & Xororó e Leandro Lehart, não passam de mera jogada de marketing para prevalecerem no mercado.

Portanto, é o mesmo discurso neoliberal de colocar os interesses econômicos acima dos sociais. Muitos nada conseguem entender de metade das manobras feitas sob o pretexto de "diversidade cultural", mas elas são muito mais perversas do que a nossa humilde rejeição a mediocridade cultural tão indevidamente acusada de "preconceituosa", entre outros adjetivos desagradáveis.

Nós apenas queremos uma cultura melhor. Não a "cultura" dos lotadores de plateias e de quem chamar a atenção de mais público em menos tempo. Queremos valores, conhecimento, emoção, sinceridade, e isso o brega-popularesco não consegue oferecer, por mais que tente desesperadamente.

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