quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CHITÃOZINHO & XORORÓ E AS BREGUICES DE ONTEM E HOJE


Por Alexandre Figueiredo

Mais uma vez a dupla breganeja Chitãozinho & Xororó tenta se "dissociar" da linhagem recente dos chamados "sertanejos universitários", dando uma "advertência" para as novas gerações. Em entrevista dias atrás ao portal Terra, Xororó, um dos membros da dupla e pai dos cantores Sandy e Júnior Lima, havia dito com essas palavras:

"A galera nova está muito preocupada com o momento. Eles têm que pensar lá na frente. Essas músicas mais comerciais e mais dançantes, o povo adora. Está certo. Precisa fazer, mas não pode esquecer a qualidade. O que fica é o conteúdo".

A memória curta e os anos de muito trainée musical - que não são necessariamente o mesmo que aprimoramento artístico - fazem com que os bregas de outrora pareçam "geniais", não porque os valores mudaram ou eles se tornaram dignos de reconhecimento, mas porque a mediocrização cultural caiu de tal forma que, diante dos mais novos, os bregas antigos parecem "melhores".

Nos anos 90, o que simbolizava a breguice musical eram nomes como a própria dupla Chitãozinho & Xororó, mais Raça Negra, Wando, Luiz Caldas, Só Pra Contrariar, MC Cidinho & MC Doca, Chiclete Com Banana, entre outros. Todos eles equivaliam ao "créu", "tchererê", "rebolation" e outras baixarias de hoje, com a diferença de contexto.

Hoje, porém, tornou-se praticamente "proibido" criticá-los, eles hoje são vistos, até de forma exagerada, como "geniais" e "indiscutíveis". Parece roteiro de filme de Buñuel, mas é a situação brasileira: os mesmos que simbolizaram a baixaria dos anos 90 são agora vistos como se fossem "gênios visionários".

O grande problema que isso causa é que a qualidade musical cai, como em outras modalidades afetadas pela mediocrização cultural, que as coisas acabam sofrendo uma nivelação por baixo. O que era ruim há vinte anos passa a ser "genial" hoje não porque foi mal compreendido, mas porque diante de uma sucessão de coisas piores, até o insuportável virou palatável.

Não se pode lutar por uma cultura brasileira melhor ou por uma cultura musical brasileira de melhor qualidade. À menor crítica à mediocrização dominante, surgem os intelectuais "bacaninhas" para nos acusar de integrarmos patrulhas moralistas de 1910 que só existem na imaginação desses intelectuais.

Além disso, o mercado e a mídia protegem os bregas de tal forma que eles, de forma bastante tendenciosa, dão um aparato de "melhorias" que nada significa um verdadeiro aprimoramento. Ninguém fica mais espontâneo sendo tendencioso, e o que Chitãozinho & Xororó fizeram em 1990 não era muito diferente, na essência, ao que os "sertanejos-pegação" fazem hoje em dia.

As diferenças de contexto não podem ser superestimadas. Elas servem apenas para determinar caraterísticas de um tempo para outro, mas não querem dizer que os contextos mais antigos sejam necessariamente melhores ou mais autênticos.

Além do mais, a "evolução" dos bregas de 1990 sempre foi calculada, visando tendências de mercado e sendo condicionada pelo consumismo que os próprios bregas fazem. Se Odair José compra discos do Steely Dan, Chitãozinho & Xororó dizem serem fãs de John Mayer e MC Leozinho diz ouvir Led Zeppelin, o problema é deles, mas nada disso os faz virarem mais "geniais" ou "autênticos".

E que moral Chitãozinho & Xororó têm para falar contra o comercialismo musical? Eles também são comerciais, à sua maneira, num tempo em que romantismo piegas de chorosos arranjos de cordas era assumidamente comercial. Ninguém se torna "mais artístico" só porque inseriu uma sessão de cordas em seus sucessos musicais.

A música brasileira não merecia o prolongamento das breguices musicais, mesmo com todo o banho de verniz que fizesse os mesmos ídolos cafonas parecerem "geniais" aos olhos do público médio, ou mesmo de jornalistas e intelectuais. Até porque eles, na prática, deram o que tinham que dar, se é que eram capazes de dar alguma coisa.

É só ver que, depois de 2002 - quando o brega sofreu uma grande blindagem intelectual - o que se viu foi um saudosismo mal-assumido, mal disfarçado pelo pretenso rótulo de "artistas contemporâneos" que os bregas dos anos 90 passaram a carregar no começo deste século.

São DVDs ao vivo, discos-tributo, covers, duetos, sucessivas revisitações de repertório, numa quase esterilidade artística só interrompida por uns poucos sucessos inéditos feitos apenas para fazer média com as rádios.

Os ídolos se alimentam de factoides, declarações "de efeito", aparições na revista Caras, choradeiras diante de intelectuais badalados, enquanto artisticamente apenas recebem um aparato visual, técnico e tecnológico feito por outras pessoas: músicos de apoio, arranjadores, maquiadores, iluminadores, figurinistas etc. Os neo-bregas dos anos 90 não sobreviveram por méritos artísticos próprios.

A breguice de 20 anos atrás não é melhor que a breguice de hoje. Como, no cenário "pop rock", um Não Religião e um Restart são essencialmente a mesma coisa. O público, a intelectualidade e mesmo a imprensa é que se acostumou tanto com a bregalização que o que era insuportável antes passou a ser até "admirável".

No entanto, boa parte da permanência dos neo-bregas se deu pelo investimento maciço da grande mídia, dos empresários de entretenimento, que recorreram a mil artifícios, sobretudo publicitários, que apenas trabalharam, publicitariamente, na melhoria de imagem dos neo-bregas que empastelaram a cultura brasileira, sobretudo durante as eras Collor e FHC.

Os neo-bregas da Era Collor sobreviveram, portanto, por uma questão de marketing. Sua imagem de "grandes artistas" é falsa, que só brilha artificialmente na cobertura da grande mídia. Com todo o aparato de pompa, luxo e "bons costumes", os neo-bregas, de Chitãozinho & Xororó a Leandro Lehart, soam como uma falsa MPB feita com corantes, conservantes e estabilizantes.

Eles apenas se tornaram mercadorias melhor apresentadas. Mas, no fundo, esses ídolos neo-bregas continuam não contribuindo para a música brasileira da mesma forma que antes. Se alimentam demais da promoção de suas imagens em entrevistas para a grande mídia, fora outros produtos mais tendenciosos. Isso porque suas músicas fracas nada dizem por si, é preciso ter marketing por trás.

É a alma do negócio. Mas não é cultura de verdade.

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