sábado, 14 de dezembro de 2013

BLOGUEIRO DO "FAROFAFÁ" ESPINAFRA ESQUERDAS NO CASO DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

A choradeira continua. Com o anúncio da aprovação, pela Câmara Municipal de São Paulo, do Projeto de Lei 2/2013, que proíbe a ocorrência de "bailes funk" nas ruas paulistanas durante a noite e a madrugada, eis que um artigo do jornalista Eduardo Nunomura (espécie de André Forastieri pós-tropicalista) sai em mais uma desesperada defesa ao "funk".

Só que Nunomura deixou vazar um certo anti-esquerdismo, coisa que seu parceiro no Farofafá, Pedro Alexandre Sanches, havia feito em outras ocasiões, seja esculhambando as plateias esquerdistas dos festivais da canção, seja espinafrando Chico Buarque, seja consentindo com elogios dados ao general que conduziu o AI-5, Emílio Garrastazu Médici.

"Dois vereadores paulistanos conservadores, de partidos de direita (PTB e PSD), fizeram o que parte da esquerda adoraria fazer, mas faltava coragem", escreveu Nunomura logo de início, dentro daquele suposto embate "direita X esquerda" que até mesmo gente como Reinaldo Azevedo é capaz de escrever.

Num texto mais choroso do que jocoso - já não é mais o Nunomura que ri quando falam que o "forró eletrônico" que irrita até as periferias nordestinas é considerado "ruim" - , o farofa-feiro dramaticamente enumera os motivos que levaram os vereadores Conte Lopes e Coronel Camilo a lançarem o projeto.

Os dois afirmam que muitos cidadãos telefonam para a polícia se queixando da poluição sonora dos "bailes funk" de rua. As queixas também envolvem ocorrências violentas, pedofilia, drogas, gente que se recusa a usar fones de ouvido e toca o som alto pelo celular e outros transtornos dramaticamente "narrados" por Nunomura.

Em seguida, Nunomura cita o caso do funqueiro MC Dedé, que faz desmascarar a obsessão comercial do "funk", já que a proibição dos "bailes funk" de rua favorecerá comercialmente a realização dos mesmos em casas noturnas, que contratarão seus intérpretes mediante um bom cachê.

Citado pelo farofa-feiro, Juca Ferreira tenta "minimizar" a rejeição que a sociedade dá ao "funk" com uma frase bastante tendenciosa, chamando de "equivocada" tal rejeição, quando equivocado está o ex-ministro da Cultura quando quer que o "funk" seja apoiado com todos os seus defeitos explícitos.

Disse o ex-ministro: "Não são só a polícia, os gestores, os vereadores que discriminam o funk. Uma parte da sociedade tem uma visão equivocada do funk. Como secretário de Cultura, recebo uma quantidade enorme de cartas de pessoas e associações de bairro pedindo para proibir o funk, os bailes".

MAIS UMA VEZ, O BRASIL DE 1910

Mas aí entra o clichê: Nunomura recorre mais uma vez ao Brasil de 1910 para "explicar" a rejeição sofrida pelo "funk carioca". Mais uma vez usurpando o histórico do samba, Nunomura tenta atribuir a rejeição do "funk" ao mesmo contexto de perseguição aos negros baianos que haviam fundado o samba, que migraram para o Rio de Janeiro.

Para piorar, o uso da negritude, citada na tendenciosa comparação com o samba, para justificar a defesa do "funk" não só não tem a menor coerência, como pode representar, em contrapartida, um racismo sutil, porque tal defesa sugere que o papel do povo negro é tão somente de rebolar até o chão e pensar só em sexo e baixarias.

Nunomura tenta dizer que o "funk" é o novo samba, quando isso não procede. O samba sempre foi aberto à divesificação melódica, instrumental, e seus temas não tinham a baixaria como carro-chefe. Se havia sexo e bebedeira, ou talvez drogas, esse não estava diretamente ligado ao cardápio musical.

Já o "funk" é muito fechado musicalmente, nunca vai além da relação (sutilmente hierarquizada) de MC e DJ, e usa as baixarias como um fim em si mesmo. E Nunomura ainda estranha que parte das esquerdas rejeitem energicamente o "funk".

É bom avisar ao farofa-feiro - e ao seu parceiro "filho da  Folha" - que a rejeição que as esquerdas fazem ao "funk" se devem ao fato de que o ritmo glamouriza a pobreza, a ignorância e a ausência de valores morais edificantes, e que por isso contribui muito mais pela estagnação do povo pobre do que por qualquer desejo de melhorias reais para as classes populares.

Outro lembrete que deve ser feito a Nunomura e Sanches é que o "funk" ganha maior aceitação em setores flexíveis da direita. É bom notar que o "funk" tem o apoio, mais que explícito, de figuras como Luciano Huck - tão amigo de Mr. Catra quanto de Aécio Neves, Eike Batista e Zezé Perrella - e Lobão, espécie de tradução rock'n'roll de Olavo de Carvalho.

DIREITISMO FUNQUEIRO

Como os ditos "progressistas" Nunomura e Sanches podem ignorar declarações como a do "grande lobo" dizendo que o "funk" é, para este, a "melhor música" feita no Brasil na atualidade? O mesmo Lobão que hoje se arrependeu de ser esquerdista e pediu desculpas aos filhos do "doutor" Roberto Marinho, que também dão o maior aval ao "funk"?

Aliás, não dá para ignorar o apoio da grande mídia ao "funk". Isso nada tem de acidental nem conspiratório. Pelo contrário, os barões da mídia adoram o "funk", as Organizações Globo sempre divulgaram amplamente o gênero, e mesmo a Veja São Paulo havia exaltado o "funk ostentação" antes de exaltar o "Rei dos Camarotes" e Tuminha (Romeu Tuma Jr.).

Portanto, apoiar o "funk" nada tem de progressista. O "funk" não progride, regride. Isso não é moralismo. É só ver que, no "funk", os pobres são induzidos a ficar como estão, não podem tocar instrumentos, não podem fazer melodias, não podem defender a cidadania, não podem sair da mesmice pornográfico-criminal que os promovem.

Daí que, fora alguns radicais que sonham em ouvir música clássica nos distantes castelos medievais da Itália, a direita sempre foi receptiva ao "funk". Os próprios funqueiros sabem que são muito mais ouvidos pelos barões da grande mídia do que pelas associações de moradores e pelos movimentos sociais.

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