terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ATIVISMOS E REACIONARISMOS NA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO


Por Alexandre Figueiredo

Vivemos uma sociedade midiatizada que é devidamente analisada lá fora, mas aqui ainda é vista com um certo deslumbramento, só quebrado quando a agenda setting - espécie de hit-parade da informação - permite que se façam análises mais realistas e menos fantasiosas.

Dois episódios de sentido ideológico oposto, um mais "libertário" e outro reacionário, aconteceram recentemente e que mostram o quanto o poder midiático e a busca por visibilidade ainda movem a sociedade mais do que a luta por melhorias ou o debate sobre os problemas relevantes da sociedade.

Um é o ativismo de resultados promovido por um "toplessaço" feito há poucos dias em Ipanema. Nada contra a luta pela liberdade do corpo, mas há muito tempo isso deixou de ser um ativismo sério para estar na pauta de uma "Contracultura de resultados" que se preocupa mais em chocar os moralistas do que em provar que eles estão antiquados para os dias de hoje.

Outro é o comentário racista da executiva da InterActive Corp, Justine Sacco, publicado no Twitter, que constituiu numa piada não só de mau gosto, mas de cunho racista claro: "Indo para a África. Espero que não pegue AIDS. Brincadeira. Sou branca!".

A declaração infeliz deu a crer que Justine acha que os brancos têm muito mais resistência e invulnerabilidade à infecção pelo vírus HIV do que os negros. Além disso, a declaração foi ofensiva ao povo africano e fez com que Justine fosse demitida de um posto de comando que desempenhava na empresa.

Justine deve desconhecer, por exemplo, que o ex-jogador de basquete, o negro norte-americano Earvin Johnson, o "Magic Johnson", contraiu vírus de HIV há 22 anos e, hoje perto dos 55 anos, Johnson consegue controlar sua saúde na medida do possível, evitando os sintomas da AIDS, com tratamento disciplinado de remédios, e junto a isso levar uma vida saudável.

Voltando ao toplessaço, o evento repercutiu menos que o imaginado. Havia mais fotógrafos que manifestantes, o que dá o tom da espetacularização que manifestações desse porte - ou outras como o desfile do orgulho gay ou a Marcha da Maconha (esta se servindo de generosas gorjetas de George Soros) - causam num Brasil ainda carente de grandes eventos ativistas.

Eles até acontecem, como foi no caso de junho passado, nas manifestações populares em vários cantos do país, até mesmo em Rio Branco, no Acre. Mas na medida em que se criou um cabo-de-guerra entre o PT e a Rede Globo para ver quem seria o "dono" dos protestos enfraqueceu as manifestações que, isoladas, deram maior visibilidade a extremistas como os Black Blocs.

Mas se quando há manifestações independentes, há quem queira ser o "dono" das mesmas, ou, quando muito, perguntar "quem" as organiza, então o ativismo verdadeiro é deixado de lado por formas mais espetacularizadas, feitas mais para "chocar" a "sociedade organizada" do que para pedir melhorias diversas.

Não que fazer topless ou defender as relações homoafetivas sejam ruins. Pelo contrário, se tornam fundamentais na busca por direitos sociais ou da valorização do prazer humano. Talvez faltasse um algo mais do que um mero espetáculo para chocar os moralistas, como no toplessaço, e sobrem gays estereotipados nos desfiles do orgulho gay.

Sobre o homossexualismo, há que se admitir que não existem somente gays estereotipados, vestidos de drag queens ou falando de jeito efeminado. Só em Hollywood, por exemplo, existem atores como Matt Bomer e Zachary Quinto, ou o estilista Marc Jacobs, que não deixam de ter a aparência masculina comum, viril e barbuda. Apenas se sentem atraídos por outros homens.

O que leva o toplessaço não ter tido o sucesso esperado não dá para entender. Talvez seja baixa divulgação. Se tivesse sucesso, daria no mesmo efeito do evento espetacularizado, numa sociedade midiatizada de hoje, em que desejos são embaralhados nem sempre conforme a liberdade pessoal, mas nos jogos de interesses do status quo ou das circunstâncias imediatistas.

Portanto, os dois episódios, o da executiva racista e do toplessaço, são apenas dois lados do mundo espetacularizado, da busca pela visibilidade fácil, seja num provocativo comentário reacionário, seja numa provocativa manifestação anti-moralista.

Corpos que não querem pegar AIDS de almas que querem ofender os outros. Corpos que pregam a liberdade de seios femininos à mostra, de almas que ainda não são tão livres assim da manipulação midiática e do jogo de interesses sócio-afetivos. Um mundo de alta tecnologia, de ampla possibilidade para a fama, mas baixa ainda para as transformações sociais verdadeiras.

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