terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A FALSA ANALOGIA ENTRE O "FUNK" E O SAMBA

AGORA, A INTELECTUALIDADE USA ATÉ PIXINGUINHA PARA TENTAR SALVAR O "FUNK" DA DECADÊNCIA.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade pró-brega e pró-funqueira está alarmada. Em pânico, desde que dois ex-policiais e parlamentares paulistas tiveram seu projeto de lei aprovado, o Projeto Lei 2/2013, que proíbe a realização de eventos barulhentos nas ruas, principalmente os "bailes funk", a intelligentzia brasileira recorre aos clichês da choradeira mais dramática para salvar a reputação do "funk".

Como sempre, eles vão até 1910 para explicar a rejeição sofrida hoje pelo "funk". Segundo sua tese, bastante apelativa e sedutora, mas completamente inverídica, o "funk" seria rejeitado pelos mesmos sistemas de valores da República Velha, ligados a um moralismo ultrapassado que estaria horrorizado com o avanço mercadológico do "funk" nos vários segmentos de mídia.

Para tanto, a intelectualidade "bacaninha" recorre ao samba, numa comparação desesperada. "O 'funk' é rejeitado hoje como o samba, o maxixe, o maracatu, o jongo e o lundu eram rejeitados pela sociedade escravocrata e pós-escravocrata da virada do século XIX para o século XX.

Simples assim. Uma intelectualidade dotada do privilégio da visibilidade alta e facilmente conquistada, também beneficiada pelo privilégio dos diplomas e do quase monopólio em palestras e seminários de ponta, mas comprometida com a mediocrização da cultura popular no Brasil, manipula a história usando o passado remoto para explicar os fatos do presente.

No entanto, não faz sentido creditar a rejeição do "funk" a valores vigentes entre o Segundo Império e a República Velha, como também não faz o menor sentido comparar o "funk" com o samba, por suas caraterísticas bastante antagônicas.

ANTAGONISMO MUSICAL

O samba sempre se valeu de uma riqueza rítmica, de um esboço de melodias que se desenvolveu depois e que, com o flerte com a música erudita, deu numa de suas variações mais notáveis, o chorinho.

O samba sempre lançou mão de vários instrumentos, alguns de cordas e outros percussivos, além dos de sopro. Ele nunca se valeu somente pela batida, mas também pelos cantos que valiam pela sua maleabilidade vocal, já a partir das famosas rodas de samba.

No que diz aos valores morais, o samba se limitava, nos piores aspectos, a ser trilha sonora de atos sexuais ou de consumo de drogas lícitas ou ilícitas. Eles não eram o fim em si mesmo nem o motor da expressão sambista, porque o samba valia por si só, pelo seu ritmo, pela sua música, pelo seu canto e suas batidas.

Já o "funk", não. Se o samba gerou uma porção de variedades derivadas de sua expressão musical, o "funk" só criou "variações" com finalidades de mercado, como o "funk comercial" (para o "povão" em geral), o "funk melody" (para um público mais comportado), o "proibidão" (para jovens pobres mais agressivos), o "funk de raiz" (para educadores e ativistas) e o "funk exportação" ou "funk de DJ" (para turistas e investidores estrangeiros).

Musicalmente, o "funk" é bastante limitado. Em vez de instrumentos, há apenas o DJ, o MC e um "MC de apoio", que fica balbuciando. Instrumentos musicais e composições melódicas são proibidos, a não ser na forma comercial do "funk melody", e mesmo assim com resultados sofríveis.

O "funk" é preso ao seu purismo sonoro, que não permite a verdadeira evolução artística. É mentira que o "funk" tenha alguma riqueza musical ou que a figura do DJ aponta mil possibilidades artísticas. Isso é invencionice de intelectuais demagógicos. O "funk" é musicalmente limitadíssimo, e só "evolui" (se é que isso é evoluir) se o empresário-DJ quiser.

Portanto, são duas realidades completamente diferentes. O samba que foi injustiçado pela sociedade de 1910, que se aterrorizava até com meninas inocentes mostrando os pezinhos, e o "funk" alvo de protestos de pessoas moralmente mais abertas, mas que não admitem abusos ligados ao grotesco e à apologia à violência, pedofilia, drogas ou mesmo a miséria.

O samba queria se evoluir e foram criadas escolas de samba para desenvolver uma imagem mais positiva do gênero, além de articular o convívio comunitário. Já o "funk" se contenta em exaltar as favelas que, em dias de tempestades, são afetadas por enchentes e deslizamentos de terras, que fazem o povo perder praticamente todos os pertences arduamente adquiridos, e até suas vidas.

O  "funk" glamouriza a pobreza, a ignorância e a  imoralidade. O "funk" não quer melhoria de vida. Quando muito, só mais dinheiro no bolso. O samba prevaleceu porque quis melhorias de vida e não via as baixarias como um fim em si mesmo, além do fato da sociedade de 1910 ser extremamente moralista.

Portanto, não custa repetir: o "funk" é rejeitado por uma sociedade moralmente muito mais aberta que a de 1910. Só esse detalhe faz qualquer analogia entre "funk" e samba perder completamente o sentido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...