terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013: MAIS UM ANO MALUCO NO BRASIL?

FELIZ 2015 - MELHOR GUARDARMOS AS FESTAS PARA O FIM DO ANO QUE VEM. ISSO SE A RESSACA NÃO CHEGAR ANTES.

Por Alexandre Figueiredo

O ano de 2013, no Brasil, mostra o país ainda preso pelas correntes pragmáticas de uma década de 90 que até agora não foi oficialmente encerrada e já começa a despertar um saudosismo de um passado que estava sempre presente.

Um Brasil que volta e meia é mergulhado por episódios kafkianos - não, não iremos muito longe, tivemos o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, logo seriam episódios febeapianos - ainda engatinha no seu sonho obsessivo de ser uma grande potência que está longe de ser. Afinal, não se faz uma potência com chuva de dinheiro, mas com qualidade de vida e justiça social.

Um Brasil tragicômico, que incluiu no começo o incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, no interior gaúcho, durante a imprudência da organização de um espetáculo breganejo. 242 pessoas morreram, outros entes das vítimas também faleceram, como se contagiados pelo clima trágico do episódio. A tragédia prenuncia um Brasil que ainda precisa tomar cuidado consigo mesmo.

Na política, o Partido dos Trabalhadores teve desempenho morno, no conjunto da obra. O governo Dilma Rousseff, com seus altos e baixos, consegue manter a estabilidade econômica, mas peca pela pouca ousadia de seu projeto político, e pela pouca coragem da presidenta de exercer a regulação da mídia e políticas em prol da democratização, ampliação e modernização da Internet.

Em vez disso, Dilma preferiu dar a sentença de morta ao rádio AM, atendendo aos interesses dos barões da telefonia móvel. Só que a festa da migração das AMs para o dial FM, que já estava ocorrendo há muitíssimo tempo, deu com os burros n'água, com rádios perdendo audiência para a televisão, que já pode até ser sintonizada em telefones celulares.

Mesmo a manipulação da medição de audiência das FMs, feita por um método rudimentar e malandro, não deu certo. As rádios de " dez e tantos mil" ou cento e tantos mil ouvintes" simplesmente estão com audiência muito abaixo da dos dados oficiais, já que na verdade são uns poucos "gatos pingados" que sintonizam tais emissoras diante de multidões que passam por perto deles.

Aí é aquela coisa. O jornaleiro ouve a FM noticiosa, e você vira "ouvinte" só porque comprou um jornal na banca dele. Você vai para a loja de materiais de construção comprar algumas peças e só porque o vendedor ouve a FM tal, você é jogado para a audiência da mesma. O síndico ouve a transmissão esportiva em FM e todo o prédio leva a "culpa" pela sintonia. Não faz sentido.

Mas aí a farra dos barões da mídia, que adoram brincar de rádio AM nas ondas de FM - favorece muito mais a concentração de poder e impede a concorrência de AMs "mais fracas" - , vai muito mais além do noticiário político, embora este apronte muito das suas.

CIRCO MIDIÁTICO

O reacionário Reinaldo Azevedo aumentou sua visibilidade acumulando coluna na decadente mas persistente Veja e na Folha de São Paulo, sonhando em ganhar espaço na TV. E a Folha aumentando influência com programa na TV Cultura e até mesmo na "roqueira" 89 FM, coordenada pelo emo "das antigas" Tatola Godas que pensa ser o guru hardcore mas fala feito locutor de FM de pop baba.

A tão festejada volta da 89 FM, no final do ano passado, embora comemorada de forma fantasiosa pelos roqueiros brasileiros, não se deu por causa de uma "missão histórica" com a cultura rock, mas porque seus proprietários são amigos de Roberto Medina, que queria a emissora como realimentadora do mercado de shows internacionais.

A mesma armadilha pode vir com a carioca Rádio Cidade, outra rádio dos amigos de Roberto Medina, e que, como a 89, são amigos de Ricardo Teixeira e Eike Batista, lembrando os tempos em que o dono da 89, José Camargo, apoiava Paulo Maluf ao lado do hoje presidente da CBF, José Maria Marín, quando hoje eles apoiam o tucano Geraldo Alckmin.

A Rádio Cidade, talvez, se aproxime mais de Sérgio Cabral Filho. Mas em todo caso é uma politicagem que passa por trás dos roqueirinhos tão metidos a "conscientizados". Para eles, só interessa a 89 e a Cidade tocarem o que essa garotada entende por "rock", incluindo besteirol esportivo e programas de perguntinhas tolas.

Mas se até Lobão e Roger Rocha Moreira viraram reacionários, o que dizer das reacionárias Cidade e 89, com sua programação "roqueira" padrão FIFA, sem qualquer compromisso real com a defesa da cultura rock (os clássicos vão para o lixo e os alternativos fiquem no limbo), cujos donos têm mais compromisso com Roberto Medina e seu mercadão de shows do que com a História do Rock.

E diante dos jovens "roqueiros" padrão Reinaldo Azevedo exaltando rádios medíocres, a Veja resiste mesmo acumulando exemplares encalhados em todo o país, e dando ao Grupo Abril uma crise que custou a franquia da MTV e a circulação de várias revistas. E isso com o patriarca Roberto Civita morrendo depois de grave enfermidade.

A MTV recomeçou do zero com novos canais e a tutela da Viacom / Paramount, que criou filial própria no Brasil. Revistas como Alfa, Uma e Bons Fluídos foram embora, milhares de profissionais do Grupo Abril foram para a rua. Quatro Rodas permaneceu, mas ficou sem "condutor", no caso, o chefe de redação. André Petry da Veja, um Augusto Nunes menor, foi para a rua. Caras e Contigo, entre outras, permanecem em pé, e Contigo até comemorou 50 anos com certa tranquilidade.

A Rede Globo perde audiência, mas sua crise não parece tão aguda quanto a Abril (e esta ainda quer se concentrar no mercado educativo, com faculdades e editoras de livros didáticos), embora fosse já um sinal claro de declínio para uma emissora que detinha a supremacia quase absoluta de audiência durante muitos anos.

Mas neste circo midiático, o noticiário político sofre uma crise que não é somente sua, já que toda uma concepção de país dominada pelo poder político, pelos intelectuais e tecnocratas, anda muito decadente.

ÔNIBUS DESGOVERNADO

E já que o Brasil anda parecendo um ônibus desgovernado, tudo indica que a pintura padronizada que simboliza o "novo transporte coletivo" do Rio de Janeiro se limitará a ser historicamente o canto de cisne de um projeto tecnocrático que Jaime Lerner lançou em Curitiba na ditadura militar.

Tido como "santo" por alguns busólogos "chapa-branca", Lerner foi condenado pela Justiça por improbidade administrativa. A pintura padronizada sonhada por ele, além disso, prejudica o povo, que se confunde na hora de saber qual a empresa de ônibus que vai pegar, e favorece a corrupção político-empresarial, garantida pelo mascaramento da pintura igualzinha em várias empresas.

A corrupção correu tão solta que mesmo as tentativas de criar CPI dos Ônibus deram em fracasso, vide o prestígio de certos "supersecretários" de Transporte e o poderio dos grandes empresários de ônibus. Os busólogos "chapa-branca", esquentadinhos em 2012, se isolaram na tentativa desesperada de defenderem Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho.

E aí a verdadeira mobilidade urbana se notou nas ruas, com manifestações populares sem um caráter ideológico rigidamente definido. Era algo inédito em 45 anos, com as dimensões só observadas antes na Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro de 1968.

O Brasil parecia mudar com essa verdadeira diversidade social em marcha por um país melhor. Até que veio o cabo-de-guerra entre o PT e as Organizações Globo para ver quem é que bancava o dono das manifestações populares. Com isso, houve demonizações de um lado e de outro, a sociedade afastou-se das ruas e só sobrou o corporativismo agressivo de Black Blocs e similares.

E aí, veio do nada, a figura de Pablo Capilé que, diferenças de contexto à parte, se equiparava ao Cabo Anselmo de 50 anos atrás, na medida em que desviava o foco das manifestações sociais (como na época do movimento pelas reformas de base da era Jango).

Aliás, Capilé não só desviava o foco como fazia o Brasil ficar fora do eixo, com um estranho "ativismo de resultados" que soou como um sedutor canto da sereia para as esquerdas, ocultando as generosas mesadas do magnata George Soros, mas colocando seus militantes para brincar de debates ciberativistas no programa Navegador, da Globo News dos irmãos Marinho.

Enquanto isso, houve a CPI que investigava a corrupção de Carlinhos Cachoeira, que já naufragou quando evitou o depoimento de testemunhas e suspeitos importantes, sobretudo em relação ao envolvimento do jornalista de Veja, Policarpo Júnior, no esquema. A grande mídia nem esteve aí para isso e ficou aliviada quando a CPI terminou como se não tivesse acontecido.

E a CPI do Mensalão marcou o estrelismo de alguns ministros do STF, que levaram ao extremo os erros políticos de Marcos Valério tendo a reboque José Dirceu, José Genoíno e outros. Estes acabaram sendo demonizados pela direita, mas não tiveram a autocrítica de assumir seus erros, quando se juntaram ao valerioduto visando obter vantagens fáceis para o PT.

Aí veio o contraste entre a direita que demoniza demais os petistas, e a esquerda que os vitimiza e, por conseguinte, os heroifica demais. Nem um, nem outro. Ficou apenas um maniqueísmo viciado em que a direita furiosa age contra os petistas que, em vez de assumir erros e adotar autocrítica, se limitam a dizer que são "injustiçados", sem dar qualquer explicação a mais.

Na órbita tucana, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. até tentou criar uma "candidatura" de protesto para a ABL, mas nada impediu que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso virasse membro da academia e, ao lado de Merval Pereira, ensinasse "urubologia" para os colegas literatos. Tudo isso, porém, não evitou a crise que o PSDB e seus satélites DEM e PPS sofressem, perdendo políticos para o "ressuscitado" PSD, do ex-demo Gilberto Kassab.

PSD foi o partido de Juscelino Kubitschek, que voltou à cena, juntamente com João Goulart, por causa das denúncias que os dois, aparentemente mortos por acidente de carro e parada cardíaca, respectivamente, teriam sido assassinados pela Operação Condor (que envolvia algumas ditaduras sul-americanas, inclusive o Brasil). Jango teve o corpo exumado e examinado, além das homenagens tardias como a anulação da cassação de mandato e as cerimônias fúnebres de chefe de Estado.

PROCURE "NÃO SABER"

Na cultura, o que se viu foi uma série de trapalhadas feitas pela intelectualidade cultural dominante que, autoproclamada de esquerda, não consegue esconder suas contradições quando defende o brega e seus derivados, inclusive o "funk". E, diante da crise do "funk carioca", veio o "funk ostentação" como suposta novidade, para realimentar a campanha intelectualoide em prol do ritmo, com toda a choradeira discursiva de sempre.

A choradeira até mudou o foco. Sem cortar a alegação de "combate ao preconceito", este teve menos ênfase nos choramingos contra a rejeição que a sociedade dá aos funqueiros. Desta vez, a intelectualidade "mais bacana" recorreu à sociedade de 1910 para explicar tamanha rejeição, como se ainda estivéssemos sob as mesmas estruturas moralistas da República Velha.

Esse discurso choroso também se apoia com a preocupação purista em manter o "funk" em suas baixarias e sua imbecilização artístico-cultural. E aí mesmo as mulheres que integram a intelectualidade cultural dominante caem em contradição.

Enquanto elas se voltam contra os comerciais de tevê que transformam mulheres de classe média em imbecis, elas protegem as funqueiras que trabalham uma imagem não muito diferente, até mesmo mais grotesca. E aí as "pensadoras" acabam errando ao considerar como baixarias a imbecilização da imagem feminina pela publicidade televisiva, mas vendo como "discurso auto-afirmativo direto" quando as mesmas baixarias partem de MCs e mesmo de "musas" do "funk".

Falando em "musas" do "funk", elas nem estavam aí para denúncias de que a solteirice de algumas delas era uma farsa. Duas conhecidíssimas "musas", igualmente siliconadas e oxigenadas, estariam escondendo suas vidas de mulheres bem casadas, com o marido de uma delas na prisão e outro morando em lugar ignorado.

Este último caso é até notório. A funqueira, também tida como "ativista" e militante LGBT (apesar de heterossexual), que tem filho adolescente, nem se interessou a explicar por que recebeu uma moto importada que nunca usa, ou porque se recuperou da dengue duas vezes num piscar de olhos. Tida oficialmente como "solteirona", ela na verdade estaria casadíssima e usando sua imagem de pseudo-solteira para, diante de factoides, não expor o maridão, protegido na privacidade.

Voltando à intelectualidade pró-brega, pró-funqueira e similares, o episódio do Procure Saber, de um grupo de medalhões da MPB que se voltou contra biografias não-autorizadas foi o pretexto para o golpismo cultural de jornalistas e escritores "tarimbados", famintos em derrubar a MPB e instaurar a bregalização em todos os pontos e redutos imagináveis e inimiagináveis no país.

Se a intelectualidade "bacana" já fazia seu dirigismo cultural empurrando Raça Negra e Leandro Lehart goela abaixo nos públicos de vanguarda e de cultura alternativa, o caso Procure Saber foi uma deixa para eles derrubarem seus ódios contra o traíra Roberto Carlos, que eles antes respeitavam como um natural aliado da bregalização, mas que passou a ser mal visto por causa dos processos judiciais contra o arroz-de-festa Paulo César Araújo.

A campanha contra o Procure Saber ignorou, antes de mais nada, o fato de que mesmo os ídolos bregas exerceriam um zelo pela vida privada pior do que Roberto Carlos e Chico Buarque, até pela exposição que os bregas têm ao sensacionalismo da mídia. Além disso, o próprio Paulo César Araújo fez um lobby para tentar apagar na Internet alusões ao apoio de seu ídolo Waldick Soriano à ditadura militar e aos valores machistas.

Tudo virando uma campanha por um Procure Não-Saber da música brasileira, de preferência ignorando que a "admirável" breguice que toma conta das rádios e TVs de todo o país fosse patrocinada pelos barões da mídia e pelo latifúndio, apostando mais na tese um tanto improcedente de que essa breguice é resultado pura e simplesmente da "vontade popular".

AJUDINHA DE REINALDO AZEVEDO E DA GLOBO

E aí vieram situações insólitas, como a fúria dos intelectuais "bacaninhas" contra Chico Buarque, que deixou vazar até um histérico anti-esquerdismo de Pedro Alexandre Sanches, o "filho da Folha". Na sua obsessão de derrubar a MPB e criar o império da bregalização sob o consentimento temporário de alguns obscuros da MPB, que serão apunhalados pelas costas no meio do caminho, Sanches teve o favorecimento de contextos nada esquerdistas para sua campanha feroz.

Para derrubar Chico Buarque e enterrar viva a MPB autêntica, Sanches e seu parceiro farofafeiro Eduardo Nunomura (espécie de André Forastieri pós-tropicalista) contaram com o apoio de ninguém menos que Reinaldo Azevedo, que à sua maneira combatia Chico Buarque com seu apetite extremo-direitista.

Mas nesse caminho o roqueiro convertido num Olavo de Carvalho rebelde, o músico Lobão, havia lançado um livro de "ensaios", seu "manifesto do nada" numa "terra do nunca" que antecipou sua coluna de Veja. E Lobão apoia tudo que Pedro Alexandre Sanches apoia no "funk", até com entusiasmo descomunal. A direita é mais receptiva ao "batidão" do que imagina a vã filosofia.

Não bastasse isso, Sanches e Nunomura, na sua paranoia "urubóloga" contra a MPB, apelaram até mesmo para as estrelas da Rede Globo, o sambrega Thiaguinho e o breganejo Luan Santana, como supostos heróis da cruzada anti-MPB dos dois farofafeiros. O que deixou Sanches de calças curtas, diante de seus falsos ataques à grande mídia que ele eventualmente escreve em seus artigos.

Para terminar a tragicomédia brega, a intelectualidade "bacaninha" exagerou nas lágrimas com a morte do ídolo brega Reginaldo Rossi. Ele, que nunca se levou a sério e não levantava bandeiras em prol de uma dita "verdadeira MPB", foi alvo de elogios e teve associado a virtudes artísticas, poéticas e musicais que ele nem se interessou em ter. A intelectualidade dominante o levou a sério demais, ela que se apega mais a mitos do que a pessoas.

E na esquina temporal de 2014, o Brasil está problemático até mesmo nas obras da Copa. Acidentes matam operários, obras continuam inacabadas, dinheiro público e privado sendo desperdiçado. E as chuvas destruindo as casas populares, as favelas, as periferias, matando muita gente e deixando os sobreviventes sem sequer o básico de bens para sua sobrevivência e conforto.

Mas essa é a periferia de verdade, que a intelectualidade "bacaninha", as autoridades e os tecnocratas e, acima de tudo, os barões da grande mídia, não querem saber. O Brasil de um futebol corrupto que ofusca uma discreta vitória no handebol feminino ainda precisa aprender muito para ser potência, se preparando para que alguma nação africana passasse a perna na corrida nos postos de futuras potências mundiais.

Termina-se esse ano maluco de 2013 - bem mais do que o louco ano de 1961 descrito na retrospectiva da revista Manchete, na época - desejando a todos um feliz 2015 e muita paciência para encararmos o confuso ano de 2014 que virá pela frente.

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