domingo, 24 de novembro de 2013

VERDADEIRO ROCK ALTERNATIVO É DESCONHECIDO NO BRASIL

A BANDA INGLESA RIDE TEVE COMO UM DOS INTEGRANTES ANDY BELL (DE CAMISA LISTRADA), QUE INTEGROU DEPOIS O OASIS E HOJE INTEGRA O BEADY EYE.

Por Alexandre Figueiredo

O que é rock alternativo para os brasileiros? Marilyn Manson? Nirvana? Queens Of The Stone Age? Flaming Lips? Smash Mouth? Offspring? Matchbox 20? Não, nenhum deles. Eles se encontram num mainstream roqueiro que poucos percebem na aridez cultural que existe no Brasil.

Sim, porque desde os anos 90 o país viveu uma erosão cultural tão grande que hoje o mainstream virou uma "peneira" em que até aquilo que era "só sucesso" nos anos 80 passou a ser visto como "sofisticado", "vanguardista" ou "alternativo" a partir da década seguinte.

Com a mediocrização cultural galopante - em maior intensidade no Brasil, embora nos EUA há quem apronte bastante neste sentido - , mesmo o pior da disco music parece "sofisticado" e "coisa do outro mundo" enquanto que baboseiras poser como Mötley Crüe são "alternativas".

Para piorar, há no Brasil quem não goste que alguém questione a suposta sofisticação de certos nomes "sagrados" do hit-parade. Como Bee Gees, por exemplo, que contam com uma "patrulha" organizada na Internet para fazer trolagem contra quem der um pio contra o pop comportado e inofensivo do famoso trio australiano.

É o país em que até o constrangedor "funk carioca" é visto como "vanguarda". Assim fica complicado explicar que Marilyn Manson não é rock alternativo, para uma população que acha que até Lady Gaga é "rock alternativa", mesmo não fazendo rock e não sendo alternativa.

Tudo isso tem boa parte de culpa na mídia brasileira, que se orientou pelo pior da mídia norte-americana. A superestimação da MTV, que derrubou as rádios roqueiras dos EUA nos anos 80, fizeram seu estrago nas rádios de rock brasileiras, que interromperam a continuidade da divulgação de bandas alternativas que havia na década oitentista.

Se nos anos 80 tivemos a chance de conhecer o som de grupos como Fall, Durutti Column, Cocteau Twins e Felt, nos anos 90 deixamos de conhecer o com de bandas como Ride, Wedding Present, Weather Prophets e Wonder Stuff, entre tantos outros grupos realmente alternativos que só são expressivamente apreciados em seus países de origem.

O Wedding Present, de Leeds, liderado por David Lewis Gedge, soa como se os Buzzcocks tivessem Ian Curtis nos vocais e este, longe de seu destino suicida e seu jeito melancólico, fosse um sujeito mais alegre e de bem com a vida. Musicalmente, o Wedding Present antecipava em uma década o som que o público médio conhece através de grupos como o Green Day.

Os Weather Prophets é como se os Byrds tentassem soar como o Velvet Underground. Liderado pelo vocalista, guitarrista e letrista Peter Astor, o grupo de Londres já está extinto há muito tempo, mas sua sonoridade melódica impressionante teve divulgação regular na Rádio Fluminense FM, de Niterói, e pouca gente percebeu.

O Wonder Stuff é um grupo liderado por Miles Hunt, cantor e guitarrista que havia largado o Pop Will Eat Itself (espécie de Sigue Sigue Sputnik com mais raiva e menos eletrônica) para fazer um som diferente. O WS faz um rock vigoroso, por ora influenciado pelos Beatles, em que humor e melodias convivem com harmonia e equilíbrio.

Já o Ride, oriundo de Oxford (cidade do Supergrass e Radiohead), é como se os Byrds fossem mais barulhentos e levemente melancólicos. Teve dois vocalistas e guitarristas, Mark Gardener e Andy Bell (não confundir com o xará do duo dançante Erasure) e já está extinto desde 1996, após alguns grandes discos.

No entanto, Andy Bell é conhecido por ter sido, depois, integrante do Oasis. Na banda, ele trocou de função, virando baixista e deixando de cantar, mas continua contribuindo como compositor em várias canções. Com a saída de Noel Gallagher, brigado com seu irmão Liam, os demais membros do Oasis, incluindo Andy Bell, passaram a formar a atual banda Beady Eye.

A ignorância da mídia brasileira em relação ao rock alternativo estrangeiro ocorre de tal forma que nem mesmo o Beady Eye ganha algum espaço nas ditas "rádios rock" brasileiras, perdidas em uma falsa atitude "roqueira" que, tomada de clichês, ignora tanto os grandes clássicos do rock como as verdadeiras novidades, se limitando, no caso, a tocar uns poucos sucessos do Oasis como se esta banda continuasse existindo.

Teria sido um boicote ao rock alternativo de verdade? Ou será que o hit-parade da MTV ficou valorizado ao extremo? Em todo caso, a supremacia do grunge - que, por ser jogado diretamente ao mainstream, não podia ser considerado "alternativo" - se deu sobretudo pela ciumeira que a imprensa norte-americana teve com o jornalista inglês Everett True.

Repórter do extinto semanário Melody Maker, Everett foi o primeiro, em 1990, a cobrir a cena roqueira de Seattle, cidade localizada no Estado de Washington (não confundir com a cidade de Washington, que fica no Distrito de Columbia, o Distrito Federal estadunidense) e conhecida por ser a terra natal de Jimi Hendrix.

Por ter feito a reportagem antes de qualquer jornalista ianque, Everett provocou a ciumeira e a imprensa estadunidense resolveu se apropriar da cena de Seattle com tanta obsessão que decidiu promover suas bandas - em muitos casos, de forma prematura - para o estrelato enquanto desenvolvia um estereótipo de "cultura alternativa".

Com isso, aquela divulgação de bandas realmente alternativas e melodiosas, já interrompida pela moda do funk metal, foi simplesmente interrompida e, no Brasil, tivemos a infelicidade de ver as rádios alternativas mergulharem no mais lamentável comercialismo.

Tudo culpa da influência da rádio 89 FM, que deturpou os conceitos de rádio de rock no Brasil para um comercialismo que se tornou mais rasteiro com o tempo, que fez eliminar a criatividade das rádios de rock originais, que substituíram sua equipe de gente conhecedora da causa por incompetentes que só sabem levantar o Ibope com uma linguagem "digestível".

Com rádios "roqueiras" focando um público não-roqueiro, tudo deturpou e aí o conceito de rock alternativo se distorceu completamente. Gente com roupas malucas, letras "confessionais", clipes rodados em super-8 mostrando crianças de velocípede, vocais em falsete junto a guitarras distorcidas, tudo virou muito barulho por nada em prol de um underground de mentirinha.

Isso fez cair muito a qualidade musical até mesmo das bandas alternativas novas. Seja no rock ou em outras tendências. Seja no jazz, em que os neófitos mais jovens não sabem a diferença entre o bebop (jazz sofisticado) e a música instrumental cubana, seja na MPB, cada vez entregue aos bobos-alegres e sua EmoPB que mistura brega com teatro performático, seja no rock, em que a barulheira tornou-se um fim em si mesmo, não raro sacrificando a criatividade.

Isso desqualificou e enfraqueceu as vanguardas musicais, de forma que o hit-parade se tornou mais totalitário. E o surgimento de ídolos pop "mais esquisitos", sejam Jay-Z, Lady Gaga, Miley Cyrus e tantos outros, não adiantou muito as coisas, só piorando mais ainda. Enquanto isso, a atividade de fazer música se desvalorizou, num mercado perdido entre o comercialismo e o sensacionalismo.

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