quinta-feira, 7 de novembro de 2013

UMA NAVALHADA SOBRE A CRISE DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

A MPB de qualidade está em crise.

Ela ainda aparece bem nas rádios, é razoavalmente conhecida pelo grande público, mas há tempos não recuperou a postura nobre que tinha antes no gosto popular.

Alguns mestres ranzinzas, outros moribundos e mortos.

A música de verdade, os artistas de verdade, como seres humanos, causam decepção ou deixam saudade.

A juventude está indiferente, até porque nunca foi estimulada a apreciar a MPB.

A MPB andou discriminada há tempos.

Culpa do mercado.

Afinal, o mercado quis pasteurizar a vigorosa MPB dos anos 60-70.

Obrigou os artistas a gravarem discos comerciais ano após ano, com muitas baladas açucaradas, gravando com orquestras numerosas em estúdios de Los Angeles.

A juventude migrou para o Rock Brasil. Mas, depois o Rock Brasil cansou e as FMs coronelistas aproveitaram a deixa para jogar-lhes a geração brega dos anos 90, que veio "só pra contrariar" a MPB com a qual viviam "entre tapas e beijos".

Quer dizer, os "pagodeiros", "sertanejos" e outros neo-bregas, que nunca deram bola para a MPB, recorreram à ela quando corriam o risco de sofrerem desgaste na popularidade.

Em 1990, os neo-bregas achavam que a MPB era "coisa de bacana".

Em 1998, os neo-bregas já se achavam "donos" da mesma MPB que desprezavam.

A MPB está em crise, porque a música de qualidade, antes acessível a todos, passou a ser acessível apenas para poucos.

Enquanto os nomes de maior sucesso faziam música de baixíssima qualidade, à qual até mesmo a definição de "música" soa bastante duvidosa, os que faziam música de alta qualidade não faziam mais sucesso.

Culpa da ditadura, que interrompeu os debates sobre os rumos da música brasileira.

Culpa dos "coronéis" do rádio e TV, que em vez de promover o progresso cultural, preferiram a bregalização e o sensacionalismo.

Vieram muitos ídolos de proveta, que com tanto tempo de carreira, mal acostumou até mesmo os intelectuais, que pensam ser os bregas uma "forma alternativa de MPB".

Alternativa? Não. A música brega, com seu comercialismo até a medula, não seria de modo algum alternativa.

Se os intelectuais estão cansados da MPB sofisticada que só eles ouviam, problema deles. O problema é que o povo não conhece metade da MPB que os intelectuais querem jogar nos seus lixos de luxo.

Bossa Nova no Norte brasileiro? O povo nortista quase não conhece João Donato, Billy Blanco...

Para a intelectualidade dominante, bacana é universitário paulista ouvir o lixo tecnobrega do Pará.

Para ela, bacana é o pessoal vanguardista aguentar o lixo funqueiro do Rio, de Sampa, de qualquer lugar.

Quer dizer, quem é inteligente tem que apreciar a mediocridade musical.

Mas quem é ignorante não pode apreciar a música de qualidade.

A MPB, afastada do grande público, se isola, se elitiza, entra em crise.

Perdendo o diálogo com o povo, perde logo sua compreensão.

E os bregas, ficando ricos, viram uma elite à parte. Nem tão povo, nem tão "bacana" assim.

E a música de qualidade começa a desaparecer, quando grandes compositores morrem.

A MPB anda meio agonizante e sofrendo, não pela falta de grandes artistas, mas pela falta de espaço para eles dialogarem com o grande público.

Enquanto isso, nossa intelectualidade tenta derrubar o que resta da MPB no conhecimento público por causa do episódio do Procure Saber.

Acham que a MPB quer se isolar do povo, e superestimam até mesmo os erros que os artistas, como seres humanos, fazem.

Mas elevar a breguice ao status de uma "nova MPB" não resolverá.

Afinal, os "artistas" bregas não possuem o mesmo talento. Até para fazer algo próximo do decente precisam de outros arranjadores, outros músicos, outros compositores.

Na prática o brega precisa se anular na produção e elaboração alheia para parecer MPB. E mesmo assim não parece.

Afinal, o que faz a criatividade não são os diplomas, mas também não são as plateias lotadas. Criatividade é coisa de alma, não é coisa de paletós, luzes, grana do MinC, factoides e, sobretudo, choradeiras nos ombros dos intelectuais.

Enquanto o Brasil continuar bregalizado, a MPB continuará em crise. Crise que não se resolve com discos mais vendidos, galpões lotados etc. Isso não traz criatividade, traz apenas dinheiro. E ponto final.

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