segunda-feira, 4 de novembro de 2013

REINALDO AZEVEDO E A TORRE DE BABEL DE JORNALISTAS E INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

A aparente ascensão midiática de Reinaldo Azevedo, que acumula coluna na revista Veja, blogue no portal da mesma revista e, agora, coluna na Folha de São Paulo - talvez montando seu caminho para a entrada na televisão (TV Cultura? Globo News?) - , é um processo muito mais complexo do que o que sugere a simples projeção de um reacionário jornalista.

Reinaldo ingressou na Folha causando a recepção menos esperada à sua figura. Imaginava-se uma confraternização geral, ou pelo menos uma cordialidade discreta, mesmo a uma figura "provocativa" como ele.

Todavia, o que se notou foi que a ombudswoman da Folha, Suzana Singer, expressou seu incômodo com a presença de Reinaldo nas páginas do periódico - e, consequentemente, no sítio do jornal agora disponível plenamente só para assinantes - , disputando o habitual reacionarismo com um Demétrio Magnoli vindo do Estadão.

Suzana, sabendo do apelido pejorativo de "pitbull da Veja", classificou o "calunista" como rottweiler, em alusão a uma outra espécie de cachorro violento. Suzana tornou-se a segunda jornalista a criticar Reinaldo, depois de Mônica Bergamo se desentender com ele.

Mas agora o que se destaca é a reação de Miriam Leitão, conhecida pejorativamente como "urubóloga da Globo", fazer comentários depreciativos contra Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo. Miriam escreveu o comentário nas seguintes palavras:

"Recentemente, Suzana Singer foi muito feliz ao definir como “rottweiller” um recém-contratado pela “Folha de S.Paulo” para escrever uma coluna semanal. A ombudsman usou essa expressão forte porque o jornalista em questão escolheu esse estilo. Ele já rosnou para mim várias vezes, depois se cansou, como fazem os que ladram atrás das caravanas. Certa vez, escreveu uma coluna em que concluía: “Desculpe-se com o senador, Miriam.” O senador ao qual eu devia um pedido de desculpas, na opinião dele, era Demóstenes Torres.

Não costumo ler indigências mentais, porque há sempre muita leitura relevante para escolher, mas outro dia uma amiga me enviou o texto de um desses articulistas que buscam a fama. Ele escreveu contra uma coluna em que eu comemorava o fato de que, um século depois de criado, o Fed terá uma mulher no comando. Além de exibir um constrangedor desconhecimento do pensamento econômico contemporâneo, ele escreveu uma grosseria: “O que importa o que a liderança do Fed tem entre as pernas?” Mostrou que nada tem na cabeça."


Nota-se que a grande mídia começa a sofrer uma onda de desentendimentos. Desde que Ricardo Noblat, em O Globo, destoou do coro da grande mídia na divinização do jurista Joaquim Barbosa, a grande mídia vive uma grande Torre de Babel, numa onda de disputas de visibilidade que hoje envolve intelectuais e jornalistas.

É a época tanto de Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino competindo no seu alpinismo midiático, quanto da divinização de Paulo César Araújo às custas do famoso episódio da proibição do livro não-autorizado sobre Roberto Carlos.

Desenha-se uma geração de intelectuais e jornalistas que, formada desde os anos 90, quer trabalhar a ideologia do livre-mercado em seus matizes relativamente diferentes, que em primeira instância coexistiram pacificamente, mas hoje começam a dar sinais de desentendimento.

Primeiro foi a intelectualidade cultural que, formada ideologicamente por concepções aprendidas na Folha de São Paulo, na Rede Globo e no pensamento de gente como Fernando Henrique Cardoso, que, vendo a vitória eleitoral de Lula, em 2003, passou a fazer proselitismo nas esquerdas, obrigando-as a pensar "neoliberalmente" a cultura popular.

Em contrapartida, esses mesmos intelectuais que defendem a bregalização do país, nem que se sacrifique a qualidade de vida do povo pobre e o deixe na eterna miséria parcialmente "premiada" com Bolsa Família e outras verbas estatais, passaram a falar mal de gente que expressa claramente seu reacionarismo, do "casseta" Marcelo Madureira a Eliane Cantanhede.

Daí o teatrinho pseudo-esquerdista de um Pedro Alexandre Sanches ou, lá pelas regiões alterosas, um Eugênio Arantes Raggi (espécie de Reinaldo Azevedo pós-tropicalista) criticando reacionários da mídia, que, no fundo, poderiam acolher os dois quando eles não puderem mais projetar em sua visibilidade populista-neoliberal.

Mas agora, o "confronto" se dá dentro da mídia direitista. E mostra que mesmo com diferenças ideológicas mínimas, mesmo assim houve a polarização entre a direita "flexível" e a direita "inflexível" no mesmo circuito midiático.

Se bem que, como sabemos, existe uma grande diferença entre veículos como a  Rede Globo e a Folha de São Paulo, que no aspecto da cultura popular, por exemplo, trabalham na domesticação do povo pobre (corroborada, infelizmente, pelas esquerdas médias) e a Veja, que apenas se limita a zelar pelos preconceitos mais rígidos de uma aristocracia com vergonha de ser brasleira.

São dois aspectos que atendem aos interesses aristocráticos. Mas divergem quanto aos métodos. E mostram o quanto existe, por um lado, uma geração que defende os interesses das elites às custas de pobres amestrados e outra que defende os interesses das elites com a eliminação, ainda que gradual, dos pobres.

A propósito, para complicar ainda mais as coisas, a Globo News havia criado um programa chamado Navegador, apresentado pelos queridinhos das esquerdas médias, Alê Yousseff (integrante do Coletivo Fora do Eixo), Ronaldo Lemos (da Fundação Getúlio Vargas) e Hermano Vianna, mais o pouco conhecido José Marcelo Zacchi, advogado.

Ainda vamos falar desse programa, espécie de Manhattan Connection da "cultura transbrasileira". Mas pode-se adiantar que são três dos quatro gurus que supostamente falavam contra o "monopólio das grandes mídias" usarem a grande mídia como as vitrines desses tecnocratas que pensam "provocativamente"a defesa da bregalização do país.

Na verdade, são ascensões e ascensões. Se bem que Miriam Leitão é veterana, veio antes dessa patota toda e Azevedos e Araújos, Constantinos e Lemos, Magnolis e Sanches, uns defendendo a supremacia do "livre-mercado" na Economia, outros a supremacia da "diversidade cultural" (eufemismo para "livre-mercado" na cultura brasileira), o que dá no mesmo.

É como no alpinismo, em que uns integrantes respiram, bufam, gritam entre si. É uma geração disputando a visibilidade plena, desenhando o quadro intelectual e jornalístico que expressa o poder midiático que, agonizante, precisa dessas novas vozes para continuar exercendo sua supremacia na sociedade.

Podem ser caras novas. Mas seguem ideias velhas. Todavia, são figuras emergentes o suficiente para os barões da grande mídia apostarem em novos porta-vozes (mesmo com Pedro Sanches vestindo a camisa adversária, ele está neste contexto), a partir do agressivo Reinaldo Azevedo, como tentativa de, ao menos, reciclar sua imagem, mesmo que seja só na aparência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...