sexta-feira, 15 de novembro de 2013

PAULO CÉSAR ARAÚJO QUER FAZER DA MPB UM TORNEIO DE UFC


Por Alexandre Figueiredo

No último domingo, o Segundo Caderno de O Globo publicou uma reportagem sobre os atritos e divergências que os nomes da música brasileira tiveram em várias ocasiões históricas, aproveitando a deixa da recente desavença de Caetano Veloso com Roberto Carlos, depois da má repercussão do movimento Procure Saber na imprensa.

Mais uma vez o historiador Paulo César Araújo, com o mesmo apetite de Pedro Alexandre Sanches e - queiram estes dois ou não - o "pitbull de Veja" ou o "rottweiller da Folha", Reinaldo Azevedo, para derrubar a MPB autêntica, dá uma ênfase exagerada nas desavenças ocorridas entre os emepebistas.

Ora, desavenças existem em várias situações na vida. Mesmo nossos melhores amigos entram em discussões com a gente em certas ocasiões. Até mesmo os Beatles tiveram desavenças sérias, a última delas provocando o fim da banda, em 1970.

O grande problema é que Paulo César Araújo, com uma certa raiva de ver seus ídolos bregas sendo passados para trás por uma geração de artistas emepebistas, quer fazer das eventuais desavenças ocorridas nos bastidores da MPB em "torneios de UFC".

É notória a obsessão de Araújo e Sanches em derrubar a MPB autêntica. Mesmo quando o último se serve dos "malditos" da MPB para arrancar seu apoio à bregalização da cultura brasileira e depois jogá-los no limbo novamente.

Eles estão a serviço de um processo de implantação do mais escancarado comercialismo musical do país, de um hegemônico e praticamente monopolista neoliberalismo musical brasileiro, respaldado pelo rótulo de "popular" que junta discurso libertário e supostamente esquerdista para defender ideias do mais explícito mercantilismo musical.

E aí a raiva de PC Araújo, corroborada por Sanches e outros da intelligentzia "bacaninha" de nosso país, trabalha para transformar a MPB autêntica numa zona em que ninguém se entende, e que por isso não vale a pena preservar sua reputação e credibilidade conquistadas há mais de 40 anos.

Araújo, que no discurso do seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não - na verdade uma coleção de teorias conspiratórias sobre os ídolos cafonas - , tentou definir os cantores bregas como "artistas de protesto", queria promover aquilo que ele chama pejorativamente de MPBzona como um ambiente de desequilíbrios e conflitos sérios.

No discurso dele, os artistas de MPB falam mal uns dos outros, enquanto alguns nomes emepebistas ficam "hesitantes" em relação às imposições da ditadura militar. Enquanto os bregas eram tidos como "vítimas da perseguição militar" quando na verdade tinham músicas censuradas por motivos banais, a MPB era demonizada como se fosse um eterno Baile da Ilha Fiscal.

Para quem não sabe, o Baile da Ilha Fiscal foi o último dos (raros) bailes aristocráticos que aconteceram durante o Segundo Império, realizado em 1889 no palacete de estilo neo-gótico localizado na ilha, vista da Estação da Praça 15 das barcas e ligado por uma ponte ao entorno do Hospital Central da Marinha na Zona Portuária carioca.

A raiva dos intelectuais culturais de hoje contra a MPB autêntica, que os faz desmoralizar os artistas com o episódio do Procure Saber, menospreza que, se a MPB se aristocratizou, foi por causa da ditadura militar que fez interromper os debates culturais impulsionados pelo movimento cepecista e, depois, pela "geleia geral" do tropicalista Torquato Neto (1944-1972).

Agora esses intelectuais lançam mão da bajulação tendenciosa a nomes menos massificados da MPB - de Inezita Barroso a Zezé Motta, passando por Quinteto Violado, Azymuth, Marcos Valle, Sérgio Ricardo, Edy Star e até mesmo os falecidos Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção - , empurrados a apoiar a bregalização do país, mesmo que ela ponha as tradições culturais a perder.

Em contrapartida, a intelectualidade pró-brega agora adotou dois queridinhos da breguice de plástico da Rede Globo, Luan Santana e Thiaguinho, para a campanha de derrubada da MPB autêntica e a instalação da "diversidade cultural" que não é mais do que o "livre mercado" e a "liberdade de expressão" da cultura brasileira, mais mercadológica que cultural.

A intelectualidade "bacaninha" quer que a MPB autêntica pareça um torneio de UFC, mas no fundo o que esses intelectuais querem é fazer eles mesmos a sua própria luta livre contra a música brasileira de qualidade.

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