quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ODAIR JOSÉ NADA SERIA SE NÃO FOSSE ROBERTO CARLOS


Por Alexandre Figueiredo

A pressa da intelectualidade cultural dominante em querer derrubar a MPB, se aproveitando dos erros dos integrantes do Procure Saber, é tanta que eles já escolheram seu novo "príncipe", o cantor Odair José.

É ele o escolhido para simbolizar o bonapartismo musical brasileiro, da breguice escancarada respaldada (provisoriamente) por "malditos" de uma MPB obediente ao mercado que são empurrados para apoiar os cafonas, para depois essa mesma ala da MPB ser jogada ao limbo.

Pois enquanto a intelectualidade tenta vender a imagem de Odair José como um "subversivo", como uma vítima da repressão ditatorial - quando na verdade ele só teve algumas canções censuradas devido a algum mal-entendido de um sensor - , o próprio cantor evita explorar essa imagem, sendo um pacato evangélico na vida pessoal que só canta letras românticas.

Mas aí a intelectualidade não quer saber. Pouco importa se o próprio Odair José recusa a aceitar a imagem rebelde que ele nunca teve nem menos tem hoje em dia, a intelligentzia "BraZileira" quer porque quer trabalhar com mitos, e não com a realidade.

Dessa forma, podemos "confrontar" os mitos que a intelectualidade pró-brega faz de Roberto Carlos (agora o arqui-inimigo dessa intelectualidade) e de Odair José, em planos ideológicos supostamente opostos.

Roberto, o "Rei" que comandava e abandonou o barco do Procure Saber, que agora navega sob mares caetânicos e buarquianos, é agora o reacionário ranzinza que protege demais a sua imagem pessoal.

Já Odair é o "rebelde", o "poeta popular", o suposto cantor de protesto que "apavorou" os militares, que agora são atribuídos pela intelectualidade pró-brega de hoje como "apoiadores" de Chico Buarque, distorcendo a mera informação de que apenas a filha de Ernesto Geisel se declarou fã do filho mais famoso do historiador Sérgio Buarque.

No entanto, não é bem assim. E, além disso, Odair José anda sendo superestimado, embora o mercado esteja "indiferente" a ele, o "injustiçado" da música brasileira. Odair José é um retardatário do movimento Jovem Guarda, chegou ao fim da festa de arromba, com o portão aberto pelo mesmo "Rei" que os apoiadores de Odair de hoje hostilizam.

Sim, porque se não fosse Roberto Carlos, o brega não teria crescido. Muito do que Paulo Sérgio, Odair José, Evaldo Braga, José Augusto, Amado Batista e outros fizeram devem muito ao Roberto Carlos, sob a influência mais do que evidente do cantor capixaba. Difícil negar quando as evidências demonstram fatos que saltam aos olhos.

Odair José agora é promovido como se fosse "Roberto Carlos do B", como se fosse um oposicionista ao "império do Rei", mas surgiu como um discípulo das aventuras românticas do cantor capixaba, até num contexto bem mais conservador.

Afinal, enquanto Roberto Carlos partia para uma fase soul arrasa-quarteirões, da qual vieram sucessos vigorosos ou emotivos como "Nas Curvas da Estrada de Santos", "Jesus Cristo", "Detalhes", "Todos Estão Surdos", "Querem Acabar Comigo", "Além do Horizonte" e "O Portão", Odair fazia uma versão mais comportada da fase jovem-guardista do "Rei".

Odair, como o nosso Pat Boone, não seria um cantor "subversivo". Pelo contrário, ele apenas ressignificou o espírito pat-booneano ao contexto brasileiro, e se Pat Boone emulava o country and western em verniz roqueiro na linha 1957-1958, Odair fazia isso num contexto em que até o ótimo country rock dos Byrds parecia banalizado demais através de imitadores inócuos.

Pedro Alexandre Sanches, que insiste chorosamente que o brega é um "movimento social-cultural libertário", ignora que nada disso era feito em relação a Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin e outros - que atravessaram a Contracultura sem querer roubar uma só fatia de seu bolo psicodélico - lá nos EUA, em que ninguém vê a "cultura de massa" como algo libertário.

Sanches adorou ver que um dos discos de Odair José tem a participação de membros do Azymuth, ótimo grupo instrumental brasileiro. Sanches procura cooptar, para sua pregação ideológica, alguns nomes de uma MPB de reconhecível valor artístico, mas relativamente obediente ao mercado, para forjar apoio à sua campanha pela bregalização do país.

E o "filho da Folha", bom aluno de Otávio Frias Filho no Projeto Folha, quer porque quer definir a rejeição ao brega brasileiro como "preconceito". Essa palavra, mais gasta que sapato velho de sola furada, é apenas a desculpa para se levar a "cultura de massa" a sério demais e fazer valer toda a choradeira intelectual a respeito disso.

Essa choradeira chegou a empurrar muita gente comercial, de claro sucesso radiofônico - é bom deixar claro que as rádios que mais tocavam brega eram controladas por empresários e políticos (sim, políticos!) que apoiavam a ditadura militar - , para o público alternativo brasileiro de hoje, um tanto míope e surdo o bastante para ser levado pela maré biruta da cafonice mais chorosa.

Não. Chega de ilusões. O brega nunca foi nem será alternativo. Se foi sucesso popular, paciência, isso mostra que o brega nunca passou de uma música comercial que apenas tirou umas férias da grande mídia mas não voltou com alguma novidade de impacto. Daí a pose de injustiçados. Daí a obsessão em ser reconhecido como a vanguarda que nunca foi nem será.

A meu ver, a obsessão de promover o brega como "cultura alternativa" ou "vanguarda artística" é que é muito mais preconceituosa. Coisa típica de um país esquizofrênico como o Brasil, que vende o "velho" como se fosse "novo", desde os tempos em que os "farofa-feiros" do período imperial misturavam ideais iluministas inofensivos com a defesa de valores escravagistas da época.

Lá fora, pelo menos, Pat Boone é apenas lembrado como um cantor de pop comportado que imitava o som roqueiro dos anos 50. Pat Boone nunca quis ser John Lennon, e também nunca quis ser ícone da Contracultura. Lá os ídolos comerciais não são considerados "subversivos". No exterior a "cultura de massa" não posa de libertária. Ela é pop comercial e ponto final.

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