quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O SAUDOSISMO INFANTIL DA RÁDIO CIDADE "ROQUEIRA"

A RÁDIO CIDADE, NOS SEUS PRIMÓRDIOS (FOTO), ERA DESPRETENSIOSA NO PERFIL POP. JÁ SUA FASE "ROQUEIRA"...

Por Alexandre Figueiredo

A rádio que transformou a linguagem de FM nos 102,9 mhz do Rio de Janeiro pode simplesmente não voltar, se depender de uma campanha de uma minoria barulhenta de rebeldes sem causa faz atualmente nas redes sociais.

Sim, estamos falando da Rádio Cidade do Rio de Janeiro, não a rádio junkie e um tanto reacionária dos anos 90 e começo do século XXI, mas a rádio pop que, entre o Primeiro de Maio de 1977 e algum momento de 1984, permaneceu firme na cobertura do pop eclético, com uma personalidade própria e um profissionalismo hoje raros.

Vítima da memória curta das pessoas, a Rádio Cidade de 1977-1984 - que, atualizada, tocaria nomes como Beyoncè Knowles, Bruno Mars, Pollo e Ke$ha - sucumbiu a surtos de pretensiosismo que deram na lamentável fase "roqueira" de 1995-2006, alvo da citada campanha que aparentemente "sensibiliza" os executivos do Sistema Rádio Cidade (antigo Sistema Jornal do Brasil).

Se compararmos a fase "roqueira" da Rádio Cidade com a fase original da emissora, dedicada ao pop eclético - o rock aparecia apenas em sucessos cuja massificação ultrapassa seu público específico, como Queen e Police e os nomes mais famosos do Rock Brasil - , vemos que não é o rótulo "rock" que sempre garante o prestígio e uma alta reputação.

Pelo contrário, a Rádio Cidade de 1995-2006 simplesmente rasgou o papel que o locutor Eládio Sandoval, um dos pioneiros da emissora, deixou cair no chão. De uma rádio pop despretensiosa e inteligente, veio uma "rádio rock" caricata, estereotipada e burra.

CARICATURA DE RÁDIO DE ROCK

Nos anos 90, houve um movimento de uma elite de DJs que queria, no pior sentido, virar de cabeça para baixo o rádio FM carioca. Uns foram derrubar a Rádio Fluminense FM, que havia se transformado na Jovem Pan 2 e depois Jovem Rio FM, de pop dançante. Outros foram derrubar o que restava da Rádio Cidade pop original e transformá-la em caricatura de rádio de rock.

Em ambos os casos, tanto a simpatia da Rádio Cidade quanto a ousadia roqueira da Fluminense FM foram por água abaixo. Na Jovem Pan 2 dos 94,9 mhz, seus DJs empurravam uma "cultura dançante" completamente estúpida, mais para chamar público para casas noturnas e garantir o estrelismo de alguns DJs de segunda categoria locais.

Já na Rádio Cidade, a inteligência e a abrangência da Fluminense deram lugar a um hit-parade roqueiro bruto, enquanto clichês da cultura rock mais grotescos trabalhavam o perfil do rebelde sem causa do Rio de Janeiro.

Se o jovem que ouvia a Fluminense FM era mais intelectualizado, o ouvinte da Rádio Cidade "roqueira" odiava ler livros. Se o primeiro era progressista, o segundo desejava o fim do Poder Legislativo sob a desculpa de combater a corrupção. Se os locutores da Fluminense falavam feito gente, os da Cidade FM "roqueira" tinham as mesmas vozes afetadas de locutores neuroticamente pop.

Enquanto isso, a cobertura da Rádio Cidade ao rock era tão desastrosa que, entre o falecimento dos Mamonas Assassinas e o de Renato Russo, a cobertura dada ao quinteto humorístico paulista foi mais destacada. Ironicamente, até a Jovem Pan Rio que derrubou a Flu FM foi mais respeitosa com a pessoa do vocalista da Legião Urbana.

A Rádio Cidade tocava sempre um limitadíssimo repertório de sucessos "roqueiros", dentro do ponto de vista das grandes gravadoras. Só reciclava o repertório de quatro em quatro meses. A rádio era insuportável, a não ser para os "roqueirinhos" bem-nascidos que sempre deram o apoio à emissora, do alto de seus condomínios da Zona Sul, da Barra da Tijuca e do Recreio.

É essa a geração que sempre reivindicou a volta da Rádio Cidade, na primeira recuada em 1998 e, depois, em 2000, chegando ao ponto de haver trotes telefônicos e e-mails de fakes para pedir que a Rádio Cidade volte a explorar o rock. Na segunda tentativa, a rádio veio como afiliada da emissora paulista 89 FM.

A Rádio Cidade recuou do perfil roqueiro depois de violentas discussões entre os adeptos desta rádio e da paulista 89 e os roqueiros autênticos. Além disso, tanto as duas rádios como seus adeptos deixaram vazar posturas ultradireitistas, o que fizeram as duas emissoras abandonarem o rock em 2006 e se tornarem pop.

A Cidade virou OI FM, ligada à famosa empresa de telefonia móvel. Em que pese o questionamento dos serviços ou mesmo das manobras de poder dos donos das teles, reconhece-se que a incompreendida OI FM trabalhava o pop eclético sob o ponto de vista de uma rádio universitária, sendo quase uma rádio alternativa de pop.

A OI chegava mesmo a ser mais abrangente que a Rádio Cidade "roqueira", e, curiosamente, tocava mais bandas de rock alternativo. Se a Cidade na fase 1995-2006 se limitava a tocar bandas de nu metal e poppy punk como se fosse o "novo rock alternativo", a OI lançava nomes verdadeiramente alternativos como Phoenix, Black Keys, Jack Penate e Empire Of The Sun.

Atualmente a campanha "Volta Rádio Cidade" acontece no Facebook, com alguns internautas aparecendo em fotos com um papel de caderno na mão com a frase "Volta Rádio Cidade 102,9 mhz RJ". A princípio ninguém acrescentou a isso a expressão "rádio rock", embora alguns citem tal intenção nos comentários de tais fotos.

No entanto, o saudosismo infantil dessa reivindicação torna-se preocupante, porque o ideal seria que voltasse a Rádio Cidade de 1977, com seu pop eclético, em formato atualizado, como se fosse uma versão melhorada da Mix FM e outras rádios pop.

Nem toda rádio tem vocação para o rock. A Rádio Cidade nunca teve. Se for pelo raciocínio de que todo mundo só é melhor quando vira roqueiro, até o Justin Bieber viraria um gênio fazendo solos de guitarra e tocando heavy metal, ou então Xuxa Meneghel seria o máximo se passasse a gravar discos de punk rock.

Maus roqueiros não podem ser melhores apenas porque são roqueiros. E a Rádio Cidade, como "rádio rock", só falava mesmo a uma juventude que só curte posers e emos, e que no fundo nem estão aí para a verdadeira cultura rock. "Rock", para eles, é apenas uma palavra morta para sua rebeldia vazia e completamente neocon.

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