sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O MERCADO DAS CELEBRIDADES E SUA CRUELDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos tempos, a mídia das celebridades mostra seu caráter cruel, na sua vontade de demolir reputações, mesmo dentro do contexto "inocente" de entretenimento, no qual a mediocridade acaba valendo mais do que o talento.

Dois exemplos são bastante ilustrativos. Um é o da falecida atriz norte-americana Brittany Murphy, que voltou a ser notícia ao ser constatado, em um exame de laboratório, que o corpo da atriz teria sido vitimado por ingestão de elementos encontrados em um veneno para ratos, dando a crer que ela teria sido assassinada.

Outro se refere ao da atriz brasileira Deborah Secco, envolvida em uma denúncia de corrupção na qual ela não teve participação direta, mas foi responsabilizada como se tivesse, sem que qualquer verificação fosse feita.

Brittany e Deborah são pessoas diferentes, atrizes esforçadas que foram lançadas ao sucesso por duas conhecidas comédias femininas para adolescentes, As Patricinhas de Beverly Hills e Confissões de Adolescente. Brittany ainda fez, antes, um seriado infanto-juvenil da Disney, intitulado The Torkelsons (depois rebatizado como Almost Home).

Atrizes esforçadas - Brittany, pouco antes de morrer, havia gravado vários filmes - , no entanto elas não eram muito queridas por uma parcela da imprensa especializada em famosos, que sempre que podiam exploravam cada uma de forma bastante depreciativa.

Brittany era tida como "drogada", "anoréxica", "temperamental", "relapsa", "intransigente". Já Deborah - que segue sua vida com uma agenda movimentada - é "metida", "falsa", "narcisista" e, agora, "corrupta", ainda que a denúncia sobre desvios de dinheiro de uma ONG sejam de responsabilidade direta de seu pai.

A imprensa de celebridades às vezes implica com certas personalidades. Antes de falecer, Brittany já era "morta" pela mídia, o que a fez se dedicar a trabalhos menores e a ser cortada do segundo filme de animação de Happy Feet.

Independente dela ter se matado ou ter sido morta por alguém, Brittany vivia deprimida pelos tristes rumos da vida dela, que iam desde o boicote de parte da indústria cinematográfica até rumores de que seu marido, o roteirista e produtor inglês Simon Monjack - que faleceu em 2010 em circunstâncias parecidas com a da esposa - , estaria traindo a atriz.

Deborah, no entanto, tinha maior destaque como atriz. Ganhava papéis de destaque nas novelas, fazia papéis até polêmicos em filmes, e permanecia em evidência na mídia, sendo convidada para eventos e até sessões de moda.

No entanto, a campanha midiática tenta abater Deborah tanto quanto a congênere estadunidense fez com Brittany. Com um senso jornalístico típico da Escola Base - caso de denuncismo da imprensa que, em 1994, desmoralizou supostos acusados que, na verdade, eram inocentes - , Deborah é acusada de uma corrupção que partiu da decisão direta de seu pai.

Neste sentido, a "corrupta" Deborah Secco e a "drogada" Brittany Murphy aparecem no contexto de uma mídia que costuma ser cruel com uma parcela de famosos os quais uma elite de jornalistas não nutre a menor simpatia, e que não admite sequer seu talento e seu esforço para alcançarem algum mérito na fama.

Isso é algo até mais cruel do que a imprensa reacionária se aproveitar da condenação de José Dirceu e José Genoíno para exagerar demais nos erros que eles cometeram. E olha que Dirceu e Genoíno erraram feio, ao se relacionarem com Marcos Valério no seu esquema de corrupção política e financeira.

Numa comparação mais próxima, porém, a campanha midiática se aproxima da campanha de intelectuais considerados "bacanas" em destruir a reputação de Chico Buarque de Hollanda, artista brasileiro de talento ímpar, demonizando até mesmo o menor espirro que o cantor der em público.

Em contrapartida, se existem campanhas difamatórias e depreciativas contra pessoas talentosas que possuem algum diferencial mas não ganharam a simpatia da mídia, os mesmos jornalistas mudam o tom em relação a celebridades sem muito talento que precisam alcançar o estrelato sem o menor esforço.

Isso vale tanto para uma imprensa que demoniza Brittany e Deborah quanto para a intelectualidade - e parte da imprensa, com Reinaldo Azevedo de mãos dadas com Pedro Alexandre Sanches para todo mundo ver - que quer derrubar Chico Buarque explorando de forma exagerada os erros do cantor.

Isso porque, quando o assunto se refere às sub-celebridades, a imprensa torna-se boazinha. Astros de reality show que nada tem a dizer são elogiados a tal ponto que mesmo suas piores gafes são reportadas como se fossem algo "divertido", e mesmo os piores escândalos são explorados como um "circo" de controvérsias que, de tão espetacularizado, ficou banal.

Que talento tem, por exemplo, uma JWoWW? O que as Real Housewives têm a nos dizer? Enquanto Brittany e sua encantadora voz fazem muita falta na música - sim, ela era uma cantora brilhante - , temos que aguentar uma Courtney Stodden, a mocinha que se separou de seu marido cinquentão, fazendo pop dançante rasteiro com voz "miúda" processada pela tecnologia.

Courtney Stodden é aquele tipo de garota sem qualquer importância, que só vale pelo exibicionismo corporal às custas de peitos e glúteos siliconados, temperando uma personalidade superficial e narcisista.

Isso não é muito diferente das "boazudas" que a mesma imprensa que condena Deborah Secco faz. A impressão que se tem é que a imprensa de celebridades - em boa parte, de perfil popularesco - quer derrubar Deborah para, de preferência, colocar alguma "Miss Bumbum" ou paniquete no lugar, não necessariamente para bons papéis na TV, mas na reputação da fama.

Fala-se muito mal das "mentiras" ditas por Deborah, mas não se fala por exemplo do que as "boazudas" fazem escondendo a vida amorosa, quando umas na verdade são garotas de programa e outras senhoras muito bem casadas.

Entre essas senhoras casadas, há muita funqueira metida a ativista que espalha pelos quatro cantos que "está solteiríssima" dizendo bobagens do tipo "só transo com meu vibrador", "só levei cantada de meu afilhado" ou coisa parecida, enquanto na vida particular vivem um sólido casamento com maridões que vivem escondidos em algum canto do Centro-Oeste ou Nordeste.

Não obstante, tais funqueiras "solteiríssimas" inventam que contraíram dengue e se recuperam de uma hora para outra e retomam a carreira da noite para o dia. Não se recupera de dengue de uma hora para outra, o que dá um forte indício de que elas inventam a doença para ter uma folga e visitar seus maridos que vivem em boas residências em lugares tipo Palmas ou Maceió.

No âmbito musical, nem precisamos aqui detalhar a cobertura que a intelectualidade faz querendo destruir a MPB autêntica para instaurar a bregalização do país. Lavaram a roupa suja em esgoto a céu aberto no caso do Procure Saber e, para destruir Chico Buarque, apelam até para o inexpressivo Thiaguinho abraçado aos filhos do Roberto Marinho.

A mediocridade sócio-cultural, e podemos dizer a imbecilização cultural mais escancarada, é muito bem vinda para os olhos de certos jornalistas que cobrem o mercado da fama. Isso porque, para eles, a fama virou o fim em si mesmo e mais vale investir em sub-celebridades que cometem gafes mas "divertem" o público do que em gente com talento que vive problemas pessoais.

Em certos casos, há até limites, mas eles são determinados pelas circunstâncias. O sítio TMZ, por exemplo, adora sub-celebridades norte-americanas, mas reprovou a brasileira Andressa Urach com comentários do tipo "muito gorda" e "nada atraente".

Mas aí é porque Andressa é considerada muito exagerada e fútil até para os padrões médios da mídia de lá, apesar de haver uma Coco Austin (esposa do rapper Ice-T), com seus glúteos e peitos bastante inflados.

Por isso a imprensa de celebridades é muito, muito cruel. Tanto lá fora, os EUA pelo menos, como no Brasil. Lá fora, a mídia sensacionalista acabou por "destruir" Brittany Murphy. Aqui tentam desmoralizar Deborah Secco junto a gente "tarimbada" e "bacana" que se acha na moral de destruir Chico Buarque e afundar a cultura brasileira na breguice mais constrangedora.

A grande mídia não é só problemática no noticiário político. No âmbito do entretenimento ela chega a ser até pior.

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