sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O BRASIL DOS ROQUEIROS CARNEIRINHOS

PARA MONTAR RÁDIOS "DE ROCK", NÃO PRECISA ENTENDER DO RAMO, BASTA O DONO SER AMIGO DE ROBERTO MEDINA.

Por Alexandre Figueiredo

Vivemos um país de roqueirinhos carneirinhos, ovelhinhas brancas com o pelo tingido de preto que aceitam qualquer tipo de imposição da mídia e do mercado, e restringem a aparente rebeldia apenas a alguns detalhes gestuais, visuais e verbais.

Diante da campanha que uma minoria bem barulhenta e perseverante faz pela volta da Rádio Cidade "roqueira" - a rádio reacionária que havia sido reduto de rebeldes sem causa entre 1995 e 2006 - , a submissão e a falta de discernimento são gritantes, para um gênero que havia sido famoso pela rebelião e pela recusa à obediência servil.

A exemplo dos similares que, no ano passado, pediram a "volta" da 89 FM - que, um ano depois, não conseguiu renovar o fôlego da cultura rock paulista - , que acham que até mesmo os Sobrinhos do Ataíde fazendo imitação de velhinhas é "puro rock'n'roll", a "nação roqueira" pró-Rádio Cidade aceita qualquer coisa que é imposta sob o rótulo "rock'n'roll".

Aceitam gírias clubber faladas por locutores "sarados" com a mesma voz afetada dos locutores da Jovem Pan 2. Sem ironias: há centenas de locutores falando igualzinho ao Tatola da 89 FM nas rádios de pop dançante. E, se Tatola passou a falar de um jeito mais "debochado", achando que isso será "mais rock", perdeu: sua voz está parecida com a do locutor Rui Bala da Transamérica.

Os "roqueirinhos" carneirinhos - embora às vezes dotados de um pavio bem curto - aceitam tudo, até pensar que futebol é "esporte rock'n'roll", mesmo quando 99% de jogadores e torcedores de futebol no Brasil não tenha o menor interesse em apreciar esse gênero musical.

Esses "roqueiros" não sabem o que está por trás dos bastidores. São dotados de todo tipo de desinformação, sua "rebeldia" é bastante sofrível, que nos piores momentos se tornam até mais reacionários que Reinaldo Azevedo da Veja. E ignoram as relações midiáticas e mercadológicas que estão por trás do suposto radialismo rock que tanto defendem.

A primeira questão é saber por que, com tantas outras rádios melhor habilitadas para cobrir o segmento rock, só se pensam na 89 FM de São Paulo, na Rádio Cidade do Rio de Janeiro ou similares para representarem o radialismo rock, com todo o seu duvidoso perfil "Jovem Pan com guitarras" que nem o mais básico da cultura rock consegue cobrir?

O que está por trás disso é que a mídia é um grande balcão de negócios que está por trás. Os ouvintes são só "um detalhe" no mercado radiofônico. A ditadura midiática já nos ensina que o público é apenas um "gado" que faz movimentar os investimentos que envolvem veículos de comunicação, anunciantes, empresários de todo tipo, banqueiros e outros entes privados.

No radialismo rock, num sistema de rádio tomado de comercialismo cego, o que interessa, segundo o ponto de vista dos executivos, não é uma rádio dotar de histórico ou de equipe capacidados em cobrir a cultura rock. Melhor dizendo: para montar uma "rádio rock", não é preciso entender de rock, mas atender aos mecanismos do poder empresarial.

Um deles é ser amigo de Roberto Medina. Isso os donos da Rádio Cidade e 89 FM são. As duas rádios têm desempenho na cultura rock que, na melhor das hipóteses, é superficial, e, na pior delas, irritante, mas seus donos mantém relações amistosas e comerciais com o empresário do Rock In Rio que comanda todo um lobby de empresas promotoras de eventos e concertos internacionais.

E no caso dos programas que, de forma surreal, juntam forçadamente futebol e rock'n'roll, com resenhas esportivas de humor digno de um cruzamento entre Danilo Gentili e Galvão Bueno, o que acontece por trás é que os donos da "rádio rock" fizeram um acordo com os "cartolas" (dirigentes esportivos) da CBF para atrair um público supostamente "mais rebelde".

Isso é tão certo que quem for pesquisar os bastidores do empresariado radiofônico verá que o partiarca dos empresários que controlam a 89 FM, o ex-deputado arenista José Camargo, sempre foi amigo de Ricardo Teixeira e, como político ligado a Paulo Maluf, Camargo era parceiro de José Maria Marín, outro malufista, que hoje preside a CBF.

Portanto, nada é feito senão conforme interesses empresariais. Só que até nisso a ingenuidade dos "roqueirinhos" é extrema. Acham que isso é "bom" porque viabilizará comercialmente as "rádios rock". Se uma emissora FM lhes disser que Pimenta Neves é um galã feminista,  esses "roqueirinhos" aceitarão isso numa boa.

Com roqueiros tão carneirinhos assim, até os empresários de brega-popularesco caem na risada. O "funk-ostentação" pode ser o supra-sumo da imbecilização cultural ou a degradação sócio-cultural levada às últimas consequências, mas temos que admitir que em São Paulo o ritmo está levando a melhor em cima do roquinho caricato, superficial e subserviente puxado pela 89 FM.

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