domingo, 3 de novembro de 2013

O "BOM" ETNOCENTRISMO DE NILO BATISTA


Por Alexandre Figueiredo

A choradeira intelectual em favor do "funk" pode estar cansando, mas ainda conta com apoio de gente influente, principalmente nos meios jurídicos, que neste caso tentam socorrer os meios acadêmicos e jornalístico-cineastas que não conseguem mais convencer sobre a suposta importância do ritmo mais polêmico dentre os derivados da música brega.

Agora é a vez do advogado Nilo Batista que, evocando uma visão de 1910, tenta salvar a reputação do desgastado "funk carioca", tomando as dores do ritmo que é rejeitado até mesmo pelas próprias periferias, sobretudo de famílias que temem pela vida de seus filhos quando eles vão para um "baile funk".

Hoje mesmo dois "bailes funk" ocorridos na Grande Belo Horizonte tiveram ocorrências violentas, com grupos de pistoleiros - provavelmente desafetos de frequentadores dos locais - disparando tiros que, no caso da cidade de Santa Luzia, causaram a morte de uma jovem de 24 anos e, no caso do bairro de Floresta, na capital mineira, deixou quatro feridos sem gravidade.

Nilo está lançando o livro Tamborzão: Olhares Sobre a Criminalização do Funk, publicado pela editora Revan, e que se baseia nessa tese chorosa e totalmente discutível de comparar a rejeição do "funk" à que o samba e outros batuques afro-brasileiros haviam sofrido há cem anos atrás.

Nilo Batista foi ligado ao PDT, foi governador em exercício do Rio de Janeiro quando Leonel Brizola (1922-2004) se desligou do cargo para concorrer à Presidência da República em 1994. Recentemente, Nilo Batista foi advogado de defesa de Valdemar Costa Neto, deputado federal que foi um dos envolvidos do esquema do Mensalão de Marcos Valério.

Já explicamos muito a incoerência da visão que Nilo corrobora do "funk", porque a sociedade brasileira de 1910 foi uma, a de hoje é completamente diferente. Essa visão tenta transformar o "funk" em causa nobre, através da sampleagem histórica que não condiz à realidade, até porque não dá para comparar o "funk" com o samba, o maxixe, o lundu e outros ritmos afro-brasileiros.

Além disso, Nilo Batista erra quando pretendeu apresentar um "Brasil de baixo" que o "Brasil de cima" não conhece. Afinal, o próprio "funk" é o retrato fiel da "visão de cima" da intelectualidade que só vê o povo pobre de forma caricatural, estereotipada, idiotizada sobretudo pelas baixarias que são promovidas pelo ritmo.

O "funk" é fechado no seu ritmo. Só mesmo o "bom" etnocentrismo de seus defensores - e, agora, de Nilo Batista - é que acha que o "funk" é "culturalmente rico" e "aberto à evolução constante dos valores sociais, culturais e morais da sociedade".

Não é isso que se ouve nos CDs do ritmo. O que se vê é um som fechado, uma linguagem rígida, que proibe que vocalistas toquem violão, gaita, façam melodias. Impede-se que se trabalhem valores morais relevantes e as mulheres que se envolvem no "funk" ou precisam se autopromover pelos glúteos siliconados, ou por falar mal de homens, ou pelas duas coisas juntas.

O "funk" é esteticamente rígido, moralmente inflexível. A diferença é que isso se nivela por baixo, pelo que há de pior, e a intelectualidade dominante não percebe isso. Pensa que, por serem valores baixos, eles são inerentes às classes populares e por isso não devem ser mexidos por qualquer questionamento.

A criminalização é apenas um pretexto que o "funk" usa para fazer sua defesa chorosa, desesperada. As batidas policiais nunca enobrecem um ritmo musical ou outro, um entretenimento ou outro. Ninguém vira gênio porque é vaiado, leva malho da crítica, ou porque leva dura da polícia.

De fato a repressão policial é abominável, mas no caso do "funk" a superestimação desse problema tem um certo teor oportunista, até porque o "funk" anda sofrendo um desgaste de popularidade profundo, precisa sempre se alimentar de toda a choradeira para não cair no ostracismo.

O "funk" é controlado por ricos empresários, investe na precarização do trabalho, possui organizações de cunho político-institucional e tenta montar bases parlamentares, sejam nas assembleias legislativas estaduais ou no Congresso Nacional, para defender causas que só interessam aos empresários funqueiros e seus simpatizantes e aliados.

Por trás dessa choradeira, porém, há a resistência do "funk" à transformação da sociedade. Esse dado, de veracidade contundente, a intelectualidade "bacaninha" não diz. O "funk" resiste às transformações da música, porque não quer sair daquela relação um tanto hierárquica entre DJ e MC, entre a mesmice de um toca-discos e um vocal falado ruim.

Da mesma maneira, o "funk" também resiste às transformações sócio-culturais do país. Até agora ele esteve indiferente às demandas da "nova classe média", enquanto a burguesia adotava para si o "funk melody" de Anitta e Naldo Benny.

Mas o "pancadão", o "tamborzão" ou o "batidão", este não quer saber de novos tempos. Se o "funk" se desgasta, seus defensores recorrem ao Brasil de 1910 para explicar sua rejeição. Tentam usar o passado como fator de rejeição ao ritmo, quando é o futuro que rejeita o "funk", que revela novas demandas culturais para a sociedade popular brasileira.

Por isso os defensores do "funk" estão desesperados, apavorados. O "debate" do Centro Cultural de Juventude Ruth Cardoso, em São Paulo, foi exemplo disso, um festival de lamentações sobre a perda inevitável do sentido do "funk" diante das transformações vividas em nosso país, expressando a resistência do "funk" a qualquer mudança de valores sociais, morais, artísticos e culturais.

Daí que a intelectualidade tem que recorrer, agora, ao advogado de defesa de um mensaleiro para fazer mais uma defesa chorosa em favor do "funk" e seu mercado que, na verdade, é conservador, rígido, fascista e, acima de tudo, demagógico.

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