domingo, 17 de novembro de 2013

MÚSICA BRASILEIRA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

INFELIZMENTE, A CHAMADA "CANÇÃO POPULAR" SEGUE A MESMA LÓGICA DAS LINHAS DE MONTAGEM DE AUTOMÓVEIS.

Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, a música brasileira está em crise. Há a supremacia de tendências popularescas, que predominam nos sucessos radiofônicos, enquanto parte da MPB autêntica considerada "de elite" é combatida pela campanha agressiva de intelectuais dominantes.

Não temos uma alternativa. A MPB de qualidade vive o dilema entre os artistas mais conhecidos porém associados a uma ala "elitista", enquanto outros não conseguem sequer serem reconhecidos pelo público mais mediano. Por outro lado, há a breguice organizada de ídolos comerciais que tentam monopolizar os paradigmas de "canção popular" existentes hoje.

A intelectualidade cultural dominante tenta classificar como "opção viável" os ídolos bregas veteranos ou relativamente veteranos, supostamente "injustiçados" em que pese todo o sucesso radiofônico, fonográfico e de apresentações ao vivo acumulado.

Reclamam que são "grandes artistas" que foram "incompreendidos" ou "mal-orientados" pelo mercado e pela indústria da música. Alguns desses ídolos até aparecem para reclamar que foram explorados por empresários ou produtores, ou que seus primeiros discos - aqueles responsáveis pelo seu sucesso estrondoso - não saíram conforme o esperado.

Paciência. O grande problema é que, no começo de suas carreiras, os ídolos bregas aceitaram de bom grado que seus discos saíssem com esse resultado. Eles também se contentaram em escrever letras de temáticas exageradas, carregadas de um sentimentalismo viscoso, de uma pieguice chorosa, ou de outros sentimentos patéticos de alegria ou tristeza.

Esses ídolos ficam muito tempo fazendo todo papel constrangedor em programas de TV e rádio, ou em outros veículos midiáticos, caprichando no sorriso arreganhado, se comportando de forma ingênua e submissa nas entrevistas, fazendo todo o jogo do mercado.

No entanto, os anos passam e esses ídolos, que no começo de suas carreiras desprezavam a MPB autêntica, tentam agora emulá-la e persegui-la, e, quando não conseguem, fazem seus lamentos em entrevistas mais recentes.

Daí as queixas citadas. Daí a pose de supostos gênios incompreendidos. Daí a tentativa tardia e um tanto tendenciosa de dar guinadas na carreira e fazer, muitas vezes com duas décadas de atraso, o que deveriam ter feito no começo da carreira.

Eles querem reconhecimento, e até conseguem o apoio de intelectuais ou mesmo de artistas de MPB e Rock Brasil mais condescendentes. No entanto, isso se torna tarde demais para que eles obtenham algum justo reconhecimento, porque um artista pode não nascer sábio, mas ele deveria começar sua carreira com um mínimo de decência e firmeza artística possível.

Os ídolos do brega e derivados não sabem o que é responsabilidade social. Acham que é muito fácil gravar discos ruins e fazer papel de ridículos no começo da carreira e, duas décadas depois, dizer que eram "gênios incompreendidos" ou alegar que foram "explorados" por produtores e empresários ou que seus primeiros LPs eram "mal gravados".

Responsabilidade social significa ter um pouco de auto-respeito artístico, é dar um valor minimamente significativo ao seu talento. Infelizmente, muitos ídolos do brega-popularesco acham que no começo é tudo brincadeira, e perdem muito tempo trabalhando a mediocridade artística investindo o máximo no mau gosto.

Só mesmo depois, muito depois, quando são duramente criticados, é que eles tentam pensar em trabalhar algum valor. Querem um programa trainée para parecerem "grandes artistas". Querem gravar discos sofisticados, alguns até têm a pretensão de querer criar "movimentos musicais", mas isso só depois de serem abatidos pela crítica especializada no meio do caminho.

Daí a grande bronca sobre a tal "MPB de mentirinha" ou sobre até mesmo os ídolos coitadinhos que buscam a blindagem intelectual que lhes pode, ao menos, influir na inclusão de espaços nas "viradas culturais" das grandes cidades.

Seus ídolos só conseguem admitir a validade da MPB quando se tornam ricos ou, na pior das hipóteses, são duramente criticados. Mas, da forma espontânea e criativa, eles não se interessam em evoluir. Tudo é forçado pelas circunstâncias e pelas conveniências.

Aí eles apelam para outros arranjadores, para músicos de apoio mais gabaritados e para uma cosmética de vestuário, técnica e tecnologia. Na pressa de quererem ser "mais artísticos", gravam covers até demais, enquanto apelam para o embelezamento sonoro no trabalho de outros arranjadores.

O resultado nem chega a ser tão criativo, como prometem tais "artistas", mas mesmo assim a intelectualidade "bacaninha" e pró-brega aplaude e dá nota dez em trabalhos musicais que, quando muito, ganhariam um 4,5 suado.

Por isso o recado que se pode dar aos futuros artistas é evitar fazer qualquer tipo de breguice musical. Seja o brega original, seja o "pagode romântico", seja o "sertanejo", "forró eletrônico" e por aí vai. Se quer algum lugar na MPB autêntica, faça isso no começo, caprichando numa arte decente nas melodias e letras, evitando fazer papel de ridículo nos primeiros anos de carreira.

Isso porque duas décadas são suficientes para "queimar" um cantor medíocre na carreira. A intelectualidade até se dispõe a recuperar a reputação "queimada", mas isso mostra também o aspecto ridículo dessa intelectualidade, e não consegue elevar o crédito do "artista" desgastado.

Criatividade não é uma linha de montagem do "fazer bem", como se imagina na chamada "canção popular". Fazer música deveria ser uma questão de espírito, mas com o trabalho da melhor criatividade possível, sem apelar para o ridículo do brega.

A música de qualidade não é questão de escola nem de riqueza financeira, em outros tempos até grandes sambistas, violeiros e sanfoneiros, vindos de comunidades bem pobres, surpreendiam, desde seus primeiros discos, com uma musicalidade incrível e uma postura de espírito que impressionava e cativava todos aqueles que os conheciam.

Não existe esse negócio de GQT (gestão de qualidade total) na música, do adestramento de antigos ídolos medíocres para que eles pareçam "geniais" mesmo muito tardiamente. Não existe ISO 9000. Se o cantor não provar seus propósitos desde o começo, seu reconhecimento artístico será bastante comprometido.

Cultura é responsabilidade. Mesmo quando se começa com menos sabedoria, deve-se ter um mínimo de autoestima e firmeza de espírito para evitar fazer o papel de ridículo e trabalhar um repertório artístico medíocre. Se começar a trabalhar a mediocridade e fazer sucesso por isso, o tempo mostrará cobranças que o remorso tardio não poderá mais resolver.

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