quarta-feira, 13 de novembro de 2013

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA SÓ É "ESQUERDISTA" COM AS RÉDEAS NAS MÃOS

LOBÃO, ARNALDO JABOR E PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Um dia os dois neocons de hoje irão acolher o outro, bastando o Brasil progredir.

Por Alexandre Figueiredo

O que leva, no Brasil, a intelectualidade pró-brega, preocupada tão somente com o reconhecimento social como "arte séria" ou "alta cultura" dos fenômenos bregas e derivados, a ponto de adotar posturas constrangedoras e contraditórias?

A situação é aberrante, em relação ao que existe no exterior, em que a intelectualidade de esquerda não adota uma postura complacente com a "cultura de massa". Recentemente, li o livro História Social do Jazz, do historiador marxista Eric Hobsbawm, e ele não tinha ilusões com o processo de inferiorização cultural das massas.

Aqui o que existe é um discurso bem malandro. Inferioriza-se culturalmente, via rádio e TV (controlados por oligarquias), o povo pobre e a intelectualidade tenta argumentar que isso é a "superioridade cultural" do povo, "à sua maneira".

Da mesma forma, idiotiza-se o povo pobre, transforma-o em estereótipo, em caricatura, e lá vem aquele jornalista cultural "bacaninha", aquela cineasta "esforçada", aquele antropólogo "que sabe tudo", dizendo que isso é a "melhor forma de cultura popular", a "mais autêntica", a "mais vibrante", a "mais apaixonante".

Cria-se um complexo de vira-lata que só pede um pedigri mais nobre. Cria-se uma imbecilização cultural que a intelectualidade dominante, não sem alguma demagogia, define como "libertária", "verdadeira" e "admirável".

E por que as esquerdas brasileiras, tão empenhadas em reivindicar a verdade histórica, a democratização da mídia e o progresso sócio-econômico, adota uma postura vacilante quando o assunto é "cultura popular"? E por que elas acolhem tão alegremente intelectuais alienígenas que num passado recente eram formados ideologicamente nos cenários tucano-folhistas?

Não se sabe as razões reais desse acolhimento. Evidentemente um pensador progressista mais experiente sabe que o intelectual alienígena, de cujo comentário retuitou no Twitter, possui algumas posturas discutíveis para o pensamento esquerdista, e que, no âmbito da cultura popular, adotam divergências gritantes.

Mas por que o acolhimento? Será a visibilidade fácil garantida pela intelectualidade alienígena, de um lado? E, de outro, a intelectualidade alienígena corteja as esquerdas de olho nas verbas do governo do PT? Sobretudo verbas do Ministério da Cultura previstas pela Lei Rouanet, para financiar cineastas, ativistas e jornalistas envolvidos em instituições diversas?

Leio os textos de Pedro Alexandre Sanches e, na boa, o que ele pensa sobre cultura popular não é muito diferente do que pensam, no "outro lado", pessoas reconhecidamente direitistas como Danilo Gentilli, o casseta Marcelo Madureira, o Nelson Motta do Instituto Millenium, Luciano Huck ou mesmo os jornalistas de Veja SP que idolatram igualmente o "funk ostentação" e o "Rei dos Camarotes".

Ideias valem muito mais do que posturas, e Sanches aparentemente mergulha no universo esquerdista como um estudante nascido em berço de ouro se engaja provisoriamente no movimento estudantil. Tudo parece eterno nos primeiros impulsos. Enquanto a situação favorecer, o conservador moderado mostra seus fôlegos de esquerdismo interino, mas aparentemente eterno.

Não se fala só de Pedro Sanches. Outros também vivem esse impulso provisório mas aparentemente "eterno". Até mesmo o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi e o seu jeito Reinaldo Azevedo de escrever nos fóruns de Internet. Em nome do corporativismo ou das verbas públicas ou de qualquer outra conveniência, todos parecem "socialistas até morrer".

Fica muito fácil se passar por esquerdista quando não há uma postura firme correspondente à cultura popular. E quando a intelectualidade alienígena, demonstrando sua escolaridade ideológica ditada pelo PSDB, invadir as esquerdas para demonizar nomes como José Ramos Tinhorão e Chico Buarque, antes associados a um pensamento esquerdista sobre nossa cultura.

POVO DOMESTICADO

Hoje virou moda empurrar qualquer breguice, dos velhos ídolos cafonas aos funqueiros de ostentação, passando por nomes de segunda divisão na axé-music, no "pagode romântico" e no "sertanejo", como se fosse "cultura popular de esquerda".

Vale até dizer que "Xibom Bombom" é canção de protesto. Ou então achar que o "funk" vai trazer o socialismo para o país, nem que seja pelos peidos das "mulheres-frutas". Daqui a pouco vão dizer que a "Melô do Créu" é um poema concretista de protesto guevariano. Será que vovô Ferreira Gullar vai gostar?

São posturas que se tornam constrangedoras, risíveis às vezes, revoltantes em outras. E o pior é que seus ideólogos apelam para o ciclo vicioso de reagirem à qualquer rejeição às suas posturas duvidosas. Ficam acusando os discordantes de "preconceituosos" ou "moralistas", neste caso numa linhagem já ultrapassada de velhas e falecidas aristocracias moralistas de 1910.

Sim, usa-se o Brasil de 1910 para explicar a rejeição do "funk" de hoje. Nada mais "urubológico", embora esse petardo seja servido para as mesas esquerdistas. Se a choradeira em prol do "funk" fracassa, seus ideólogos partem para outra, seja para classificar Odair José como "gênio visionário", seja para cortejar qualquer bobagem como se fosse a "salvação da lavoura".

Enquanto se dá um jeito de defender a imbecilização cultural das classes populares como se fosse uma "doutrina libertária", a intelectualidade alienígena, educada pelo PSDB mas no momento tentando algum vínculo nos movimentos de esquerda,, se acha "esquerdista até morrer" porque está com as rédeas nas mãos.

Eles se julgam "definitivamente esquerdistas" porque sabem que, sob suas mãos, causas como a Regulação da Mídia, a Reforma Agrária e o Marco Civil da Internet, serão "podadas" no máximo, para que apenas seus aspectos mais inofensivos sejam mantidos, se caso implantadas.

Da mesma forma, enquanto esses intelectuais conseguem convencer as esquerdas de que o "popular"é um rótulo "inocente" para o qual vale qualquer baixaria, qualquer cafonice e qualquer imbecilização, às quais qualquer crítica é acusada levianamente de "preconceito cruel".

O que está por trás disso é que há uma parcela de intelectuais que quer que as classes populares permaneçam culturalmente domesticadas. Falam em "diversidade cultural" como os economistas reacionários falam em "livre mercado". Acusam seus críticos de "preconceituosos" assim como na ditadura militar se acusavam os opositores de "subversivos".

A intelectualidade neocon de hoje, no passado defendia, à sua maneira, a glamourização da pobreza e da ignorância, como forma de positivizar as classes populares numa visão paternalista acadêmica. Hoje a intelectualidade pró-brega leva isso às últimas consequências, de forma mais "espetacular", mas ela é vista erroneamente como um "sincero ativismo cultural de esquerda".

Enquanto as mudanças sociais não acontecem a ponto de fazer romper a bregalização cultural que transforma as classes populares em caricatura de si mesmas, a intelectualidade pró-brega fica feliz com seu "esquerdismo" de ocasião.

Enquanto as transformações não acontecem, esses intelectuais permanecem com as rédeas nas mãos, achando que poderão conduzir o processo esquerdista de revalorização da cultura popular, com seus ideais dignos do neoliberalismo mais convicto.

O grande problema é quando essas transformações sociais ocorrerem e eles perderem o controle do processo. Hoje eles dizem que isso não tem a ver e que permanecerão firmes e fiéis no seu "esquerdismo", confiantes na ilusão de que o futuro não passa de uma sampleagem do presente.

Mas, e daqui a alguns anos? É bem provável que, com o choque de tais transformações, os intelectuais pró-brega possam a se tornar desesperadamente conservadores. Não se sabe quando, mas as chances de isso acontecer são grandes. Convém tomar cuidado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...