segunda-feira, 11 de novembro de 2013

INTELECTUALIDADE DOMINANTE E PSEUDO-ESQUERDISMO

 
Por Alexandre Figueiredo

Um conhecido pensador progressista havia retuitado o comentário de um jornalista supostamente esquerdista cuja formação ideológica está vinculada a um conhecido periódico da imprensa direitista que havia comentado apenas sobre um fato político trivial.

É um caminho perigoso das forças progressistas, e que se torna um vício que desmoralizou a ascensão das esquerdas na sociedade, por conta de associações aqui e ali com pessoas de pouca confiabilidade.

No Brasil, vende-se princípios em troca da visibilidade, minimizando o idealismo ao mais asséptico e inofensivo possível. Em vez de se dar passos para a frente, dá-se um passo tímido adiante enquanto, se preciso, se dão dois ou três passos firmes e largos para trás.

Foi assim que os antigos heróis da luta contra a ditadura, José Dirceu e José Genoíno, saíram "queimados" na opinião pública. O líder estudantil preso no Congresso da UNE em Ibiúna - prematuramente abortado pela repressão militar - , em 1968, e o remanescente dos guerrilheiros do Araguaia de 1972, hoje são marcados pela imagem de acusados do "escândalo do Mensalão".

O Partido dos Trabalhadores erra por preferir abrir mão de princípios em troca de vantagens fáceis e imediatas. O que é muito diferente de adaptar seu pensamento original aos tempos atuais. Uma coisa é se atualizar, rever as ideias e adaptar uma ideologia à praticidade dos tempos de hoje. Outra coisa é deturpar uma ideia original em prol de vantagens fáceis e imediatas.

Por isso o PT tornou-se uma "torre de Babel" em que a direção sempre pensou uma coisa e algumas outras correntes pensaram diferente. O PT gerou diversas dissidências que viraram novos partidos, seja à esquerda, seja à direita, por conta dessa postura aparentemente pragmática, porém arriscada.

E aí, no âmbito da intelectualidade cultural, o que se vê são as esquerdas se tornando reféns de uma facção intelectual que nasceu nos filões da centro-direita, e que só está tendenciosamente vinculada às esquerdas por algumas vantagens pessoais, sobretudo como arrancar algumas verbas do MinC para sustentar esses intelectuais e seus breguinhas de estimação.

E aí o intelectual alienígena, ligado sobretudo às lições da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso, com esperteza suficiente para camuflar tais ideias e outras derivadas - como a do "fim da História" de Fukuyama - em conceitos "pós-tropicalistas" dotados de algum populismo supostamente libertário, adota artifícios para disfarçar seu direitismo oculto.

O aluno-modelo de FHC no qual adaptou as ideias do sociólogo aos seus delírios brega-pós-tropicalistas, portanto, decide adotar uma postura supostamente anti-direitista em outros setores, como forma de impressionar os esquerdistas que o intelectual neoliberal enrustido precisa conquistar para sua confiança e vínculo.

Daí esse intelectual alienígena, no seu "esquerdismo de conveniência", escolhe os direitistas da moda para esculhambar em comentários nem tão firmes assim. Se a moda é falar mal do casseta Marcelo Madureira, lá está ele nas redes sociais - sobretudo Twitter - , o intelectual já está na frente da fila para atirar os tomates que furtou da mercearia da esquina.

Se a moda é falar mal do Instituto Millenium, ou da Rede Globo, ou de pessoas como Reinaldo Azevedo e Ali Kamel, lá está ele para falar mal. Pouco importam se eles possam ter sido seus mestres, escolas ou colegas. O intelectual cultural neoliberal que se "aventura" nos cenários de esquerda acha que pode ser protegido e sustentado pelas esquerdas, aceitando qualquer risco.

Só que seus comentários soam muito forçados. São geralmente frases copiadas de blogueiros conhecidos - já houve a moda do Paulo Henrique Amorim, hoje se vai nas entranhas da turma do Barão de Itararé - , que, reescritas pelo intelectual alienígena, soam sem vida, de tão forçadas.

No que diz a falar mal de pessoas e instituições, ele o faz sem assumir muita firmeza. Se o veículo da velha grande mídia em questão é aquele do qual o intelectual alienígena trabalhou ou colaborou, os comentários costumam ser genéricos e vagos, evitando atacar patrões diretos e colegas mais chegados, mas apenas outros profissionais de relação pouco amistosa.

As esquerdas até aceitam tais frases e corroboram as posturas oportunistas do intelectual alienígena. Este precisa conquistar as esquerdas e fica falando mal de coisas que variam desde o preço do leite à obsessão do jornalista Ali Kamel de processar quem vier a falar mal deste.

Enquanto isso, ele vai fazendo seu tráfico de influência para inserir nas esquerdas um pensamento cultural de centro-direita, que aposta na bregalização do país e na imbecilização das classes populares, sob o rótulo de "diversidade cultural" do qual poucos conseguem ver a gritante analogia com os termos "liberdade de expressão" e "livre mercado" adotados pela "reacionália".

Daí ele convencer gente até mesmo de credibilidade nas esquerdas a acreditar que existe axé-music de protesto, algo tão insensato quanto haver humorismo sem comédia, pela própria natureza da axé-music de ser um mero pop comercial baiano no qual o único objetivo é fazer as pessoas dançarem e enriquecer empresários e radialistas associados.

Da mesma forma, o intelectual alienígena tenta fazer as esquerdas acreditarem que a bregalização do país é um processo libertário, mesmo quando se enche de contradições para dizer por que se deve defender estereótipos debiloides do povo pobre como se fosse a "verdadeira emancipação cultural das classes populares".

Com isso, as esquerdas se iludem quando o intelectual alienígena esconde conceitos neoliberais de cultura com alegações falsamente libertárias, em que vale até mesmo a colocação de palavras-chave soltas como Che Guevara e "reforma agrária" para estabelecer um vínculo forçado.

Só que isso acaba se tornando munição para a direita midiática, cada vez mais segura de realizar ataques às esquerdas. Com tantos erros cometidos por esquerdistas, isso faz com que os movimentos progressistas fiquem atolados no meio do caminho, e por pouco Dilma Rousseff evita perder completamente sua popularidade.

Por outro lado, devemos admitir que o pensamento direitista se alimenta dos erros das esquerdas, a ponto de Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, com suas grosserias sem tamanho, se ascendam como pretensos heróis de uma facção "independente" da sociedade.

No entanto, as esquerdas em geral, radicais ou não, acabam perdendo boa parte de sua reputação e carisma, quando se aliam a forças sem confiabilidade, sejam eles publicitários mensaleiros ou a intelectualidade alienígena que prega a bregalização do país. Convém tomar cuidado.

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