sábado, 23 de novembro de 2013

INTELECTUALIDADE "BACANINHA" QUER ACABAR COM JOÃO GILBERTO


Por Alexandre Figueiredo

Depois de uma pausa no ringue, a intelectualidade cultural dominante, aquela que muitos acham "muito bacaninha" e que recebe injeções "soros-positivas" nas suas contas bancárias, não só se prepara para derrubar Chico Buarque como pretende agora partir para cima de João Gilberto.

Pretendendo investir na bregalização do Brasil - que adota um modelo de "cultura popular" que agrada aos investidores estrangeiros - , o foco da intelligentzia brasileira, seja da parte de "farofa-feiros" ou de "navegadores fora-do-eixo", sob as bênçãos do "sacerdote" Paulo César Araújo e seu rosto que lembra um Dom Bosco mais alucinado, é a Bossa Nova e a moderna MPB.

O pretexto para combater a música brasileira de qualidade dos intelectuais pró-brega - que provisoriamente só aceitam a MPB autêntica quando ela não estabelece postura firmemente contestatória ao brega - é a versão que candidatos do programa The Voice Brasil, Xandy Monteiro e Maylsson (cantor do grupo sambrega SOS Paixão), cantaram da música "Adeus, América".

"Adeus, América" era uma música pré-Bossa Nova gravada em 1948 pelo grupo vocal Os Cariocas. Seu crédito de autoria é controverso, sendo de Geraldo Jacques em co-autoria de Haroldo Barbosa, em algumas fontes, e Wilson Batista, em outras. Mais especializado, o Dicionário MPB de Ricardo Cravo Alvim atribui à primeira informação.

João Gilberto tornou a canção mais conhecida através dos acordes de violão e do seu canto suave que retrabalharam a música bem ao estilo bossanovista. E que, num programa televisivo que aposta no tecnicismo exagerado no canto, foi simplesmente derrubado pelo "profissionalismo" dos dois crooners do "time de Cláudia Leitte no The Voice Brasil da Rede Globo.

Destruir a música brasileira em regravações burocráticas e cafonas não é novidade. Dois dos jurados de The Voice Brasil, Cláudia Leitte e o breganejo Daniel, já fizeram das suas. Um cem número de ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas já havia feito "massacres" ao cancioneiro da MPB, até para disfarçar o baixo nível artístico e economizar esforço no (fraco) material autoral.

Daniel e Chitãozinho & Xororó chegaram ao ponto de gravarem, em separado, a música "Disparada" de Geraldo Vandré sem se darem conta do que realmente quer dizer a letra da música, que é uma metáfora para a opressão do mesmo poder latifundiário que patrocina, com muito gosto, os breganejos.

Mas a regravação "da boca pra fora" atingiu não só a MPB, mas estrangeiros como o U2, cuja música "Sunday Bloody Sunday" - que fala sobre um massacre ocorrido na Irlanda - ter sido cantada com alegria pelo grupo Sambô e seu inglês the book is on the table "superamericano". Muitos comem e bebem ao som do Sambô enquanto outros morrem amanhã.

Houve até mesmo um grupo de sambrega que, na maior animação, havia gravado, muitos anos atrás, uma versão da bela canção de Flávio Venturini, "Noites com Sol", agredindo violentamente a linda composição com malabarismos vocais canastrões, bastante afetados, com o jeitão engraçadinho do cantor. Não sei o nome do elemento que gravou a lamentável versão.

O The Voice Brasil é um daqueles programas em que existe um padrão de "cantar bem" - o mesmo de nomes como Celine Dion e Michael Bolton, mas consagrado sobretudo por Whitney Houston - extremamente técnico, forçadamente "emotivo", gritado e cheio de malabarismos que não trazem diferencial algum e nem mesmo beleza nem personalidade.

O único jurado de The Voice Brasil, o roqueiro Lulu Santos, foi mais sensato na avaliação da versão:  "Achei que houve um excesso de trejeitos vocais e desrespeito à canção original. Faltou respeito ao que a música diz", comentou a respeito dos dois candidatos.

Os "farofa-feiros", que haviam "desaconselhado" seus leitores a ver The Voice Brasil para optar a ver bobos-alegres da EMOPEBÊ (tipo Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult) apoiando o tecnobrega / tecnomelody, vibraram com a versão dos dois candidatos do programa televisivo.

Pois Eduardo Nunomura, integrante do joaquimbarbosiano Supremo Tribunal do Farofafá e militante da gilmarmendesificação da MPB junto ao "filho da Folha" Pedro Alexandre Sanches, comentou euforicamente a "façanha" dos dois cantarem "Adeus, América":

"Na prática, os dois dançaram e não conforme a música. Mexeram com uma instituição, daquelas que parece ser preciso pedir autorização, assinada em duas vias e protocolada na alta cultura brasileira", divertiu-se Nunomura em comentário jocoso, feito ainda sob as marcas depreciativas da campanha contra a MPB no episódio Procure Saber.

Maylsson foi aprovado, Xandy não. Talvez porque o primeiro já tenha uma "experiência musical". Em todo caso, a intelectualidade cultural dominante festejou as versões, desafiando o que os intelectuais "bacaninhas" classificam como uma "afronta às instituições estabelecidas", como na ironia pós-André Forastieri de Nunomura.

No fundo a intelectualidade cultural dominante não quer que prevaleça a música brasileira de qualidade, aquela que é feita com a alma, o coração. Só admitem a música de qualidade quando ela vira uma linha de montagem para os Leandro Lehart da vida, ou então os Luan Santana de ocasião, copiarem em algum momento de crise em suas carreiras.

A música feita com a alma, de artistas com opinião de verdade, isso a intelectualidade "bacaninha" não tolera, não aceita. Daí a vontade de derrubar Chico Buarque, João Gilberto, e o que vier de gente que não se adapta aos ventos do mercado nem compactua com o brega.

O que a intelectualidade cultural dominante quer é que apenas sobreviva, pelo menos provisoriamente, a MPB autêntica que obedece ao mercado e aceita acordos com o brega (duetos, covers etc). Uma MPB talentosa, mas boazinha, condescendente com os "coitadinhos" que rolam nas rádios.

Mas a intelectualidade os aceita até certo ponto. No fundo esperam que eles morram aos poucos. A intelligentzia quer acabar com a MPB. Madame não quer que o povo ouça MPB. Que fique a breguice que volta e meia massacre o cancioneiro da MPB, sem que o "povão" tenha qualquer noção ou estímulo para ouvir os artistas originais. Parece "bacana", mas é muito triste.

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