segunda-feira, 18 de novembro de 2013

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA INSULTAM FAVELADOS


Por Alexandre Figueiredo

O que é o preconceito? Para muitos, é rejeitar algo que parece dar certo. Correto? Erradíssimo! Preconceito é simplesmente compreender mal alguma coisa, e muitos dos preconceitos ocorrem mais no lado da aceitação do que da rejeição.

Mesmo na aceitação mais entusiasmada, há expressões do mais verdadeiro preconceito, quando os entusiastas da ocasião não conseguem ter a real dimensão do problema do "outro", e acham que todo "outro" que dá um sorriso necessariamente é uma pessoa "feliz".

Na intelectualidade cultural dominante, bastante criticada por este blogue - muitas vezes para constrangimento de muita gente boa que pega carona nas esquerdas médias e nos pseudo-esquerdistas mais badalados - , isso ocorre muito, principalmente no que se refere à cultura popular.

Há mais preconceito nas campanhas a favor do "funk" do que nas campanhas contra. Isso é fato. Tanto que, para justificar a rejeição que o "funk" sofre pelos vários segmentos da sociedade - até mesmo nas periferias, sobretudo entre muitas mães preocupadas com o destino de seus filhos nos "bailes funk" - , recorrem ao Brasil de 1910 para explicar o processo.

Isso é muito mais preconceituoso do que dizer que "o 'funk' é uma #$%@%". Não vivemos mais o Brasil de 1910, portanto não é o Brasil de 1910 que rejeita o "funk", é o Brasil de 2013 que o rejeita com cara e coragem, sem medo da cara feia de funqueiros que se servem a uma indústria na qual o povo pobre não pode trabalhar melodias nem buscar valores sociais dignos.

No que diz às favelas, a intelectualidade "bacaninha" que choraminga contra a rejeição ao "funk" atribuindo este sentimento ao Brasil da República Velha, portanto, estabelece uma postura "positiva" que mal consegue esconder um elitismo que parece "simpático demais" para ser assumidamente elitista, mas é tão cruel quanto qualquer "higienismo" fascista.

FAVELAS VISTAS COMO "ARQUITETURA PÓS-MODERNA"

Virou um aparente - mas discutível - consenso entre intelectuais badalados e dotados de visibilidade e prestígio de que as favelas brasileiras são sinônimo de "arquitetura pós-moderna" e que a pobreza é um processo lindo de configuração de valores de um "mau gosto" visto romanticamente como um misto de rebeldia com ingenuidade.

Daí a "pureza" que os intelectuais "bacaninhas" atribuem às populações pobres e que virou desculpa para não desejar melhorias sócio-culturais. A razão exata que faz essa intelectualidade agir assim não é oficialmente conhecida, mas sabe-se que a glamourização da pobreza e da ignorância que está por trás disso esconde um sentimento preconceituoso cruel.

Com isso, os intelectuais "bacanas" insultam a população das favelas. Sim, aqueles mesmos intelectuais "legais" que acham o brega "o máximo" e querem porque querem que o "funk" vire patrimônio cultural. Aqueles mesmos os quais seus defensores se assustam quando alguém contesta energicamente o pensamento desses intelectuais.

Esse insulto se dá porque a intelectualidade cultural dominante, mesmo com um discurso que empolga muitos e resulta em aplausos e ovações, adota uma postura cruelmente preconceituosa e elitista com o povo pobre, ignorando a verdadeira realidade das favelas, que vai muito além das "pefierias legais" idealizadas até em documentários e monografias pela mais festejada intelligentzia.

EXCLUSÃO IMOBILIÁRIA

As favelas surgiram como construções acidentais, fruto da exclusão imobiliária que impede que os operários que construam edifícios diversos sejam seus próprios moradores. Fala-se muito em cotas para universidades, mas nunca se fala, por exemplo, em cotas de gente pobre para habitar edifícios nas grandes cidades, o que resolveria, e muito, o problema habitacional existente.

Não há como ver as favelas como "paraísos" se as condições históricas de suas construções são muito mais ingratas que os antigos quilombos do século XIX. Pelo contrário, as favelas são construções improvisadas, precárias, que se amontoam em caóticos labirintos suburbanos, em locais de acesso difícil, mas que eram o que seus moradores "puderam encontrar".

A visão intelectual, por outro lado, glamouriza a pobreza e a ignorância, e por conseguinte, glamouriza também as favelas. Isso é péssimo. Para piorar, é um discurso trabalhado de tal forma que, parecendo "positivo", cria na intelectualidade dominante (de classe média alta) e seu público (de classe média em geral, exceto a baixa) um sentimento de falsa consciência social.

Creditando as favelas como "paraísos" de cunho habitacional e sócio-cultural, a intelectualidade cultural dominante acaba promovendo não uma visão generosa das populações pobres, mas um elitismo bastante cruel travestido em palavras dóceis e alegres. E que, para piorar, volta e meia esse discurso aparece até mesmo nos cenários reais e virtuais das mídias esquerdistas.

Com essa visão intelectual, que no fundo deprecia "pra cima" a situação das classes pobres, atribuindo a elas uma "riqueza social" que não existe, as favelas são vistas como um cenário de um espetáculo de apologia à miséria, à ignorância e ao subdesenvolvimento, numa corrompida noção de aceitação do "outro" através da conformação com a pobreza alheia e seu "mau gosto popular".

Ignorando relações de dominação, de exploração, de conflitos de classes dos mais diversos, mesmo sendo a "guerra fria" social do microcosmo das vidas urbanas, os intelectuais, ao espetacularizarem a pobreza, a ignorância popular e as favelas - como "cenários" de um teatrinho paternalista que diz que "é lindo ser pobre" - , tentam desmobilizar a luta das classes populares.

Esse discurso intelectual, autoproclamado "progressista", entra em contradição a todo momento, com o choque drástico entre as periferias idealizadas pela "ideologia da diversidade cultural", criando um descompasso entre a imagem "cultural" do povo pobre trabalhada oficialmente no discurso intelectual e a dura realidade vivida no seu cotidiano.

Por exemplo, enquanto certas sub-celebridades femininas dotadas de peitos e traseiros siliconados simbolizam a "emancipação feminina" atribuída à "cultura popular", na vida real jovens meninas são estupradas e até mortas por tarados pobretões dotados de tanta ignorância que acreditam que nada sabem fazer senão forçar mocinhas faveladas a transar com eles.

Da mesma forma, as "maravilhosas" favelas do discurso intelectualoide se desfazem nas chuvas. O Morro do Bumba não aparece no "funk", não existe deslizamento de terra na "favela feliz" que ouve de Odair José a Mr. Catra, de Gretchen a Thiaguinho.

Não aparecem na "alegre cultura da periferia" os assaltos nas ruas, os tiroteios entre criminosos e policiais que volta e meia dizimam inocentes nas periferias de verdade, não aparecem os dramas familiares por causa das greves nas escolas e da escolaridade precária de nossos meninos que serão cidadãos medíocres no futuro.

Portanto, a intelectualidade pró-brega acaba ofendendo as populações pobres. E ver quantos aplausos, gritos e assobios entusiasmados de plateias lotadas são desperdiçados por conta de uma intelectualidade que sabe trabalhar ideias nefastas com um discurso atraente.

Enquanto isso, a realidade do povo pobre é algo muito mais complexo para que seja contemplado apenas pela Bolsa Família ou pela Lei Rouanet. O buraco é mais embaixo, e as favelas estão muito longe de serem paraísos. Também pudera, nossos intelectuais estão lá longe, no alto de seus condomínios. Não poderiam entender mesmo as periferias fora de seus filtros midiatizados.

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