quinta-feira, 7 de novembro de 2013

COM FM EM CRISE, RÁDIO AM IRÁ SATURAR FREQUÊNCIA MODULADA


Por Alexandre Figueiredo

Com o rádio FM cada vez mais perdendo público para a Internet e para a televisão, foi assinado pela presidenta Dilma Rousseff um decreto que fará com que emissoras AM migrem para a Frequência Modulada, provocando um colapso no setor.

Oficialmente, anunciou-se que a medida irá aquecer o mercado radiofônico, e a transferência de cerca de 1,8 mil emissoras AM para o dial FM será gradual, com prazo estimado para até um ano. Embora seja motivada por razões técnicas, a medida favorece sobretudo os empresários da telefonia móvel, já aliados do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

Além disso, a medida irá favorecer os anseios dos donos de rádio e dos barões da telefonia, que não se empenharam sequer para adaptar a tecnologia dos celulares para recepção de AM. O meio radiofônico "comemora" a medida, acreditando que o rádio se tornará mais competitivo e ágil.

No entanto, além de ser uma queima de arquivo na história do rádio - a história do rádio AM não é, necessariamente, a história do rádio FM - , que perderá a faixa AM anos antes de completar 100 anos, a migração de AMs para o rádio FM irá provocar uma série de problemas que a Aemização das FMs e a ciranda empresarial do rádio já havia causado nos últimos anos.

SEGMENTAÇÃO DO RÁDIO MORREU

Em primeiro lugar, a medida será um golpe mortal na já moribunda segmentação do rádio FM, uma ideia que os donos de rádio sempre odiaram, mas que desde os anos 90 fingiram defender para não desagradar o mercado publicitário.

Isso se dá porque, visando interesses comerciais, quase nenhuma rádio no país opera visando audiências estilizadas, buscando a audiência mais heterogênea possível. Embora financeiramente viável, esse raciocínio provocou, por exemplo, a desmoralização do radialismo rock através das deturpações grosseiras feitas pelas rádios 89 FM, em São Paulo, e Rádio Cidade, no Rio de Janeiro.

Em segundo lugar, porque o rádio, espécie de "velha grande mídia" levada às últimas consequências, está bastante anacrônico em mentalidade e seu conteúdo dificilmente irá se modernizar, já que torna-se muito mais fácil jogar fórmulas velhas de AM nas FMs, maquiando com alguns aparatos, do que modernizar o rádio AM dentro da Amplitude Modulada.

JABACULÊ VAI AUMENTAR... E FORA DA MUSICA

A prática de jabaculê em FM deixará de vez a exclusividade musical. A prática de corrupção em rádio continua ocorrendo no âmbito musical, mas tornou-se menos intensa até pela obrigação de repassar verbas no ECAD. Hoje a música brega-popularesca, por exemplo, prefere ir para outras frentes, subornando acadêmicos, jornalistas e cineastas para a promoção de seus "sucessos".

Enquanto isso, o chamado "Aemão" radicalizará muito as práticas jabazeiras, sobretudo nas chamadas jornadas esportivas. Há muito ocorrem acordos entre dirigentes esportivos e donos de FM, e várias FMs haviam atuado como "caixa dois" dos clubes esportivos. Essa medida poderá se tornar ainda mais radical.

Há, além disso, a influência dos políticos donos de rádio e das seitas religiosas, que bagunçará ainda mais um rádio FM que havia perdido emissoras de referência, como a Antena 1 carioca, a Fluminense FM e a saudosa Rádio Cidade original, surgida em 1977 levantando a bandeira do pop despretensioso muitos anos antes de virar caricatura de rádio de rock.

Recentemente, a MEC FM corre perigo de extinção, enquanto o já subnutrido e mofado dial FM pode se tornar ainda mais popularesco, de um lado, através da radicalização da "invasão AM", e mais conservador, principalmente pelas rádios noticiosas que servem de vitrine para a imprensa direitista.

AUDIÊNCIA VAI DIMINUIR

A tendência do rádio FM, acompanhando a da imprensa escrita, é de uma queda brusca de público. O que está acontecendo, embora não seja registrado nos institutos de pesquisas, que operam ainda em dados fantasiosos.

Isso porque os "milhares" de ouvintes atribuídos pelos institutos, na verdade, correspondem a seis, dez ou sessenta vezes o que a realidade mostra, já que 90% dos aparelhos sintonizados envolvem ambientes coletivos, e na verdade são poucas dezenas de pessoas que sintonizam individualmente, mas estando ao lado de milhares de transeuntes.

Essa manobra ocorre sobretudo em estabelecimentos comerciais, em que uma única pessoa - geralmente o gerente - sintoniza uma emissora de rádio, enquanto muitos fregueses que se utilizam de seus serviços são involuntariamente atribuídos como "ouvintes", só porque estão ao lado de quem realmente ouve a emissora.

Só que truques assim não conseguem provar a debilidade de várias emissoras e o seu fraco poder de influência na opinião pública e no mercado. Em Salvador, a Rádio Metrópole FM não teve influência suficiente para eleger seu dono Mário Kertèsz para a terceira gestão de prefeito da capital baiana. Já a Bradesco Esportes FM demitiu vários funcionários no Rio por baixíssima audiência.

Informações não-oficiais mostram também que as sintonias em FM das antigas AM Globo e Tupi, no Rio de Janeiro, é decepcionante, dentro de padrões dignos de FMs comunitárias. E que a Rede Transamérica só mantém uma programação esportiva porque seus executivos - agora associados com a Igreja Universal do Reino de Deus - possuem ligações com dirigentes esportivos no país.

Com a força da Internet mostrando o outro lado da cultura em geral, além de uma variedade maior de informações, e com a concorrência da TV paga mostrando as imagens que o rádio não transmite, a Frequência Modulada sofrerá uma saturação, além de seguir com a firme indiferença de muitos brasileiros com outras coisas para fazer.

Com a conclusão da "invasão AM" nas FMs, ocorrida desde os redutos latifundiários durante a ditadura, o rádio FM tende a soar mais velho e cansativo, enquanto festeja seu sucesso fictício junto com os barões da mídia, os latifundiários, dirigentes esportivos e políticos regionais.

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