sexta-feira, 8 de novembro de 2013

BARÕES DA MÍDIA ACHAM "POSITIVA" MIGRAÇÃO DE AMS PARA O FM


Por Alexandre Figueiredo

Os barões da mídia e da telefonia celular foram os mais beneficiados no Dia do Radialista, depois que a presidenta Dilma Rousseff, em cerimônia realizada ontem no Palácio do Planalto, decretou a migração gradual das emissoras AM para o dial FM.

Embora o decreto seja anunciado sob o pretexto de aumento de tecnologia, fortalecimento de mercado e esperança no aumento de audiência, a verdade é que ele beneficiou principalmente os barões associados à ABERT - o órgão patronal de radiodifusão - e os proprietários de empresas que investem em telefonia móvel.

Enquanto o governo Dilma e, por conseguinte, seu ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, adotam posturas hesitantes quanto à regulação da mídia e o marco civil da Internet, mostraram sua firmeza quando decidiram golpear o rádio AM esvaziando seu espaço de sintonia, enquanto suas emissoras migram para o mata-mata do rádio FM.

No discurso difundido pela grande mídia, como se viu, por exemplo, no Jornal da Band - da TV Bandeirantes, cujo grupo empresarial chegou a exercer tráfico de influência em 1/4 do dial FM paulistano - , tudo parece ser um mar de rosas e haverá a mais completa harmonia entre as emissoras AM migradas para o FM e as FMs existentes (algumas já com formato tipo rádio AM).

Não é isso que acontece nem vai acontecer. Nos últimos anos, perdemos tanto emissoras AM e FM de referência, como as antigas Fluminense FM (RJ), 97 Rock (SP), Antena 1 (RJ), Estação Primeira (PR), Musical FM (SP), em FM, e Rádio Haroldo de Andrade (RJ), Rádio Relógio (RJ) e Rádio Piratininga (SP), no AM, por causa da ciranda empresarial.

Nessa mesma época, em que a notícia do fim do dial AM é anunciada com "muito otimismo", tem-se a triste notícia do possível fim da rádio MEC FM, de música clássica, incompatível com os novos padrões de comercialismo e simplificação de conteúdo que o rádio FM já adota e que poderá consolidar nessa atual fase.

Enquanto o discurso dos patrões fala de um rádio "cada vez mais voltado para o ouvinte", a prática é completamente oposta. Nos últimos anos, o que se viu foi o aumento do poder das oligarquias nacionais com as redes de rádio, a farra politiqueira das FMs regionais e a farra das seitas religiosas que praticamente debilitou o rádio AM.

Enquanto isso, ideias e conceitos de rádio eram deturpadas, depois de um breve período de brilhantismo e criatividade. A era dos comunicadores de AM, antes uma solução criativa em relação ao êxodo de programas de auditório e radionovelas para a televisão, já começa a sofrer com as demandas "pragmáticas" do padrão FM.

Com isso, os "grandes comunicadores" de hoje se aproximam muito mais de um misto de TV aberta com rádio FM, o que faz alguns apostarem numa banalização utilitarista da "prestação de serviço", enquanto outros se aproximam de performances "irreverentes" como as de Danilo Gentili e do Pânico na Band, e outros mergulham numa animação piegas popularesca.

No âmbito do rádio FM, o que se viu foi a sabotagem que a segmentação radiofônica dos anos 80 sofreu a partir da década seguinte. O radialismo rock é um exemplo mais sintomático, pois o estilo das rádios de rock originais - que, além de tocar rock, possuíam personalidade e linguagem próprias de seu público - deram lugar a "rádios rock" que, na prática, são meras FMs pop com "vitrolão" voltado ao hit-parade relacionado em tese ao rock ou coisa parecida.

NIVELAMENTO POR BAIXO

O que poderá causar, na Frequência Modulada, com a migração de emissoras AM é o nivelamento por baixo das emissoras. Se hoje o paradigma das emissoras FM já é o hit-parade - "rádios rock" e emissoras de pop adulto, por exemplo, não vão muito além da mentalidade "só sucesso" - , a influência de rádios "populares" complicará ainda mais a situação.

Como criar uma FM de música erudita num dial oscilando entre um Patrulha da Cidade e um Pânico da Pan? Como criar uma rádio de rock de verdade - com locutores que falam como gente, e não como palhaços tresloucados do tipo FMs pop - entre a breguice de uma Nativa FM e o utilitarismo "popular" da Rádio Bandeirantes?

Não que isso fosse impossível, mas com a mentalidade cada vez mais atrelada aos interesses comerciais, sobretudo por conta da instável audiência que o rádio FM enfrenta, não admitida por seus donos e pelos institutos de pesquisa, complica ainda mais a segmentação.

No discurso, fica mais fácil apontar previsões otimistas. Mas a realidade não será tão fácil assim e a competição agressiva das emissoras de rádio fará com que o rádio FM se torne tal qual a TV aberta, que se tornou árida de grandes ideias por causa do comercialismo mais obsessivo.

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