terça-feira, 26 de novembro de 2013

AS MAIS-MAIS DO "DIRIGISMO CULTURAL" BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural brasileira é neoliberal, mesmo fazendo proselitismo nas esquerdas, falando mal de jornalistas direitistas, cuspindo nos seus mestres tucanos etc. Mas uma coisa elas herdaram do que havia de pior nas esquerdas.

É o "dirigismo cultural", vindo dos regimes autoritários do Leste Europeu. Ordens partidas "de cima", orientações oficialescas sobre algo que deve ser valorizado sem questionar se isso vale a pena ou não. "Ordens do partido", "orientações dos dirigentes", determinações que devem ser aceitas porque "vêm de cima".

A intelectualidade cultural brasileira não vem com "Revolução Cultural" declarada, nem apelam para o livrinho vermelho, e nem compartilha dos ritos militarescos de stalinistas, maoístas e similares. Até porque essa patota está mais para endeusar os valores pop dos EUA. A cultura "transbrasileira" de que falam tem muito a ver com o sentido de "transnacional".

Mesmo assim, seu "dirigismo cultural" é feito à sua maneira. E não se iludam quando eles dizem "ninguém é obrigado a gostar de fulano, mas deve-se reconhecer seu valor", até porque eles fazem toda uma choradeira que as elites paternalistas acabam gostando do "coitadinho" brega da ocasião.

Já que os "farofa-feiros" vêm com suas listas que misturam alhos com bugalhos - como se o pobre Itamar Assumpção, que não está mais aí para reclamar, tivesse a ver com o "funk ostentação", já sofrendo o que Raul Seixas sofreu postumamente nas mãos de breganejos e axézeiros - nós também fazemos nossa lista, com a diferença de ser mais didática e questionadora.

Nesse meio de caminho, a intelectualidade cultural "mais bacaninha" empurrou para as esquerdas nomes como Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso e Mr. Catra. Tentaram fazer o mesmo com Calcinha Preta, sem sucesso, e com Michel Teló, aproveitando do seu suposto sucesso mundial, mas também deu com os burros atolados na água.

Quem não se lembra da "orientação oficial" de aceitar sempre Os Dois Filhos de Francisco e não dar um pio contra a dupla goiana, pouco antes de Zezé adotar surtos reacionários (paciência, os dois irmãos são eleitores do ruralista Ronaldo Caiado). Ou então de todo o oba-oba para Joelma e Chimbinha, antes dela juntar-se ao clube homofóbico de Marco Feliciano?

Também se descartaram do páreo nomes como Waldick Soriano, cujo direitismo não deu para esconder, e Mr. Catra, cujo entrosamento com a grande mídia também não deu para ser dissimulado. Nunca as grandes corporações da grande mídia deram tanta atenção ao funqueiro, em especial Luciano Huck.

Mas alguns nomes permanecem e outros são lançados, e aqui vamos mostrar uma lista das 10 mais do "dirigismo cultural", composto daqueles ídolos bregas que as esquerdas são obrigadas a aceitar como se esses cantores comerciais fossem sinônimo de "cultura libertária". Vá entender. Bem, vamos lá.

1) ODAIR JOSÉ - O ídolo cafona que marcou a década de 70 só faz músicas românticas e letras inofensivas, mas criou mal-entendidos com a Censura Federal. O galo cantou na esquina e o cantor, espécie de Pat Boone brasileiro, passou a ser superestimado nas últimas décadas tido como "psicodélico", "rebelde", "cantor de protesto" e outros adjetivos improcedentes.

2) BENITO DI PAULA - Se Odair José é considerado o "nosso Pat Boone", Benito di Paula é considerado o "nosso Paul Anka". Foi um razoável hitmaker, ou seja, aquele compositor de sucessos comerciais que "funcionam". Mas foi superestimado como se fosse "artista revolucionário" que todos somos aconselhados a crer que ele sempre foi, o que nada tem a ver.

3) WANDO - O falecido ídolo brega do "sambão-joia" surgiu como arremedo de Jorge Ben para animar o "milagre brasileiro". Nos anos 80, decidiu soar como uma versão "farofa" de Chico Buarque - calma, "farofa-feiros", é "farofa" no sentido de coisa fajuta - e distribuir calcinhas no palco. Será que a maioria dessas calcinhas era vermelha para que a intelligentzia empurrasse o cantor para o gosto oficial das esquerdas?

4) RAÇA NEGRA - Pioneiro do sambrega (releitura do "sambão-joia" lançada na Era Collor), o Raça Negra é considerado pelo repertório chinfrim. Mas é "ordem do partido" acharmos o grupo "genial" e a intelectualidade empurra o grupo para o gosto do público alternativo, das vanguardas culturais, das esquerdas e o que for para frente. Parece aquele papo das velhas mães quando obrigavam seus filhinhos a tomar chá de losna porque "era bom para a saúde".

5) LEANDRO LEHART - Outro nome do sambrega que fez sucesso como vocalista do Art Popular. Quando convinha, aceitava feliz o mercado medíocre do qual participou e fez muito sucesso. Mas só duas décadas depois quis chutar o pau da barraca e, tomado de pretensiosismo, posa de "gênio visionário". A intelligentzia adora, sobretudo pela imagem de "coitadinho aborrecido" que ele agora explora nas suas entrevistas.

6) GABY AMARANTOS - A cantora do tecnobrega conseguiu provar que esse papo de que o ritmo assustava os barões da grande mídia era balela. Até a Veja, que condena todo mundo, se derreteu pela ex-Beyoncé do Pará. Entrosada com a Rede Globo, ela no entanto cumpre o perfil ideológico da suposta "engajada", bem ao gosto da intelectualidade cultural dominante.

7) LUIZ CALDAS - Espécie de Leandro Lehart da axé-music, o outrora considerado pioneiro da axé-music passou para a segunda divisão quando o mercado foi dominado por ivetes, chicletes e asas. Seu sub-tropicalismo cheio de clichês agrada à intelligentzia, por causa de um estereótipo de brasilidade inofensivo que a intelectualidade dominante tanto defende.

8) "FUNK DE RAIZ" - As aspas indicam que o termo é falso. Não se trata do som que Tim Maia, Erlon Chaves, Toni Tornado, Cassiano e Hyldon fizeram nos anos 70, mas dos primeiros registros do "funk carioca" que rompeu estética e estruturalmente com todo o funk de verdade. O discurso dos funqueiros que passaram a usar a estrutura do DJ-e-MC é risível e inócuo, mas segue os padrões de rebeldia-que-incomoda-sem-incomodar-muito que a intelectualidade tanto adora.

9) MC GUIMÉ - Com a crise de reputação do "funk carioca", a intelectualidade tentou colocá-lo em banho-maria e focalizar a "novidade" do "funk ostentação", para ver se recicla o discurso do "funqueiro-coitadinho". E MC Guimé tornou-se o queridinho da empreitada, o pretenso "engajado" que no fundo não incomoda muito, principalmente porque defende o consumismo, fazendo o coração neoliberal da intelectualidade "bacaninha" bater bem mais forte.

10) THIAGUINHO - Sim, isso mesmo, o "príncipe" do sambrega das Organizações Globo. O que faz ele ser empurrado para as esquerdas é meio duvidoso, é como transformar William Bonner em paraninfo da luta pela redemocratização da mídia. Pelo que parece, a intelectualidade o usa para derrubar Chico Buarque, alvo preferido da intelectualidade "bacaninha" por esta não tolerar pessoas com opiniões próprias. Daí que, para tal, apelam até mesmo para um astro da Globo.

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