terça-feira, 5 de novembro de 2013

AS ESQUERDAS MÉDIAS E A IMBECILIZAÇÃO CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Às vezes, as esquerdas médias põem as causas progressistas a perder, ao assumirem posturas bastante duvidosas que são uma deixa para a direita reagir com um esnobismo arrogante. Daí as palavras furiosas de Reinaldo Azevedo ou a pseudo-sabedoria de Rodrigo Constantino, que já denominou tais esquerdas como "esquerdas-caviar" ou "esquerdas-limusines".

O episódio do sucesso "Xibom Bombom", do esquecido grupo de axé-music As Meninas, tornou-se um fato digno de figurar num Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, caso este autor, na verdade o saudoso Sérgio Porto, ainda estivesse vivo, lá por seus 90 anos.

A música foi considerada por alguns internautas como "canção de protesto socialista", ignorando o contexto mercadológico e tendencioso da axé-music - um cenário musical controlado por empresários - e pelo fato de "Xibom Bombom" ter como co-autor um dos mais ricos empresários de Salvador, Wesley Rangel.

Essa parte das esquerdas anda aprontando. Alguns esquerdistas até acertam quando falam de problemas de ordem sindical e trabalhista, ou quando descrevem as distorções sociais promovidas pelas mensagens publicitárias. Mas quando chega o tema cultura popular, aí é que as trapalhadas acontecem, que fazem a direita se divertir às muitas gargalhadas.

Vide o caso do "funk", que glamouriza a pobreza, é esteticamente fechado, aprisiona a juventude numa mesmice de linguagem e impede que valores sociais progressistas alcancem as populações pobres sem o "filtro" da "liberdade" funqueira, para o qual o ritmo é a medida de todas as coisas.

A intelectualidade cultural dominante está infiltrada nas esquerdas e seduz muita gente boa. Os intelectuais alienígenas, que trazem para o pensamento esquerdista concepções sobre cultura popular "importadas" da Folha de São Paulo, da Rede Globo, do PSDB e até da revista Caras, acabam criando uma visão padrão, onde o povo pobre é visto como uma caricatura, um estereótipo.

DOIS MUNDOS

Diante desse discurso de persuasão, a intelectualidade cultural dominante, persuadindo as forças progressistas, acaba produzindo um mundo paralelo ao do real, fazendo com que coexistam, não sem conflitos ou contradições, dois mundos aparentemente integrados na causa esquerdista média.

Um mundo é o real, vivido pelas classes trabalhadoras, pelas populações pobres, pelos desempregados, pelos sem-teto e sem-terra, por pessoas que se manifestam contra a violência e contra o descaso do poder público. Um mundo sem fantasias, vivido pelas classes populares e que quase sempre é expresso pela dor, pelo sofrimento, pela tristeza e pela revolta.

Outro mundo é o fantasioso, da "periferia legal", do povo pobre que vai que nem gado para o galpão mais próximo consumir o sucesso radiofônico do momento, mas que oficialmente é tido como "sua expressão artístico-cultural". Uma pretensa "cultura popular", risonha e quase debiloide, mas acima até mesmo do que se pode supor da alegria do povo pobre.

Esse segundo mundo é o da imbecilização cultural, que a própria intelectualidade cultural que predomina em nosso país tenta definir de forma glamourizada, como se fosse a "felicidade popular". Promovem uma visão estereotipada do povo pobre como se fosse uma imagem "autêntica", e até se armam de um discurso de defesa por vezes choroso, por outras raivoso.

Desse modo, classificam como "preconceituosos" os questionamentos a esta suposta cultura popular, e criam um discurso que faça com que tais questionamentos sejam vistos como manifestações exclusivas de elites tidas como retrógradas, elitistas, saudosistas, idealistas etc.

Só que "idealistas" são os intelectuais pró-brega. Eles é que idealizam a imbecilização cultural como algo "libertário", e faz com que aberrações como a lacrimosa defesa do "funk" e o ato de creditar uma inócua canção de axé-music como "protesto esquerdista" aconteçam dentro de uma esquerda viciada que, na prática, serve para o recreio risonho dos piores direitistas.

Daí a preocupação com essa hegemonia de pensamento. É desagradável, sim, pôr em xeque a reputação de alguns esquerdistas por causa de posições duvidosas adotadas. Talvez seja até por boa-fé. Já questionei outros esquerdistas a respeito, causando o mesmo efeito.

As esquerdas médias se assustam com a realidade. Num primeiro momento, se aliam à intelectualidade alienígena encharcada de Fernando Henrique Cardoso, Otávio Frias Filho e Francis Fukuyama na sua abordagem ideológica. Aí adotam visões caricatas sobre cultura popular. Quando criticadas, se assustam e se recolhem na tristeza.

O que as esquerdas devem perceber é que suas posições sobre a cultura popular divertem os mais reacionários. Por isso Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo ou outro qualquer se divertem com isso. E olha que eles nem estão aí com a cultura popular de verdade. E, nesse cabo-de-guerra entre o elitismo extremo-direitista e o populismo brega de (pseudo) esquerda, a cultura brasileira é a que mais sai prejudicada, deixando o povo pobre ainda mais pobre.

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