quarta-feira, 6 de novembro de 2013

AS ARMADILHAS DA INFÂNCIA E A QUESTÃO DOS TEMPOS


Por Alexandre Figueiredo

A mídia publicitária faz suas artimanhas. Como efeito da economia neoliberal, que exige da sociedade o consumismo absoluto, as crianças tornam-se altamente vulneráveis a esse esquema persuasivo, de manipulação de comportamentos, de instintos, de interesses.

No Brasil, isso se torna cada vez mais evidente, e um exemplo recente disso tudo é o comercial da marca de sapatos Couro Fino, em que aparece uma menina com poses provocativas usando os calçados de mulher adulta.

A ideia do comercial é impulsionar a criançada a esse consumismo. Projeta-se o mundo adulto nas crianças. Estas são induzidas também a contemplar um mundo "sensual", e sabe-se que as crianças não são desprovidas de instintos sexuais, mas não possuem exata consciência das mesmas e não podem ser estimuladas a desenvolvê-los da mesma forma que os adultos.

A perda da infância mental já provocou estragos no país. Vide o fenômeno Xuxa Meneghel, em que uma ex-atriz pornô é transformada em uma apresentadora infantil apta muito menos para educar a criançada do que a empurrá-la para um projeto ideológico de consumismo e assimilação precoce de valores adultos.

A partir disso, quem era criança por volta de 1985 e 1987 era estimulada a consumir produtos comprados por pais desavisados. Era época em que a educação familiar era subestimada numa sociedade em crise. Os pais não se relacionavam afetivamente com filhos e achavam que era só dar festinhas todo fim de semana iria resolver qualquer possível conflito familiar.

Não resolveu. Duas décadas depois, o que se viu foi uma geração de jovens que, no começo do século XXI, passou a sentir obsessão doentia por festas noturnas e por toda sorte de instintos que os faziam reagir, nos momentos adversos, de formas que variam desde a simples trolagem na Internet até mesmo crimes violentos.

Essas pessoas não se preocupavam em aprimorar suas inteligências, sua compreensão de mundo mais abrangente e crítica, nem mesmo um espírito de garimpagem cultural, já que nem a boa curiosidade essas pessoas foram estimuladas a ter.

Em compensação, esses jovens se entregavam à bebedeira, às emoções baratas, ao consumismo tecnológico, às noitadas frequentadas até mesmo nas vésperas de dias de aula ou mesmo de provas de concursos públicos, ao fanatismo esportivo e ao fanatismo midiático no qual só valem o time de seu coração vencer uma partida e a "fórmula de sucesso" da mídia.

Tudo isso veio de uma manipulação midiática na infância, em que cidadania era letra morta mencionada em palanques eleitoreiros ou em promessas de gabinete. Na vida comum, o que se via era apenas uma relação meramente econômica, de compras exageradas, de consumo extremo, enquanto valores morais e sócio-culturais eram postos ao "deus-dará".

Com todo um mecanismo que envolveu o Xou da Xuxa nos anos 80, o erotismo vulgar e explícito do É O Tchan nos anos 90 e o "funk" depois disso, as crianças foram usadas para unir obsessão pelo consumismo com impulsos emocionais dos mais diversos.

O É O Tchan havia se tornado uma aberração em que os integrantes usavam trajes com cores aberrantes e uma certa astúcia pseudo-infantil para atrair o público infantil para o consumismo e os impulsos emocionais, num processo ainda mais perverso do que Xuxa apresentava sob as bênçãos da Rede Globo.

Era constrangedor ver, mesmo nas melhores famílias, pais desavisados tocando os sucessos do É O Tchan em festas infantis, enquanto estimulavam seus filhos a rebolar a "suingueira", e as filhas se espelharem em Carla Perez e nas Sheilas como modelos a serem seguidos.

Mas, para piorar, o "funk carioca" e sua blindagem intelectual completava a tarefa nociva, dando um verniz de "movimento cultural" e "ativismo social" à manipulação dos instintos infantis. A indústria cultural, através desses três "fenômenos", destrói infâncias através do consumo que enriquece os empresáros envolvidos, indiferentes aos valores morais.

Não se estimula a inteligência, a cautela emocional, a curiosidade equilibrada com o senso crítico. Produz-se gerações iludidas, que justificam de forma obtusa seus instintos. Daí o quadro um tanto surreal das gerações mais recentes de jovens adultos, dentro de um quadro de degradação sócio-cultural.

Pessoas que se julgam "inteligentes" por nada e expressam a pior estupidez. Se julgam "diferenciados" manipulados pelos modismos e por tudo que a mídia determina. São incapazes de questionar o "estabelecido", seja na mídia, na política, na publicidade etc, mas reagem com fúria quando os valores em que eles acreditam são questionados por outro alguém.

Tais pessoas tornam-se confusas na sua overdose de informações, no seu consumismo obsessivo. Não têm ideia do que é realmente a solidariedade, acham apenas que ela se limita ao "coleguismo" nas boates, bares e estádios de futebol, nos seguidores das redes sociais digitais, ou no assistencialismo frio das doações materiais feitas por mera obrigação social.

São reacionários que pensam que são "progressistas", variando entre o neocon enrustido, pseudo-esquerdista, e o neocon assumido, tido como "independente" (eufemismo para pessoas claramente direitistas). Ideologicamente confusos, são capazes de bajular Che Guevara ao mesmo tempo em que expressam sua admiração por Yoani Sanchez.

Por isso, os efeitos das infâncias roubadas são devastadores, principalmente na vida adulta. Adolescentes impulsivos, adultos prepotentes, "coroas" apáticos. Os tempos mudam, se transformam, e pessoas ficam impotentes e reacionárias, enquanto acumulam desilusões, tragédias, conflitos, coisas que seus impulsos fantasiosos não os preparam para encarar.

Daí as notícias criminais de sempre. Daí a Internet cheia de gente reacionária surpreendentemente travestida de moderna. Daí as gírias produzidas artificialmente pela mídia (como "balada" e "galera"), que tentam estar acima dos tempos e das pessoas, traindo sua própria condição de colóquios provisórios.

Daí a obsessão pelo presente que se dissolve feito castelos de areia. A ideia ilusória do futuro como uma extended version do presente, a reação furiosa com imprevistos, a posterior desilusão que deixa os antigos jovens no silêncio da meia-idade ou na melancolia já na faixa dos 35 anos.

Tudo isso começou em festinhas infantis com discos de Xuxa, Absyntho, Dr. Silvana, Dominó e Menudo. Tudo isso começou pela erotização precoce e descontrolada pelos produtos da mídia. Tudo isso começou com o estímulo ao consumismo, em estruturas familiares sem afeições verdadeiras, sem educação digna, sem construção de valores sólidos.

Daí a mediocridade. Daí o cinismo. Daí a estupidez. Daí o pretensiosismo. Problemas que os executivos da mídia e da publicidade não percebem. O que eles querem é o maior lucro possível. E, infelizmente, construir valores sociais e gerações preparadas para o futuro não está na pauta dos detentores do poder midiático e mercadológico, apenas porque não geram lucro imediato.

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