sábado, 2 de novembro de 2013

A INCOMPREENSÃO QUANTO AOS TRUQUES DA "CULTURA DE MASSA"


Por Alexandre Figueiredo

O que são as esquerdas médias. No Facebook, na comunidade Socialista Morena, de Cynara Menezes,foi mostrado o clipe do grupo de axé-music As Meninas, aquele sucesso de 1999 chamado "Xibom Bombom", e ele foi creditado como "canção esquerdista", apenas porque aparentemente descreve uma letra de protesto.

Deve ser a influência dos colunistas do Farofafá, abrigados no mesmo portal da Carta Capital da Socialista Morena, que empurram tudo que é breguice como se fosse algum movimento libertário. O que Pedro Alexandre Sanches, com seu jeito Francis Fukuyama de pensar a cultura brasileira, é capaz de fazer...

Reproduzi uma série de comentários, a maior parte deles entre ingênuos e engraçadinhos, a respeito da música, de autoria de Rogério Gaspar e do empresário Wesley Rangel, dentro daquela linha mercadológica de "canção de protesto", feita de carona na comoção popular consequente da morte de Renato Russo, ocorrida poucos anos antes.

Os comentários foram escritos até a noite de ontem, e impressiona a ingenuidade dos internautas que imaginam que a música tem uma tese "quase marxista", numa letra tendenciosa feita apenas numa perspectiva de transformar a canção de protesto em mercadoria.






Eu tentei esclarecer o pessoal, é verdade, conforme se nota na lista de comentários. Mas o pessoal acredita mesmo que a canção é "de protesto mesmo". Claro, o Brasil não é um país de tradição socialista, e aqui até chiclete de bola, se for de sabor cereja, vira logo "socialista" ou "comunista". Como eu questionei, se for assim, a MC Donald's seria "comunista" só pela cor vermelha.

As pessoas não têm a menor ideia do que é "cultura de massa" no Brasil. Lá fora, o nível de desconfiômetro é tanto que, mesmo com uma reputação associada a causas libertárias, ninguém esconde que um dos músicos pioneiros, o falecido Johnny Ramone dos Ramones, era um reacionário doentio.

Lá fora, intelectuais sérios da Comunicação, do nível de Umberto Eco, não têm ilusões quanto ao processo de transformação dos fenômenos sócio-culturais em mercadoria. Estou lendo a História Social do Jazz, do saudoso historiador marxista Eric Hobsbawm, e ele mesmo admite que a indústria cultural é capaz de transformar até linguagens artísticas "difíceis" em mercadorias.

EMPRESÁRIO DE AXÉ-MUSIC PROMOVIDO A "NOVO VANDRÉ"?

O aspecto mais surreal disso tudo é que "Xibom Bombom", ao ser considerada "canção de protesto", acaba promovendo um influente e rico empresário de estúdios de gravação, Wesley Rangel, co-autor da canção, em um "compositor de protesto" como se ele tivesse o mesmo peso artístico de um Geraldo Vandré, por exemplo.

Os internautas ignoraram as intenções mercadológicas de trabalhar uma letra "de protesto" como forma de atrair os consumidores de baixa renda, uma letra que nada tem de espontânea, até pelo contexto que se tem desde os anos 80, quando a axé-music, o brega e a música infanto-juvenil pegaram carona no carisma de Renato Russo, o falecido vocalista da Legião Urbana.

Entre o sucesso do grupo brasiliense e o falecimento do cantor, entre 1987 e 1996 (e um pouco além desse ano), produziram canções diversas como "Tô P da Vida", gravada pelo Dominó e composta por Edgard Poças, "Boas Notícias", gravada por Xuxa, composta por Michael Sullivan e "Apocalipse", da fase brega de Roberto Carlos composto em parceria com Erasmo Carlos.

Na axé-music, além de "Xibom Bombom", tivemos os casos de "Feijão com Arroz", de Zé Paulo e cantada pelo próprio, do refrão "Chega de bobeira / Chega de bobagem / Já virou sacanagem", e no brega nortista, também tomado por empréstimo pela axé-music, há a música "Vermelho", de David Assayag, sucesso da banda Carrapicho.

Seriam elas também canções "esquerdistas"? Assim Reinaldo Azevedo se diverte com esquerdas assim, que fazem Rodrigo Constantino, lá das profundezas do Instituto Millenium, escrever um livro chamado Esquerda Caviar, se aproveitando de algumas debilidades observadas nas esquerdas brasileiras.

Na sociedade midiatizada e mercantilizada que é o Brasil, deveria-se ter cautela. Na música comercial, até letras "de protesto" ou de um ufanismo "esquerdista" - como "Vermelho" - soam bastante tendenciosas, não tendo a espontaneidade das verdadeiras canções de protesto.

Por isso, é risível que essas mesmas pessoas que acham que "Vermelho" e "Xibom Bombom" são "canções esquerdistas", acham Michael Sullivan o máximo de marxismo musical e pensam que o É O Tchan e o "funk" inauguraram o Modernismo venham esculhambar Chico Buarque, cantor que, em que pese seus erros pessoais, é muito mais substancial e, de fato, esquerdista.

"XIBOM BOMBOM" ROUBOU VERSOS DE CHICO SCIENCE

O que o pessoal também não sabe é que dois versos da música "Xibom Bombom" foram roubados da música "A Cidade", gravada cinco anos antes do sucesso do grupo As Meninas, pelo grupo pernambucano Chico Science & Nação Zumbi.

O grupo, que virou Nação Zumbi depois da morte de Science, fez muito sucesso com a referida canção, e, com uma letra bastante inteligente a respeito do cotidiano da vida urbana, colocava no seu refrão "A cidade não pára / A cidade só cresce / O de cima sobe / O de baixo desce".

Os dois últimos versos foram surrupiados por Gaspar e Rangel através da estrofe que antecede o refrão: "E o motivo / Todo mundo já conhece / E que o de cima sobe / E o de baixo desce", dentro de uma letra chavão sobre os "problemas sociais", de conteúdo crítico vago e genérico e que mais parece vindo de uma redação escolar medíocre.

Portanto, num país sem tradição socialista como o Brasil, percebe-se o deslumbramento de pessoas sem qualquer tipo de discernimento, fazendo Contracultura em copo d'água e procurando socialismo até em tinta guache vermelha. Isso é que é a esquerda que a direita gosta, e que dá a deixa para Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e companhia darem suas gargalhadas.

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