sábado, 9 de novembro de 2013

A FARRA DOS TECNOCRATAS PARA O BRASIL DE 2014


Por Alexandre Figueiredo

Ônibus com pintura padronizada de prefeituras e órgãos estaduais. FMs entregues ao blablablá e ao fanatismo futebolístico da Aemização. Ditadura midiática transferindo o poder para os barões das "novas mídias digitais". Cultura popular bregalizada. Cultura rock debiloide. Esquerdas médias domesticadas. Hidrelétricas prejudicando a biodiversidade e as populações indígenas.

O que isso tudo tem em comum? Tudo isso é fruto de uma visão tecnocrática que encontra seu auge no poder decisório brasileiro atualmente. No entanto, é uma linhagem que se ascendeu a partir de 1974, combinando a visão tecnicista e burocrática herdada do "milagre brasileiro" da Era Médici com o fisiologismo político-institucional que veio em seguida.

É uma geração que se formou desde os bastidores tecnocráticos de 1967, sob o governo do general Costa e Silva, até os bastidores político-acadêmicos que, em São Paulo, foram comandados pelo PSDB e por seus representantes oriundos da USP.

É uma geração que vai desde o arquiteto Jaime Lerner até o antropólogo Hermano Vianna, passando por nomes diversos que variam de Ricardo Teixeira ao baiano Mário Kertèsz, ou mesmo incluindo gente abertamente direitista como Reinaldo Azevedo e Otávio Frias Filho.

São os chamados "donos do Brasil" que tentam manipular vários setores da realidade brasileira em nome de interesses econômicos supostamente "modernos" que não trazem benefícios reais para a população, mas são anunciados como se trouxessem.

São diversos setores. Rádio, telefonia digital, Internet, jornalismo, mobilidade urbana, cultura popular, cidadania, entre outros. Todos afetados por conceitos que apresentam alguma restrição ou malefício, mas que são impostos como "sacrifícios necessários" ou "transtornos previstos" que supostamente seriam feitos para o "bem-estar da população".

Os malefícios ocorrem claramente. Na mobilidade urbana, a pintura padronizada dos ônibus é uma medida confusa até mesmo no que se diz à representatividade do transporte coletivo, já que prefeituras ou órgãos estaduais se julgam "donos" de frotas de ônibus que, na verdade, pertencem a empresas particulares.

As prefeituras e órgãos estaduais, na medida em que impõem suas imagens às empresas de ônibus - estas desprovidas de apresentar suas imagens para o reconhecimento fácil dos passageiros - , se apropriam das frotas de ônibus que não lhes são suas, só que isso faz com que as empresas, camufladas pela pintura padronizada, cometam mais irregularidades.

Mas o festival de irregularidades que apenas um ato de colocar diferentes empresas de ônibus sob a mesma pintura envolve infrações legais sérias, que o meio jurídico não consegue ainda compreender, como a violação do Código de Defesa do Consumidor no seu artigo 39, inciso IV, pois a pintura padronizada se impôs se valendo do desconhecimento do consumidor (no caso, o passageiro de ônibus) em relação aos malefícios da medida imposta.

No âmbito da Comunicação, enquanto o governo Dilma Rousseff se recusa a implantar a regulação midiática, permite assassinar o rádio AM transferindo as emissoras para o espectro do rádio FM. Isso provocará uma concorrência desleal, uma dança das cadeiras, radicalizando um processo que há muito fez decair drasticamente o rádio brasileiro.

O rádio FM tornou-se um balcão de negócios de oligarquias empresariais, além de ter virado um cemitério de boas ideias e boas emissoras. A Aemização já vinha em curso, com a fórmula superfaturada da dupla transmissão AM/FM, em que duas emissoras diferentes (a AM e a FM) transmitiam a mesma programação, atuando como se fossem uma emissora e recebendo subsídios estatais como se fossem duas. Em outras palavras, faturam em dobro por um único trabalho.

Agora, com a morte anunciada do rádio AM, a dupla transmissão terminará, mas a essas alturas o coronelismo radiofônico, associado a interesses de empreiteiros, dirigentes esportivos, latifundiários e "caciques" políticos, fará do rádio FM o reduto do mais escancarado comercialismo, o mesmo que abateu a TV aberta nos últimos 20 anos.

Culturalmente, a tecnocracia faz de tudo para domesticar a juventude brasileira e o povo pobre em geral. Ainda no rádio, a deturpação do formato de rádio de rock, através de emissoras como a 89 FM de São Paulo - cujos donos não conseguem esconder que são amigos de gente como Geraldo Alckmin e Eike Batista - é um fator para transformar o jovem brasileiro numa pessoa conformista e conservadora, reduzindo a rebeldia apenas na aparência.

Quanto ao povo pobre, a supremacia da bregalização cultural transformou o povo pobre numa caricatura que nem mesmo os programas humorísticos conseguem desenvolver. Ver os olhares patéticos e debiloides de muitos ídolos de ritmos diversos, como o "funk", o tecnobrega e o "forró eletrônico", cujos cantores são desprovidos de ter opinião própria e uma visão crítica e analítica do mundo, é estarrecedor.

Só que mais estarrecedor ainda é a blindagem intelectual que se forma para tentar legitimar a bregalização como se fosse "a verdadeira cultura popular". Seus intelectuais usam o pretexto da "diversidade cultural", tal qual os economistas neoliberais falam em "livre iniciativa" e "livre mercado" e a imprensa reacionária fala em "liberdade de expressão" ou "liberdade de imprensa".

Mas o pior é que o discurso intelectual em prol da bregalização do país é feito no campo adversário, tentando seduzir ao máximo as forças progressistas, como mascates que querem empurrar um "remédio placebo" para fregueses que não precisariam disso para curar suas doenças.

Mesmo o governo de Dilma Rousseff, que poderia ter sido fiel às causas progressistas como um todo, em muitos aspectos cede ao poderio tecnocrático, às corporações midiáticas e ao poderio econômico. Daí que a presidenta acaba adotando medidas nada progressistas, o que faz o governo, ainda que continue sob ampla aceitação da população, seja bem menos aceito do que poderia.

A farra tecnocrática quer criar um Brasil de plástico, de brinquedo, para a ostentação turístico-publicitária em 2014. Um país em que ônibus de empresas particulares mal conseguem exibir os nomes das mesmas, enquanto usam a mesma pintura imposta por prefeituras ou órgãos estaduais.

Ou então um país em que meros estúdios de FM se acham acima da sociedade a ponto de sobrecarregá-las com overdose de informações, com o tendenciosismo jornalístico e esportivo e com arremedos de "grandes comunicadores" que cada vez mais fazem os verdadeiros grandes comunicadores aposentarem seus microfones.

Ou então um país de roqueirinhos irritadinhos que aceitam tudo que suas rádios e a TV em geral impõem para eles pensarem e falarem, ou então as classes populares domesticadas cometendo alegremente suas gafes em programas de auditório.

Enquanto isso, existe a supremacia de empresários, jornalistas, radialistas, cientistas sociais, políticos, arquitetos, entre outros, que não estão aí com os interesses populares mas se julgam acima e a favor dos mesmos.

Todo mundo visando permitir a corrupção nos bastidores, a supremacia tecnocrática sobre o interesse público e a hierarquização das autoridades e dos especialistas, mesmo naquilo em que eles se mostram incompetentes.

Será um Brasil desenhado "de cima", decidido do alto de escritórios refrigerados e das fictícias amostras planejadas em modernos computadores laptop. O poder técnico, político e econômico se impondo sobre o interesse público que se reduz a letras mortas das promessas dos especialistas e autoridades. Um Brasil que só serve para atrair mais dinheiro. Só que esse dinheiro não irá para as mãos do povo.

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