quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SE A MPB VETA BIOGRAFIAS NÃO-OFICIAIS, NÃO SERÁ O BREGA A DEFENDER A LIBERAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

O caso Procure Saber provocou um terremoto na cultura brasileira, de grandes proporções. Oficialmente, a intelectualidade cultural dominante tenta se salvar do escândalo, mas se os medalhões da MPB saem feridos no episódio, os intelectuais também não saem incólumes.

A cada momento se revelam erros, irregularidades e outros transtornos. A própria intelectualidade pró-brega ainda não conseguiu engolir a decadência do "forró eletrônico" e do "funk carioca", resultantes não de uma suposta campanha aritocrático-moralista, mas do próprio clamor popular que a intelligentzia imaginava ser completamente favorável aos ritmos do grotesco "popular".

Hoje eles, abandonados por Gilberto Gil, o mecenas da bregalização politicamente correta, o esculhambam numa reação completamente inversa à de outrora, quando o cantor baiano era ainda a única esperança da "gororoba geral" - a "geleia geral" desprovida de qualquer viés contestatório, ou a "problemática" sem problemas da cultura brasileira - para tais intelectuais.

Tudo cai numa bomba e não será Pedro Alexandre Sanches nem Paulo César Araújo que defenderão as extensões culturais da regulação midiática. Até porque eles são crias e herdeiras informais do poder midiático: o "filho da Folha" e o "consultor de brega da Globo".

ATÉ BREGAS EXERCEM RIGOR NO USO DE IMAGEM

Eles e seus consortes tentam dar a impressão de que somente os medalhões da MPB envolvidos com o Procure Saber vetariam  as biografias não-oficiais, e que os ídolos do brega e derivados seriam completamente libertários na produção de biografias.

Grande engano. O rigor no zelo de imagem entre os bregas é ferrenho, e o caso de Waldick Soriano - cujos partidários tentaram esconder a personalidade conservadora do finado cantor - é bastante ilustrativo, mas não é o único.

Paulo César Araújo que o diga do caso da dupla Zezé di Camargo & Luciano, que o historiador dos bregas julga "muito sofisticada". A dupla - que fez dueto, em bom grado, com o "algoz" de Araújo, o cantor Roberto Carlos - fez uma biografia "adocicada" que virou o filme Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira, a menina dos olhos do dirigismo intelectual brasileiro.

E o cantor Alexandre Pires, amigo e colega da cena neo-brega de "sertanejos" e "pagodeiros" dotados de pieguice, amigo de Zezé di Camargo & Luciano, cantor que se apresentou até para George W. Bush apadrinhado por um casal (cantora e produtor) cubano anti-castrista, é potencialmente mais ligado à turma do Procure Saber.

Alexandre Pires ameaçou processar a revista Exame Vip por conta de uma piada sobre ele, quando ele namorava a dançarina Sheila Mello (hoje esposa de um ex-esportista). Contraditoriamente, é o mesmo cantor que adota letras jocosas de cunho preconceituoso através de músicas como "A Barata" e "Kong", que, ironicamente, rendeu processo judicial contra o cantor.

Imagine então o zelo que o novamente líder do Só Pra Contrariar terá nas biografias. Da mesma forma, outros ídolos "populares" também terão o mesmo rigor. Mas, para a intelectualidade, neste caso vale até criar abordagens fantasiosas, porque o pretexto do "popular" absolve qualquer erro, se criar uma imagem "limpinha" para a MPB é deplorável, para o brega torna-se "admirável".

Alguém acha que Netinho de Paula irá permitir uma biografia que destaca suas agressões contra sua ex-mulher? E mesmo o dirigente funqueiro, MC Leonardo, aceitaria ser definido, por algum biógrafo não-oficial, como um "menino de recados" dos barões da grande mídia?

E Leandro Lehart, alguém acha que ele também não exerce rigor no zelo biográfico? Belo iria permitir uma biografia que cita sua amizade com traficantes cariocas? O É O Tchan deixaria veicular uma biografia que associa as músicas do grupo à pedofilia? E os escândalos sexuais de DJ Marlboro, ele deixaria passar numa biografia não-oficial?

Ou então o ricaço Bell Marques, da banda Chiclete Com Banana, um dos mais ricos grupos do entretenimento baiano - mas que, ideologicamente, são "pobres de marré de si", segundo a simbologia "popular" da intelectualidade dominante -  também zela com rigor por sua imagem, não deixaria passar biografias que lhe falassem de sonegação fiscal e exploração de músicos.

Claro que deve-se evitar abusos. Mas o problema é que essa raivinha intelectual contra o Procure Saber tem muito mais a ver com uma mágoa pessoal contra aqueles que fazem MPB de qualidade e "chegaram lá" do que de apontar erros que estes, seres humanos que são, cometem no meio ou sentados na beira do caminho.

O problema, portanto, está muito menos em querer evitar a exploração sensacionalista das biografias, de um lado, ou a transformação das mesmas em contos de fadas, de outro. A questão é que isso criou uma violenta crise na cultura que deixa igualmente nus os "reis" da MPB e os "pensadores tarimbados" de nosso país.

A MPB mainstream não quer que divulguem seus próprios erros. A intelectualidade pró-brega, por sua vez, não quer que divulguem os erros de seus ídolos bregas. Há um medo comum, que une Paulo César Araújo e Roberto Carlos, Pedro Alexandre Sanches e Caetano Veloso. Um único medo, com matizes levemente diferentes.

Ambos acabam lutando contra um inimigo só, a memória da cultura brasileira. Criam um pretenso maniqueísmo ideológico, inventando heróis ou vilões conforme o interesse da "classe". Supondo zelarem pela cultura brasileira, apedrejam a sua memória, nos dois lados.

Não há heróis, não há maniqueísmos. O que há é uma grande crise nas elites musicais e intelectuais que, em tese, assumiram o compromisso de guiar os caminhos da cultura brasileira. Uma crise violenta, que põe em xeque uma linha de pensamento associada ao comercialismo, que une "procure-sabedores" e "farofa-feiros".

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