quarta-feira, 16 de outubro de 2013

ROCK E SEUS "MARCA-PASSOS" RADIOFÔNICOS

OZZY OSBOURNE MOSTRA BANDEIRA DO BRASIL EM PALCO ARGENTINO. TÃO ERRADO QUANTO "RÁDIOS ROCK" COM LOCUÇÃO TIPO JOVEM PAN 2.

Por Alexandre Figueiredo

Contrariando tendências prováveis, começa a circular a notícia de que a Rádio Cidade, a exemplo da 89 FM de São Paulo, irá voltar a explorar o perfil "roqueiro" - prestem atenção nas aspas - , colocando mais um marca-passos para o enfraquecido mercado roqueiro, desta vez no Rio de Janeiro.

A Rádio Cidade - que o jornalista Luiz Antônio Mello, criador da Fluminense FM, sabiamente definiu como "estelionato cultural" - havia voltado ao ar, apenas com vitrolão pop, depois que a Jovem Pan 2, que havia entrado nos 102,9 mhz do dial FM carioca, saiu do ar há alguns dias.

Especulava-se que a Jovem Pan 2 voltaria, não mais controlada pela antiga franqueadora, que faliu, nos mesmos 102,9, mas havia a chance de negociação se o controle seria diretamente de Tutinha, dono da JP Sat, ou pelo Sistema Rádio Cidade, dona da outorga da emissora.

Há também suspeitas de que o Grupo Bandeirantes de Comunicação transferiria a Bradesco Esportes FM - emissora do tipo "Aemão de FM" - dos 91,1 mhz para os 102,9, para colocar no lugar da primeira a popularesca Band FM.

A "boa notícia" da Rádio Cidade supostamente roqueira - rádio que era reduto da juventude de extrema-direita do Rio de Janeiro - mostra o quanto o rádio FM vive no seu mundo fantasioso e imagina que está em alta. Enquanto isso, a vida real mostra o quanto o povo hoje cada vez menos depende do rádio FM para seu lazer e entretenimento.

No âmbito do radialismo rock, nem se fala. O público de rock, aquele público autêntico que não se contenta em pensar que o paradigma de rock clássico está no poser metal, e que não se contenta com o feijão-com-arroz dos mesmos sucessos dos anos 90 para cá, há muito está distante do rádio FM. E a volta da 89, em São Paulo, não representou um reaquecimento da cultura rock no país.

89 FM e JOVEM PAN 2 TÊM O MESMO PÚBLICO

Quem curte rock continua curtindo rock como sempre curtiu. O pessoal vai ver Black Sabbath e Iron Maiden sem dar ouvido algum à rádio. Tais grupos já possuem fãs-clubes bastante articulados e entrosados, e a Internet já dá uma farta gama de informações para os fãs.

Como fenômeno de mídia, a cultura rock não consegue ter a mesma popularidade de antes e, no rádio, a 89 FM não consegue a menor representatividade no segmento rock, mas apenas serve para "dar uma folga" nas audições pop dos mesmos ouvintes da Jovem Pan 2, Energia 97 e Metropolitana FM.

A 89, por sua linguagem e mentalidade, tem exatamente o mesmíssimo público das rádios "poperó". Isso é fato, e é uma tendência mundial, vide o pop internacional cheio de nomes híbridos entre o roquinho convencional e o pop mais escancarado.

Afinal, depois que, nos anos 90, jovens passaram a curtir tanto Alanis Morrissette e Jennifer Lopez, Offspring e Backstreet Boys, Guns N'Roses e Michael Jackson, surgiram nomes "híbridos" entre uma tendência e outra, como Shakira, Kelly Clarkson, Pink e tantos outros. Lady Gaga é tão "transgressora" quanto o Offspring, e há faixas "roqueiras" até no N'Sync e Big Time Rush.

NÃO SERIAM CERTOS "AMIGOS"?

A grande pergunta é que, com tanta rádio de rock para voltar, por que sempre voltam as piores? Por causa da melhor estrutura empresarial? Credibilidade é que não, apesar dos fanáticos fazerem muito barulho na Internet em favor da 89 FM e da lamentável fase "roqueira" da Rádio Cidade, que em 1995-2006 havia se tornado um "Jair Bolsonaro de FM".

A 89 voltou a ser aquela rádio "queimada" em 2005-2006, e não será diferente com a Rádio Cidade. Game shows, locução "putz-putz", gírias clubber, besteirol e até programas de mesa redonda de futebol (?!) voltarão a aparecer ao lado de talk shows com celebridades qualquer nota prestando consulência a qualquer pretexto supostamente "roqueiro".

Imagine Anitta, por exemplo, falando sobre rock? E alguma filha de Silas Malafaia falando sobre o que entende por rock pesado? E o Neymar, que mal consegue sair de seu cardápio musical de funqueiros e sambregas, dando algum pitaco sobre rock? E algum ex-BBB saindo de seu quase ostracismo?

Além disso, a volta da 89 FM só favoreceu, mesmo, os verdadeiros interessados na empreitada: empresários, políticos, dirigentes esportivos, empreiteiros, gente que não entende um único acorde de guitarra sequer e tenta interferir na cultura rock em busca de alguns trocados.

Os donos da 89 são amigos de Geraldo Alckmin, José Maria Marin, Ricardo Teixeira, Eike Batista, Roberto Medina, dos filhos de Roberto Marinho e Roberto Civita, de Otávio Frias Filho. Qual roqueiro autêntico, realmente rebelde, irá dar ouvidos a uma rádio dessas?

"RÁDIOS ROCK" SERVIRIAM PARA "ABAFAR" MOBILIZAÇÕES POPULARES

Na sua experiência "roqueira", a Rádio Cidade promovia um reacionarismo cultural, por debaixo dos panos "roqueiros", que faria Carlos Lacerda ficar boquiaberto. Nos fóruns da Rádio Cidade, anos atrás, os "rebeldes" pregavam contra a leitura de livros, esculhambavam bandas de rock históricas como Police, Who e Led Zeppelin e pediam o fechamento do Congresso Nacional.

O que pode pesar na volta das "rádios rock" é que o empresariado radiofônico planeja uma forma sutil de tentar abafar as mobilizações populares, criando rádios que, embora supostamente sirvam de espaço de expressão de rebeldia, na verdade sejam uma maneira sutil, embora não-assumida, de abafar tais mobilizações.

Elas nem de longe estão preocupadas em renovar a cultura rock. Tanto que voltaram tão ruins e até piores do que eram em 2006. E, se naquela época havia a supremacia absoluta da mídia, sobretudo imprensa e rádio, hoje criar uma "rádio rock" naqueles moldes caricatos dos anos 90 soa como uma experiência suicida.

O mundo gira, e hoje uma gama enorme de artistas de rock está mais presente no YouTube e em portais de vendas na Internet, com uma facilidade enorme de modos de pagamento, que fazem uma pessoa só sair de casa para ir ao banco pagar o boleto e adquirir aquele disco raro de rock que comprou do exterior, recebendo o disco em um curto prazo.

Ninguém mais tem paciência de ouvir rádios tocando os mesmos sucessos, sobretudo quando locutores falam em cima das músicas, essas são cortadas no final, e ainda os radialistas adotam aquela voz afetada tipo "locutor de Jovem Pan 2" que irrita os roqueiros. Ninguém mais se ilude com vinhetas "iradas" em que um cara parece estar arrotando quando pronuncia a palavra "rock".

Por isso, para que ouvir essas "rádios rock" que só tocam 1% de tudo o que é produzido na história do rock? São rádios de gente reacionária, preconceituosa e incompetente. A antiga supremacia midiática está em xeque, e o rádio FM, que mais sofre com isso e decai mais do que a mídia impressa, se recusa a admitir isso.

Talvez seja o fato de que seus responsáveis estejam trancados demais em seus escritórios e estúdios. Eles precisam sair às ruas para respirar um pouco. Sobretudo os "ezecutivos" das "rádios rock", que a julgar pela linguagem adotada, acham mesmo que ouvintes de rádios poperó e rádios de rock são todos iguais.

Indo para as ruas, eles perceberão que o saudoso mundinho das "rádios rock" da ditadura midiática está ruindo, e que a volta das emissoras que marcaram os anos 90 só dará na mesma persistência reacionária que vemos na revista Veja. Só voltarão para dizer que "ainda existem". Têm medo de virar passado, porque, extintas, só terão como herança o esquecimento.

Enquanto isso, os roqueiros de verdade mantém o rádio desligado, voltados mais para a Internet, para sua coleção de discos e para suas livres seleções pessoais de MP3.

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