quinta-feira, 17 de outubro de 2013

ROBERTO CARLOS ABRIU CAMINHO PARA A BREGALIZAÇÃO DO PAÍS


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante anda indignada com Roberto Carlos, por razões já aqui apresentadas. Mas, anos atrás, os mesmos intelectuais endeusaram o cantor capixaba, intermediado por seu "semi-deus" da época, Caetano Veloso, que definiu o ídolo da Jovem Guarda como o cantor que modernizou a cultura brasileira.

Roberto Carlos, na melhor das hipóteses, é reconhecido como o homem que popularizou a guitarra elétrica no Brasil. Na pior delas, é visto como um homem politicamente conservador, fanaticamente religioso e que, depois de uma boa fase soul nos anos 70, abriu caminho para a bregalização do país.

A rigor, Roberto nunca foi um cantor brega, apesar do sobrenome Braga render trocadilhos maldosos. Mas, como o Elvis brasileiro - cuja diferença em relação ao ídolo estadunidense está na jovialidade do cantor capixaba - , sucumbiu a um comercialismo e conservadorismo que quase puseram a carreira a perder.

Quer dizer, Elvis não teve tantos danos artísticos assim, mas pagou com a vida sua submissão às pressões do show business. Mas Roberto, se ficou longevo - hoje tem 72 anos de idade e continua ativo - , pagou a mesma submissão com uma queda de qualidade artística que se tornou explícita sobretudo na década de 80.

Se Elvis teve seu "coronel" Parker, Roberto teve a Rede Globo. Ela praticamente domesticou o Roberto recém-saído das ousadias soul, que, dizem, despertava ciúmes até no antigo amigo de infância, Tim Maia.

Roberto passava mais a imagem de cantor romântico, mas após uma simpática, mas moderada, aventura musical no rock, tornou-se um soulman pouco destacado, mas que pode ser notado em canções como "Jesus Cristo", "Sentado à Beira do Caminho", "Detalhes", "As Curvas da Estrada de Santos", "O Portão", "Todos Estão Surdos" e as covers de "Outra Vez", de Isolda, e "Não Vou Ficar", de Tim Maia.

No entanto, o sucesso de Roberto, aliado ao perfil conservador, puxou uma geração de cantores imitadores que tentavam copiar o "inimitável". E aí nomes que a intelectualidade hoje classifica como "libertários", como Odair José, Paulo Sérgio e, mais tarde, Amado Batista e José Augusto, nada seriam se não fosse o "Rei".

A própria Jovem Guarda se fragmentou em dois caminhos. Um é a adesão de muitos de seus artistas à sofisticação sonora, seja radicalizando no rock, seja assimilando influências de sambalanço, sugerindo a influência das relações sócio-culturais com Jorge Ben (Jor) e Mutantes.

O outro caminho partiu para o romantismo mais escancarado, e foi aí que entrou a segunda geração de ídolos cafonas, que sucedeu à primeira, a de Waldick Soriano, que representou um arremedo tardio e um tanto caricato dos antigos cantores de serestas de tempos atrás.

A segunda geração cafona - que estaria em voga quando o termo brega surgiu, nos anos 70 - veio através de Dom e Ravel, Odair José, Paulo Sérgio, Luiz Ayrão, Benito di Paula, Luís Américo e, um pouquinho mais tarde, Mauro Celso, o cantor-autor de "Farofa-fá" e "Bilu Teteia".

De uma forma ou de outra, se a primeira geração cafona parodiava os seresteiros do passado, a segunda geração cafona transformava a psicodelia e o espírito dos anos 60 numa piada. Na prática, a segunda geração de ídolos cafonas equivaleu rigorosamente aos ídolos comportadinhos que quase puseram o rock a perder no final da década de 1950.

Se o fenômeno Elvis resultou em pasteurizadores como Pat Boone, Neil Sedaka, Paul Anka, Ricky Nelson e Bobby Darin e, pouco depois, Chris Montez e Johnny Rivers, o fenômeno Roberto gerou Odair José, Paulo Sérgio, Dom e Ravel, Benito di Paula, e pouco depois Mauro Celso, Amado Batista etc.

Numa comparação mais exata, Odair José é o nosso Pat Boone, ambicioso mas conservador. Com as diferenças de contexto, Benito di Paula é o nosso Paul Anka, com alguma sorte de se tornar um hitmaker eficaz. E se Bobby Darin imitava Elvis, Paulo Sérgio imitava Roberto.

Mauro Celso, neste caso, seria uma espécie de Chris Montez mais abobalhado, com trajes psicodélicos que mais parecem terem saído de roupas não-aproveitadas no seriado Família Dó-Re-Mi (The Patridge Family) mas teve um destino trágico quase parecido com o de Ricky Nelson, mortos em acidente de trânsito (Ricky num avião e Mauro num automóvel).

A bregalização aberta por Roberto, no entanto, se tornaria mais evidente no meio dos anos 70. Se os arremedos de sambalanço que animavam o "milagre brasileiro" influenciaram a criação de pastiches de ritmos regionais na música brega - como os ritmos paraenses que surgiram na época - , prenunciando o que ocorreu em larga escala nos anos 90, a domesticação de Roberto ajudou mais ainda na bregalização do país.

Foi Roberto, por exemplo, que impulsionou a ascensão de ídolos cafonas que começaram a fazer um som exportação. Convenhamos: o brega só tem algum compromisso com a brasilidade na imaginação fértil e chorosa de Paulo César Araújo e seus amiguinhos, porque na verdade o brega segue a mesma mentalidade entreguista conhecida através de Roberto Campos e de sua tradução repaginada em Fernando Henrique Cardoso.

Isso porque Roberto Carlos passou a simbolizar uma música brasileira "higienista", "asséptica", defendida pelos executivos da Rede Globo e das grandes gravadoras. De um lado, isso provocou a domesticação da MPB autêntica que causou impacto até 1976 por sua surpreendente qualidade e impacto sócio-cultural e artístico. De outro, deu "requinte" à música brega feita até então.

Daí que há uma canção-símbolo desse processo todo, como se fosse a "comemoração" de um crime. Pois o "crime perfeito" da bregalização da MPB se chama "Amor Perfeito", cujos autores e intérprete original estavam juntos no processo de pasteurização da MPB e na criação dos problemas existentes até hoje.

A música foi composta por Lincoln Olivetti e o já falecido Robson Jorge, que pasteurizaram a MPB autêntica, juntamente com Michael Sullivan (ex-Fevers e um dos "estrangeiros" que seguiram a linha de Morris Albert) e Paulo Massadas, que "embelezaram" a música brega. Como intérprete, o mesmo Roberto Carlos hoje considerado vilão no episódio da repressão às biografias não-oficiais.

Roberto ainda gravou "Caminhoneiro", composição sua e de Erasmo Carlos, um country muito inferior ao que Roberto poderia fazer nos anos 70, que abriu caminho para a entrada dos breganejos - que já reduziram a estrume a antiga música caipira feita no país - , que por sua vez trouxeram de carona os ídolos sambregas.

Com isso, vieram também o "forró eletrônico", o "arrocha", e cresceu a axé-music, já favorecida pelos subsídios do "coronel" baiano Antônio Carlos Magalhães. Foi ele que ajudou no crescimento de ídolos como Luiz Caldas, Ivete Sangalo, Chiclete Com Banana e Asa de Águia, confortavelmente apadrinhados pelas Organizações Globo que trocavam figurinhas com o "painho".

E aí veio todo um arremedo de "cultura popular" que transformou as classes populares em paródias de si mesmas, numa caricatura que nem mesmo os mais ridículos programas humorísticos da TV aberta consegue abordar, embora a intelectualidade cultural dominante de hoje tente levar essa caricatura a sério demais, como se fosse a "verdadeira face do povo brasileiro".

Mas se a bregalização do país é vista por muitos intelectuais brasileiros como "libertária", é bom deixar claro que nada disso seria possível se o conservador Roberto Carlos não tivesse aberto tais caminhos, apoiando a ditadura militar e a ditadura midiática.

Além disso, antes de Paulo César Araújo se sentir ferido nas "perseguições" jurídicas a 300km por hora pelo "Rei", consentia perfeitamente com sua figura conservadora. Mas a "panelinha" intelectual quer fazer de PC Araújo um "guerrilheiro libertário", mesmo quando ele passa a fazer consultoria de brega para as Organizações Globo.

o que mostra que adocicar a imagem de alguém não é privilégio da tal "MPB privatista". O brega também faz isso e até exagera na dose, mas como todo pecado feito sob o pretexto do "popular", tudo é absolvido pela intelectualidade pró-brega de nosso país.

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