segunda-feira, 21 de outubro de 2013

REINALDO AZEVEDO COME FAROFAFÁ


Por Alexandre Figueiredo

Leiam o seguinte trecho:

"Até dou de barato que, pensando no rico dinheirinho — e não há mal nenhum em querer uma justa remuneração por seu trabalho —, os medalhões não tenham se dado conta de que estavam, sim, endossando a censura. Pensaram só nos seus umbigos estrelados, como se as massas estivessem enlouquecidas, querendo saber intimidades da vida do próprio Chico, de Djavan e de Caetano Veloso.

Paula Lavigne, como é de seu estilo, logo assumiu a liderança da “batalha”, com a sua sensibilidade costumeira e os pensamentos delicados de que é capaz. Deu no que deu. O preço da adesão de Roberto Carlos à luta por direitos autorais foi, ora vejam!, a defesa da censura. Certamente o chamado “baixo clero” no Congresso é capaz de coisas mais edificantes.

Chico Buarque finge conversar só com os deuses olímpicos, mas não é burro. Percebeu o rombo que essa história está abrindo em sua reputação. Caetano Veloso vai dar combate por mais tempo. (...) Chico agora decidiu recuar do seu “Cale-se” , que compôs em parceria com Gilberto Gil, outro proibicionista. Caetano talvez volte ao seu “É proibido proibir”. Lembrar essas coisas, com efeito, é um recurso fácil, mas confronta esses senhores com a sua própria obra e com a mensagem de “liberdade” que chegaram a encarnar."


Pelo tom agressivo combinado com uma certa ojeriza contra a elite da MPB, a opinião pública média poderia atribuir o trecho entre aspas como escrito por algum intelectual "bacana" escondido em alguma lista de colaboradores do blogue Farofafá.

Quem mora em Belo Horizonte, no entanto, talvez pudesse reconhecer nos argumentos nervosos algum ataque vindo do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, muito conhecido por sua verborragia irônica, violenta e supostamente "libertária".

No entanto, o citado trecho, pasmem, vem de um dos jornalistas mais reacionários do país, Reinaldo Azevedo, que só perde em reacionarismo para o neo-medieval Olavo de Carvalho porque o chamado "pit-bull" da revista Veja tem um apelo supostamente "mais pop".

O episódio do Procure Saber, que criou uma cruzada intelectual para derrubar a MPB como um todo, apenas cooptando, provisoriamente, a ala "maldita" (e fora dos salões do Procure Saber ou do corporativismo do ECAD) da MPB para abrir o caminho para o reinado da "pequena breguesia" instaurar o neoliberalismo (e não o socialismo) na música brasileira, gerou mais um aspecto insólito.

Pois ninguém menos que Reinaldo Azevedo se juntou ao coro articulado por Pedro Alexandre Sanches - que praticamente inocentou o blogueiro de Veja da culpa pela crise da Abril, atribuída apenas à decadência do papel impresso - tomando as dores de um Paulo César Araújo tristinho porque seus breguinhas de estimação não puderam entrar no primeiro time da MPB autêntica.

Para quem duvida, há os linques dos textos de Reinaldo Azevedo e Pedro Alexandre Sanches, para comparar os ataques que fazem contra Chico Buarque, não pelos erros que este realmente cometeu, mas pela simples vontade de derrubar a MPB e instaurar o "livre mercado" da bregalização do país.

CAMPANHA NADA PROGRESSISTA

A campanha intelectual, que se aproveita de equívocos cometidos pelos medalhões da "MPB privatista", para derrubá-la, tem pressa. Ela quer ver o Francis Fukuyama de frigideira numa batucada brasileira e deixar tudo que a música brasileira produziu, pelo menos, até 1976 (descontam-se as breguices), mofar nos museus ou nas coleções particulares dos "especialistas".

Só que quem imaginou que a campanha intelectual - que apelido de "Procure Não Saber" - iria fazer com que o socialismo viesse através da música brega, enganou-se completamente. A adesão ao coro puxado por Pedro Alexandre Sanches não é necessariamente progressista ou libertária.

Afinal, a campanha tem muito mais a ver com questões mercadológicas. Se os integrantes do Procure Saber têm seus interesses financeiros, a intelectualidade "combativa" não age de forma muito diferente.

Eles querem a renovação do mercado, não necessariamente a preservação da cultura brasileira. Que se dane o talento, a sabedoria, a arte. Fazer música, para essa intelectualidade, não é questão de expressão do espírito, mas de uma reprodução de fórmulas supostamente relacionadas à "liberdade" musical "transbrasleira"

É um tanto linha de montagem, outro tanto porralouquice pós-moderna, a "MPB dos sonhos" dessa intelectualidade. E é por isso que esta quer derrubar a MPB, por mais que sejam procedentes os erros cometidos por Chico Buarque, Roberto Carlos e companhia.

Os intelectuais é que querem, em primeira instância, atrair nomes diversos como Alceu Valença, Paulo Tatit, os herdeiros de Itamar Assumpção, Rui Maurity, Jards Macalé e outros para assinar o "abaixo-assinado" intelectualoide da bregalização do país, para depois essas mesmas pessoas serem abandonadas escondidas nas apreciações privadas da intelectualidade.

Portanto, nada de reforma agrária nem regulação da mídia. A intelectualidade pró-brega diz-se a favor destas causas, mas na verdade é contra. Puro charme para agradar as forças progressistas. Afinal, para "farofa-feiros" e simpatizantes, reforma agrária e regulação da mídia também são formas "tão higiênicas" quanto o Procure Saber.

O que a intelectualidade quer é o "livre mercado" sob o rótulo de "popular". Com toda a verborragia "libertária" hoje usada, mas que em dado momento será deixada de lado. Daí a inesperada presença de Reinaldo Azevedo nas festas intelectuais promovidas pelo "Farofafá".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...