sábado, 19 de outubro de 2013

RADIÓFILOS E A HISTERIA CORPORATIVISTA


Por Alexandre Figueiredo

É preocupante o que acontece nos "paraísos" corporativistas dos fóruns e sítios virtuais sobre rádio, em que a histeria e as fantasias estão acima da realidade, e um entusiasmo fora do comum, embora sem relação com a realidade, torna-se praticamente uma unanimidade entre seus adeptos.

Recentemente, duas notícias um tanto amargas envolveram o setor rádio. Uma é a possível volta, ainda não confirmada mas "comemorada" pelos radiófilos, da programação supostamente "roqueira" da Rádio Cidade. Outra é a migração de todo o dial AM brasileiro para o dial de FM, congestionando a frequência e decretando praticamente o fim da segmentação do rádio.

As duas notícias são ruins. A Rádio Cidade, por trás do rótulo de "rádio rock", havia sido um reduto de jovens ultraconservadores do Grande Rio, tomados de arrogância e reacionarismo golpista (pregavam até mesmo o fim do Poder Legislativo, a pretexto de "combater" a corrupção).

Já a migração do AM para o FM radicaliza e torna definitivo todo o processo de Aemização das FMs - uma forma de ditadura midiática em que "informação" e "prestação de serviço" eram pretexto para o poder midiático manipular a sociedade - , favorecendo todo um mercado jabazeiro que envolve políticos, dirigentes esportivos, empreiteiros, latifundiários e pastores mercenários.

No entanto, é só olhar os fóruns sobre rádio e mesmo algumas notícias relacionadas que o "otimismo" se expressa de forma contagiante. "A Rádio Cidade fez história (sic) na cultura rock do RJ", dizem uns tresloucados. "No FM, as AMs irão aumentar ainda mais a audiência", dizem outros lunáticos.

É um discurso fantasioso, que mais parece de criancinhas esperando o Papai Noel, gente que faz louvor a toda decisão vinda de cima. No caso da Rádio Cidade, com tanta rádio de rock muito melhor para voltar - mesmo a "linchada" Estácio FM dos anos 80 dá de mil a zero na arrogante e burra Rádio Cidade de 1995-2006 - , tinha que voltar justamente a pior delas?

E o rádio AM? Não teria sido melhor adaptar a tecnologia de celulares para recepção da Amplitude Modulada? Com o fim do AM, a história do rádio praticamente sofre uma "queima de arquivo", na qual os antigos erros midiáticos são acobertados e na concorrência radiofônica "feroz", as rádios mais fortes (ou melhor, mais ricas) levam sempre a melhor.

Quanto à linguagem, há também um erro colossal do mercado radiofônico, cujo preço já é cobrado. É que, em vez do rádio AM se renovar dentro da faixa AM, ocorre o inverso: velhas fórmulas de AM são jogadas para a Frequência Modulada em estado bruto, e apenas algumas maquiagens são feitas para "adaptar-se" ao meio FM.

Exemplos dessas maquiagens são as vinhetas "espaciais" tipo Jovem Pan 2 ou a ênfase de repórteres mulheres num meio tradicionalmente machista que é o radialismo esportivo. Ou então a adaptação dos chamados "programas de comunicador" a um humorismo histérico da linha Pânico na TV, usando os telefonemas dos ouvintes para carregar ainda mais nas piadas sem graça.

Há muito o rádio FM não tem grande audiência. E a Aemização das FMs nem de longe representa uma esperança, antes jogasse o FM para o fundo do poço, quando muito para a beira do precipício. Só que o corporativismo dos radiófilos e "especialistas" que escrevem colunas sobre rádio, salvo exceções, ainda carregam a ilusão de que o rádio FM está "em alta".

Eles se iludem com os números fictícios jogados pelos institutos de pesquisas. Se eles não são muito confiáveis na hora de mostrar pesquisas eleitorais, eles o seriam quando pesquisam audiências de rádios? Além disso, a "audiência gigantesca" das FMs é um mito construído por uma má interpretação das sintonias de rádio em ambientes coletivos.

Afinal, 90% da audiência de rádio se dá em sintonias supostamente coletivas. São ambientes frequentados semanalmente por mais de 10 mil pessoas, talvez até dez vezes mais ou além. No entanto, apenas uma pessoa realmente está ouvindo a emissora, mas o "alcance"de sua sintonia faz as pesquisas de audiência atribuírem à rádio os tais 10 mil ou 100 mil ouvintes.

O jabaculê aumentou no rádio FM e saiu até mesmo dos pretextos musicais. Tanto que a chamada "música popular" (leia-se brega-popularesco) já adota outros métodos de jabaculê, recorrendo até mesmo a acadêmicos que dão um verniz "etnográfico" aos antigos listões das rádios bregas.

Hoje o rádio FM virou até mesmo "caixa dois" da corrupção dos dirigentes esportivos, e o jabaculê se dá de tal forma que produtores de rádio FM chegam a oferecer pagamento de contas de luz ou de fornecimento de bebidas para botequins que sintonizarem suas transmissões de futebol em altíssimo volume, até mesmo durante a noite, a pretexto de "atingir" quarteirões de um mesmo bairro.

O rádio brasileiro já foi de excelente qualidade. Hoje virou um balcão de negócio de grandes corporações, grandes redes, ou de fórmulas viciadas que "deram certo" dos anos 90 para cá. Só que o problema está nos adeptos do hobby radiófilo, que veem cada embuste lançado em FM como a fórmula milagrosa, como a salvação suprema para suas vidas.

A gente fica imaginando se são apenas as rádios "neopentecostais" que transformam o radialismo em "religião", se até mesmo uma 89 FM ou mesmo a fórmula do "Aemão de FM" também não teriam seus "devotos", gente que se comporta como uns zumbis hipnotizados, que quando tudo está bem reagem com uma alegria praticamente infantil, mas quando algo vai mal, se enfurecem.

A realidade que ocorre, porém, é ingrata com o rádio FM. Daí o tal preço cobrado pela ciranda empresarial, pelo empastelamento de ideias - como o radialismo rock brilhantemente trabalhado pela Fluminense FM e reduzido a piada sem graça pela 89 FM e Rádio Cidade - e pela concentração do poder dos donos de FM na concorrência predatória contra o AM.

Um sinal dessa realidade é a audiência baixíssima que o "Aemão de FM" tem por todo o país, atingindo desde a Rádio Metrópole FM, de Salvador - a não-eleição de seu "astro-rei" Mário Kertèsz mostra que a emissora não está tão em alta como ainda se supõe - e as surras de audiência da Rede Transamérica e da Bradesco Esportes FM, que geraram muitas demissões.

Por trás da euforia radiófila, muitos profissionais de rádio são demitidos e muitos anunciantes ficam no prejuízo - amenizado pelo fato que é mais fácil vender produtos com propaganda em TV e jornal do que em rádio FM - por causa da baixa audiência de FM que supostos "trocentos ouvintes" registrados no Ibope e outros institutos não conseguem disfarçar.

Além disso, a decadência do FM segue o ritmo da decadência da TV e da mídia impressa. É até estranho que os mesmos que superestimam a crise da mídia impressa - que chegam a anunciar a "morte" do papel - subestimam e até renegam a decadência do rádio FM, que acontece em ritmo e intensidade maiores do que até mesmo a de revistas e jornais.

O rádio FM é afetado seriamente pela concorrência da Internet, com blogues mais abrangentes que rádios noticiosas e repertório musical ainda mais vasto, diversificado e qualitativo disponível. E para quem duvida da decadência das FMs, é bom passear pelas ruas em qualquer canto das cidades para ver que a maior parte das pessoas está ocupada demais para se ligar em rádio FM.

Portanto, o corporativismo é um problema sério. Já tenho experiência de ver grupos fechados defendendo interesses privados como se fossem públicos e achando que a sociedade toda está sujeita à vontade deles. Criam fantasias diversas, exaltam decisões vindas "de cima", esperando algum milagre. Mas a vida real acontece à revelia deles, e sobretudo alheia às causas dos mesmos.

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