quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PROCURE SABER, MAS TAMBÉM PROCURE PENSAR


Por Alexandre Figueiredo

É muito complicada a situação da cultura brasileira, sobretudo na chamada Música Popular Brasileira, perdida entre duas correntes extremas e igualmente prejudiciais.

De um lado, temos os medalhões da MPB autêntica, há mais de 40 anos no mercado, que constituem numa espécie de "Academia Brasileira de Letras" musical.

De outro, temos uma série de penetras, incluindo até "mulheres-frutas" ou mesmo mendigos bêbados que parodiam danças de odaliscas nas ruas do interior, para os quais a intelectualidade quer dar o título de "verdadeira MPB". A MPB como "casa da Mãe Joana".

E para quem imagina que a saída de Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque e "dama de honra" do ECAD, do Ministério da Cultura, descomplicou as coisas, a situação ainda está para ser discutida.

Há a atitude polêmica de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Djavan e outros, mesmo apenas intérpretes como Gal Costa, por exemplo, que se engajam no movimento Procure Saber.

Para quem não sabe, o Procure Saber é um movimento em que medalhões da música brasileira lutam contra um projeto de lei que permite a produção de biografias não-autorizadas de pessoas vivas ou mortas.

A intelectualidade dominante está em polvorosa, porque, em tese, os grandes nomes da MPB viraram medievais e passaram a defender o obscurantismo de só permitir biografias que solicitem sua autorização pessoal, sobretudo mediante dinheiro.

Fica fácil criar um maniqueísmo. De um lado, o "mal", Roberto Carlos proibindo a circulação de um livro do queridinho da intelligentzia, Paulo César Araújo, só porque ele levou a obra adiante sem entrevistar o cantor capixaba. Nesta perspectiva, Araújo seria o "bem".

Nem um lado nem outro. É certo que Paulo César Araújo tem o direito de lançar seu livro, e admite-se que o historiador dos bregas tentou agendar algum contato com Roberto, em vão. E que Roberto zela demais pela sua imagem, que mantém um escritório só para "monitorar" o que andam dizendo dele na imprensa.

Mas o problema é que distorções de imagem existem de diversos lados. Se Roberto não se dispôs sequer a dar uma entrevista solicitada pelo escritor, este também havia distorcido as coisas no seu livro anterior, Eu Não Sou Cachorro Não.

Se Roberto zela por uma visão oficial de sua pessoa, Araújo também criou visões oficiais de seus ídolos, alguns influenciados abertamente por Roberto Carlos. Araújo tentou creditar os ídolos bregas como "militantes", embora classificasse-os, na introdução do livro, como "despolitizados", gastando palavras só para comparar um sucesso de Waldick Soriano com outro de Zé Kéti.

Se Roberto vetou a publicação da biografia não-autorizada, o lobby de Araújo e Patrícia Pillar, que fez um documentário sobre o ídolo brega, também vetaram a veiculação de um vídeo de uma antiga entrevista em que Waldick Soriano elogiava a ditadura e defendia valores machistas.

A intelectualidade dominante e festiva de hoje ignora isso, mas ela contraditoriamente reclama a verdade história dos anos da ditadura militar, mesmo para Waldick. Waldick era um sujeito conservador, machista, moralista até, mas foi classificado pelas biografias do historiador e da atriz-cineasta como se fosse um "cantor de protesto" sofredor e "libertário".

Nesse vendaval de contradições que atinge nossa intelectualidade "joaquimbarbosamente provocativa" de "farofa-feiros" e simpatizantes, o incidente entre Roberto Carlos e Paulo César Araújo quebrou a rede de adorações e mitologias que envolvia as elites intelectuais de nosso país.

Antes, Caetano Veloso era considerado a unanimidade maior, mas suas posições favoráveis a figuras como Antônio Carlos Magalhães e mesmo Fernando Henrique Cardoso, mestre da intelectualidade festiva de hoje mas do qual ela quer fugir como o vampiro foge do alho e o diabo da cruz, o fizeram deixar de ser visto de forma tão unânime quanto antes.

Roberto Carlos vinha de carona, como se fosse um patrono do Tropicalismo. Então endeusado como "o homem que modernizou a Música Popular Brasileira", através de suas contribuições com a Jovem Guarda e a ótima e subestimada fase soul (em que mesmo o hino católico "Jesus Cristo" se insere com o arranjo vibrante da gravação de 1969), o incidente manchou o antigo carisma.

Para complicar, o movimento Procure Saber - que é capitaneado pela ex-atriz, ex-mulher de Caetano e agora produtora cultural, Paula Lavigne - inclui as adesões de Erasmo Carlos e Gilberto Gil, nomes da MPB autêntica que ainda estão em boa conta com a intelectualidade pró-brega que precisa também defender parte da MPB autêntica por razões estratégicas.

A situação é complicada, porque não é fácil adotar uma postura favorável ou contra quem quer biografias autorizadas ou não. Somos um país cuja mídia sensacionalista é ao mesmo tempo enrustida e libertina, afeita a baixarias mas politicamente correta, em que valores moralistas e imorais se misturam como numa relação sexual promíscua.

De um lado, há o zelo excessivo de certas figuras, como Roberto Carlos, que não quer revelar detalhes tão pequenos de sua vida, como o acidente que fez amputar uma das pernas ou a razão de suas superstições pessoais. Ou então de Caetano, que quer promover uma imagem de figura sagrada, de totem vivo intocável para o qual ele recomenda veneração absoluta.

De outro, há a ganância sensacionalista, a mesma que promove sub-celebridades às custas de factoides ridículos, e que se preciso promove até mesmo a depreciação de pessoas como o saudoso Heath Ledger, o simpático rapaz boa praça que não poderia ser confundido com o vilão Coringa que interpretou magistralmente no cinema.

Num Brasil que alterna surtos imorais e moralistas, sem saber para que lado vai a liberdade humana, por vezes estabelecendo limites rígidos, por outras pregando a derrubada sem critério de todos eles, o Procure Saber não parece o "Cansei" emepebista que certos articulistas tentam definir.

Ninguém quer ver sua imagem sendo distorcida por algum biógrafo incompetente e oportunista. Nem Roberto Carlos, nem Leandro Lehart. E o mercado biográfico, em si, também é complicado, porque muitas vezes a mentira confortante vale mais do que a verdade dolorosa. Muitas biografias fantasiam a imagem de ídolos por causa disso.

Não leio muito biografias de famosos. Só mesmo as bastante conceituadas, de gente como Ruy Castro, por exemplo. Teve uma biografia não-autorizada de Mick Jagger que não me interessou, porque pode ser um trabalho não confiável. Existem biógrafos e "biógrafos".

Para piorar, tanto o zelo excessivo quanto a falta de zelo não garantem que maus biógrafos ou verdadeiros farsantes historiográficos deixem de entrar em ação. Pelo contrário, há biógrafos farsantes tanto entre os oficiais quanto entre os não-oficiais. Porque falsear uma biografia não é questão de ser autorizado ou não, mas uma questão de falsidade e jogo de interesses.

Por isso, sem aqui apresentar uma posição definida, eu prefiro acreditar que, para discutirmos a atuação do Procure Saber, seria melhor vermos os vários lados da questão. Procuremos saber, mas procuremos pensar.

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