quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PROCURE SABER E A CENSURA ÀS BIOGRAFIAS

WALDICK SORIANO EM LP TRIBUTO A ROBERTO CARLOS - Ídolos igualmente conservadores, mas tratados de forma divergente por intelectuais dominantes.

Por Alexandre Figueiredo

Como havia escrito, não há maniqueísmos no episódio do Procure Saber. Se os medalhões da MPB envolvidos no movimento erram pela repressão às biografias não-autorizadas, não serão os intelectuais, que os combatem e querem que a MPB seja substituída por uma linhagem de bregas "injustiçados", a ter postura mais libertária quanto ao caso das biografias.

Se nomes como Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano Veloso erram pelo zelo excessivo de suas imagens, temos que abrir o olho para o outro lado, porque intelectuais oportunistas como Paulo César Araújo estão aí para derrubar a MPB, privatizar o rico patrimônio cultural que temos e que o grande público quase não conhece e deixar o povo à merce do lixo cultural brega.

Sou a favor que as biografias sejam uma produção livre, sem depender de autorização dos biografados e seus herdeiros legais. Mas também não sou a favor de biografias não-oficiais que busquem visões sensacionalistas ou queiram também, à sua maneira, "limpar a barra" de pessoas de seu interesse.

Isso não existe só na MPB. No "funk", no brega "de raiz", na axé-music, no "sertanejo", há também aquela obsessão de trabalhar uma imagem "limpa". O grande problema é a diferença de abordagem quanto se fala na imagem "limpa" desejada pela MPB e na imagem "limpa" desejada pelos bregas.

Se depender da intelectualidade cultural dominante, é "errado" para a MPB a defesa do zelo de sua imagem porque seus intérpretes querem esconder o que há de "desagradável". Já no caso do brega, a imagem "limpa" está associada a um procedimento de "mostrar o agradável".

É um elitismo às avessas. Sendo "elite", a MPB autêntica é vilanizada por querer esconder aspectos desagradáveis de suas vidas. Sendo "popular", os bregas são santificados porque, mesmo escondendo aspectos desagradáveis, são enfatizados pela busca de uma imagem "agradável".

Claro, não existe uma imagem "agradável" oficial para os bregas, apesar deles fazerem sucesso comercial facilmente, já que foi institucionado todo um esquema de mercado, inclusive com práticas ilícitas de jabaculê e politicagem midiática, que fez o povo se acostumar com as breguices de sempre.

ODAIR JOSÉ REJEITOU IMAGEM DE "REBELDE" DADA POR PAULO CÉSAR ARAÚJO

O que a intelectualidade quer é supor que a censura às biografias não-oficiais se limita somente aos medalhões de uma parcela da MPB que os mesmos intelectuais desejam derrubar. Desmoralizam Chico Buarque não pelos erros ou equívocos que ele cometeu, mas usando esses erros para expressar o antigo ódio cego que tinham contra o cantor.

Tentam dar a impressão que o brega não iria defender as mesmas posturas do Procure Saber ou se, ao menos, não exerceria também um zelo excessivo por sua imagem. O caso Waldick Soriano, em que seus partidários queriam esconder o passado conservador do cantor, no entanto mostra o outro lado disso.

Odair José, outro ídolo brega reportado por Paulo César Araújo, havia rejeitado a imagem de "rebelde" que o historiador trabalhou sobre ele. "Eu só escrevo sobre o relacionamento de homem e mulher", afirma o cantor, achando exagerada a imagem "subversiva" que foi plantada a respeito dele pelos partidários do brega.

Aparentemente, a intelectualidade não teme que biografias não-autorizadas, assim como trabalhos historiográficos (quando envolvem não um biografado, mas um contexto histórico de vários personagens) e documentários, expressem uma visão desagradável sobre o brega e derivados.

No entanto, esse risco existe. Como é o caso de um possível trabalho afirmando que o discurso "social" do "funk carioca" foi inventado pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha, e que MC Leonardo e sua APAFUNK nada seriam se não fosse o dedo da Globo Filmes e do cineasta José Padilha, que, a despeito da postura "progressista" do funqueiro, é ligado ao Instituto Millenium.

Portanto, a discussão em torno das biografias tem seu pior problema desviado pela intelectualidade pró-brega. Ela quer apenas é derrubar a MPB, colocando os "coitadinhos" do brega no lugar. Pouco importa, para ela, as questões como o abuso da exploração da privacidade de qualquer pessoa.

Afinal, se uma parcela de intelectuais "bacanas" imagina que um Chico Buarque erra ao querer promover uma imagem "limpa" de si mesmo e um Leandro Lehart, por exemplo, acertaria se fizesse a mesma coisa, então o problema das biografias continua praticamente inalterado.

O que se deve discutir é que existem biografias ruins nos dois lados. Biografias oficiais e muito bem autorizadas que nada dizem de verdadeiro ou honesto. Biografias não-oficiais e muitíssimo não-autorizadas feitas tão-somente para o lucro fácil através do assassinato de reputações. Ambos são erros terríveis que nada contribuem para a memória justa de alguém famoso para a posteridade.

Paulo César Araújo, o "herói" quase divino da intelectualidade dominante, pagou com Roberto Carlos o erro que ele cometeu com Waldick Soriano. Araújo queria trabalhar o Waldick "libertário" e "subversivo", que nada tinha a ver com o ídolo ultraconservador que o cantor foi. Lutou para vetar qualquer divulgação nesse sentido, antes mesmo de ser "vítima" de Roberto Carlos.

Se nem no punk rock as historiografias ou biografias escondem o caráter conservador de um nome como o falecido Johnny Ramone, dos Ramones, por que a intelectualidade se preocupa tanto com a recordação da imagem conservadora de Waldick?

Quem quer a verdade histórica dos anos de chumbo deveria ficar quieta quando fatos assim ocorrem. Os mesmos intelectuais pegam pesado nos erros de Chico Buarque, cobram a memória da repressão da ditadura, no entanto querem que se apague o passado ultraconservador de Waldick. Trocar o Procure Saber pelo "Procure Não Saber" em nada contribui para o resgate da memória cultural do Brasil.

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