sexta-feira, 4 de outubro de 2013

NEM SEMPRE A VAIA CONSAGRA


Por Alexandre Figueiredo

Em sua recente entrevista ao jornalista João Paulo Martins, publicada no blogue Farofafá, o cantor e compositor Jards Macalé, cuja importância na música brasileira é indiscutível e cujo talento inclui grandes e arrojadas obras, no entanto escorregou ao dizer, citando Nelson Rodrigues, que "só a vaia consagra".

A não ser que não levemos muito a sério essa frase, até porque o contexto de polêmica como um fim em si mesmo faz tal ideia se perder na corda-bamba das opiniões irremediavelmente controversas, acreditar na vaia como um atestado de genialidade de um artista é muito, muito perigoso.

Se Jards estiver falando apenas de si mesmo, tudo bem. Se na experiência pessoal dele, ser vaiado foi uma honra e um benefício para ele, tudo bem. Mas o perigo é levar essa ideia muito a sério e achar que todo mundo que é vaiado e leva pau da crítica vai virar um gênio por isso.

Afinal, esse raciocínio fez com que os conservadores e retardatários bregas também fossem vistos como "geniais" só porque foram vaiados. Vide Odair José no evento Phono 73. Se as pessoas acreditarem que o que é bom para Jards Macalé é necessariamente bom para Odair José, ninguém está sendo progressista, apenas raciocina feito o udenista Juracy Magalhães.

Para quem não sabe, Juracy, figura história da direita política brasileira, havia dito que o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil. Se bem que, na comparação, há a inversão semântica entre Jards Macalé / Brasil (no sentido tropicalista-modernista) e Odair José / Estados Unidos (no sentido de Odair ser o nosso Pat Boone).

"MODERNISMO DE RESULTADOS"

Infelizmente, como toda cartilha tropicalista - em que os conceitos do establishment caetânico, ou da "máfia do dendê", agora são defendidos até pela ala "maldita" do Tropicalismo - , Jards acredita no tal "leque aberto" da cultura brasileira, no "livre" convívio entre alhos e bugalhos.

Como sabemos, essa "liberdade" que aceita ritmos autênticos como maracatu, samba e frevo, como consente na supremacia de ritmos brega-popularescos (como o "funk" e o decadente "forró eletrônico"), pouco tem a ver com cultura livre, tendo muito mais a ver com "livre mercado" e "livre iniciativa".

Afinal, os ritmos popularescos são apenas expressões de sucesso econômico. Lota plateias, atrai público, aumenta audiência, traz fama e lucro. Questão de mais cifrões. Não é cultura no sentido da produção de conhecimento, mas no sentido de "cultivo", dentro de um coronelismo midiático que trabalha esse "popular" que a intelectualidade dominante tanto defende às lágrimas.

O "modernismo de resultados" aceita o "tudo do tudo", sem perceber os verdadeiros problemas nisso. Afinal, os intelectuais e artistas que "aceitam" o "funk", o brega etc, têm acesso a coisas bem melhores do que isso. Mas o "povão" que consome essas porcarias não tem acesso ao que só a intelectualidade, a imprensa e os artistas apreciam de forma bastante privativa.

Daí um certo tom discutível, visto de forma romântica pelos ídolos tropicalistas e pós-tropicalistas, ou visto de forma cínica por antropólogos, sociólogos, jornalistas e cineastas comprometidos com a bregalização do país.

O "povão" não conhece Jards Macalé, nem Torquato Neto, nem Sérgio Ricardo, nem Itamar Assumpção, nem Vânia Bastos, nem Quinteto Violado. Ele liga o rádio e, quando muito, só ouve umas três músicas de Djavan que as rádios se dispõem a tocar pela pressão feita pelas trilhas de novelas.

Portanto, esse "leque aberto" não é tão aberto assim. E, por debaixo dos panos, só uma parcela da música brasileira produz conhecimento. A turma de Caetano, Gil, Jards, Zezé Motta, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, Quinteto Violado, Ruy Maurity, Arrigo etc etc etc produz conhecimento, produz cultura no sentido de progresso social pela arte.

E o resto? Os "geniais" funqueiros, cafonas, forrozeiros-bregas, axézeiros, breganejos, sambregas, tecnobregas etc só produzem hits, sucessos comerciais, música de consumo. Se a intelectualidade não vê problema entre um artista de talento espontâneo e peculiar e um cantor que não passa de marionete de um empresário, isso não significa que ambos tenham o mesmo valor.

Se a vaia une, aparentemente, artistas de talento audacioso e outros que são apenas medíocres, o ponto comum para por aí. Não dá para levarmos adiante e tratar os medíocres como geniais, só porque foram vaiados, levaram pau da crítica especializada e agora fazem sua choradeira nos circuitos intelectuais.

Deve-se discernir a arte da mercadoria. Mas no Brasil cheio de mimetismos discursivos, em que fulano faz questão de ser aquilo que não é, é muito complicado convencer as pessoas dessa necessidade de discernimento.

Principalmente se percebemos que a própria intelectualidade que prega a bregalização do país se autoproclama "progressista", com seus "farofafeiros" e "fora-do-eixo". Seus vínculos históricos e ideológicos com as abordagens de cultura popular inspiradas em Fernando Henrique Cardoso são explícitos, mas poucos se preocupam com esse detalhe.

Faz-se vista grossa. Cultiva-se a memória curta. Há pessoas que fazem de conta que possuem virtudes sensacionais que, na verdade, nunca têm. E aí vem a vaia como atestado de genialidade. Não é bem assim. Nem todo vaiado é um Jards Macalé, um Nelson Rodrigues. Nem todo vaiado é um gênio.

Outros são apenas Latinos, Lelekes, Tchans, Telós, Calcinhas, Guimés, Leharts, que são apenas medíocres. São apenas pessoas a chorar pelo leite derramado da breguice feita. Deveriam ter pensado duas vezes antes de fazer suas breguices. Se foram "mal-orientados", também aceitaram tal condição.

Hoje esses bregas querem ser "gênios da MPB", só que aí é tarde demais. Nem sempre a vaia consagra.

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