sexta-feira, 25 de outubro de 2013

NÃO SERIA MELHOR REGULAR O MERCADO DE BIOGRAFIAS?


Por Alexandre Figueiredo

Na grande discussão sobre a questão das biografias no Brasil, a verdade é que existe um grande dilema em jogo, subestimado pela intelectualidade dominante. É o duplo risco de, no lado das biografias rigorosamente autorizadas, haver a cobertura "chapa-branca" dos biografados e, no lado das biografias sem autorização prévia, da cobertura sensacionalista e até depreciativa.

Eu sou contra a proibição de biografias não-autorizadas, porque sei que isso limita muito à construção de uma memória histórica. Vide tantos anos em que historiadores, sobretudo a partir dos primeiros trabalhos ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fizeram a respeito da História do nosso país.

Foram forjados supostos heróis cuja imagem oficial nada tinha de humanos. E situações foram distorcidas para mitos que passaram a valer mais que os fatos. Como, por exemplo, no tal episódio do "grito do Ipiranga", que teria marcado a Independência do Brasil.

A visão oficial diz que Dom Pedro I, heroicamente montado sobre um belo cavalo, levantou a espada naquele 07 de setembro de 1822 e gritou bravamente, não se sabe para que contexto, a famosa frase "Independência ou Morte".

Há muita controvérsia se esse grito realmente foi dado, pelo menos da forma que a História registra, mas historiadores recentes, comprometidos com a verdade dos fatos, revelaram que Dom Pedro I não estava montado num belo cavalo, mas num modesto jumento, e estava com vontade de fazer necessidades fisiológicas na ocasião do suposto grito.

Consta-se que o processo de Independência do Brasil, ou seja, sua autonomia em relação à coroa portuguesa - independência que, a rigor, só se efetivaria realmente em 1889, com a República - , teria sido feito mesmo pelo parlamento brasileiro e sob a habilidade política de José Bonifácio de Andrada e Silva, ministro do Império conhecido como o "patriarca da Independência".

As distorções históricas não são caso exclusivo do Brasil e, na França, um grupo de intelectuais, sobretudo Marc Bloch - morto pelas tropas nazistas em 1944 - decidiu quebrar com a hegemonia da "história dos acontecimentos" e do monopólio de celebridades e personalidades políticas como agentes transformadores da História da Humanidade.

Bloch havia criado a Escola dos Annales e fundado um outro modelo de abordagem histórica, a História das Mentalidades, em que não somente famosos ou políticos seriam agentes históricos, mas comunidades, figuras anônimas ou simples fenômenos sociais, como uma simples culinária regional, por exemplo, seriam também responsáveis pela transformação histórica de um povo.

A abordagem histórica pode até mesmo envolver brincadeiras infantis. Ou mesmo a história dos mendigos de uma cidade francesa do século XVIII. Ou mesmo a história do trigo, da tecelagem, dos transportes coletivos. Ou mesmo uma história das empregadas domésticas. Há a história de rituais, de brincadeiras, de profissões, de processos sociais.

Isso foi uma ruptura importante das abordagens históricas oficiais, o que mostra um passo que, sabemos, seria regredido no país se houvesse um monopólio de biografias - ou, por equiparação, historiografias e documentários cinematográficos - vinculadas necessariamente à vontade dos biografados.

Mas a intelectualidade dominante não pensa nisso. Ela usa todo tipo de contestação ao movimento Procure Saber mais como uma campanha para desmoralizar a MPB "elitista" do que para promover maior transparência no mercado de biografias e historiografias no Brasil.

Enquanto a intelectualidade se autopromove por erros cometidos até mesmo por Chico Buarque, poucos conseguem enxergar o outro lado, quando ídolos "populares" também exerceriam zelo rigoroso por suas imagens e sua privacidade.

Um "popular" Alexandre Pires, por exemplo, tem uma sede de controle de imagem comparável à de Roberto Carlos. Funqueiras ditas "solteiríssimas" na verdade estariam escondendo suas condições de mulheres muito bem casadas tanto para não afetar a imagem de "sensuais" que trabalham na carreira quanto para proteger seus maridos na privacidade.

Será preciso dizer mil vezes que o "herói-vítima" da situação, o historiador Paulo César Araújo, que tanto reclama de ter sido vítima da censura de Roberto Carlos, contribuiu para censurar a imagem ultraconservadora de Waldick Soriano, que pegaria muito mal para a "reabilitação" do cantor nos seus últimos anos de vida?

O "popular" comete pecados que não seriam absolvidos por seu contexto. As baixarias do "funk carioca" não podem ser consideradas mais "evoluídas" do que as que se observa com os comerciais de TV, porque é o mesmo processo de degradação sócio-cultural e moral, o que é feio para as elites não pode ser bonito se atribuído ao contexto do "popular". Não pode, mas é.

Por isso haver uma regulação do mercado biográfico seria melhor. Rever os artigos 20 e 21do Código Civil brasileiro, que estabelecem um sentido rigoroso na preservação da privacidade, é fundamental, não para transformar o mercado biográfico num vale-tudo editorial, mas estabelecer um equilíbrio que evite tanto a chapa-branca quanto o bullying biográfico.

Portanto, deve-se estabelecer critérios mais democráticos para a produção de biografias. Se eu quiser, por exemplo, fazer a biografia de Chico Buarque, eu desejo não ter a necessidade de pedir autorização a ele para fazê-lo. Mas eu nunca chegaria, também, à futilidade de dizer que sua rebeldia foi pura invencionice da RCA Italiana.

Para uma intelectualidade que acha que "baixarias" na cultura do povo pobre são refresco, questões desse tipo têm importância secundária. Elas não querem regulação da mídia, que comprometeria os divulgadores da bregalização cultural, nem reforma agrária, que afetaria os patrocinadores de muitos bregas e nem regulação das biografias, que frearia o sensacionalismo.

Essa intelectualidade só quer derrubar a MPB, na pressa de impor o "fim da História" que substituirá nosso rico patrimônio brasileiro pela tal "cultura transbrasileira" de bregas "coitadinhos" e porraloucas "performáticos" kitsch.

Pouco lhes importa a produção de conhecimento: para a intelectualidade ultrabadalada, só lhes interessa a cafonice, a sampleagem sem crédito, a pirataria, a precarização do trabalho e a derrubada de qualquer tipo de identidade sócio-cultural.

Para a intelectualidade pró-brega, o que interessa é que todos nós sejamos tudo, menos nós mesmos. Daí que sua campanha contra o Procure Saber nem de longe está preocupada com a democratização das biografias, em que pese a apropriação do debate neste sentido.

Para "farofa-feiros", "foras-do-eixo" e similares, o brasileiro não é cachorro, não. Mas também está longe de ser ele mesmo. E como defender a transparência biográfica para quem se preocupa mais com a boa imagem do "outro" do que de ter qualquer consciência do "eu", é um grande mistério.

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